O veneno continua sobre a mesa…

*Por Luiz Fernando Leal Padulla

Aproveitando o feriado prolongado de Carnaval, assisti ao documentário “O veneno está na mesa 2” (2014), que passou no canal History Channel e também está disponível na internet – a primeira parte, de 2011, não só já assisti, como uso frequentemente em minhas aulas de Biologia.

O PIB do Brasil sempre foi amparado significativamente pelo agronegócio que, a cada ano, bate seus próprios recordes de produção. No entanto, isso tem seu custo não apenas financeiro, mas ambiental. Que o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos, isso ninguém mais duvida e já deve ter ouvido em qualquer lugar. No entanto, o que isso, realmente significa?

Cânceres, transtornos psíquicos, alergia alimentar e vários casos de morte são alguns dos efeitos do consumo indireto desses produtos que estão presentes em nossos alimentos – e acredite, não basta apenas “lavar bem” para que limpemos o alimento, infelizmente. Paralelamente, a perda da biodiversidade, insetos polinizadores, contaminação das águas, do solo e do ar, morte da fauna e flora. Esses são fatores que estão esgotando a terra e criando um caminho sem volta para a humanidade.

O que podemos fazer? Tomar algumas atitudes antes de mais nada. Conscientizar-nos e plantar essa semente para outras pessoas. Sim, é um trabalho árduo, ou como costumo dizer, “de formiguinha”, mas que necessita de nossos esforços.

Nos governos, a bancada ruralista é a grande maioria e preocupa-se apenas com o lucro para seus negócios, arrasando a terra e prejudicando o povo. Há uma inconsistência entre o atual padrão do agronegócio e a saúde pública.

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Crédito: contraosagrotóxicos.org

Como traz o documentário, no Congresso, os ruralistas dominam. E para os 40 mil proprietários rurais, responsáveis por 40% das terras, são eleitos, no mínimo, 120 deputados. Já os defensores da agricultura familiar e da agroecologia, representantes dos 12 milhões de pessoas, são apenas 10 deputados federais. Eis aí um grave problema.

O lobby que o Congresso sofre, incluindo a aprovação de leis absurdas que favorecem os grandes latifundiários, é um dos entraves para a transição do agronegócio tradicional para uma agricultura sustentável. Por sinal, uma necessidade apontada não apenas pelos movimentos sociais, mas pela própria FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) que alerta da necessidade de uma agricultura mais voltada aos camponeses como salvação para a alimentação humana.

Atividades de monocultura, sob o domínio de grandes latifúndios, geram apenas 30% do alimento mundial, ainda que de baixa qualidade (contaminados com químicos e cultivados com produtos transgênicos – ver “Os casos envolvendo a Monsanto e outras corporações”). Em contrapartida, metade dos alimentos mundial vem dos pequenos produtores com sua agricultura familiar, detendo apenas 20% das terras. Seria esse um dos motivos de vermos constantemente uma política de criminalização dos movimentos sociais, que lutam contra esse domínio do agronegócio? E ao mesmo tempo omitem-se informações sobre danos dos agrotóxicos e das políticas predatórias do agronegócio?

Quando aluno de mestrado na Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (ESALQ/USP), sob a orientação do saudoso Prof. Sérgio Batista Alves, sempre vivíamos essas dificuldades por tentarmos pesquisar inseticidas alternativos e biológicos. A pressão era (e continua a ser) grande. Faltavam incentivos para as pesquisas e quando vinham, a concorrência com produtos químicos de grandes corporações era desigual. A vantagem, porém, era que usávamos fungos e bactérias, fazendo o controle microbiológico, sem causar danos ambientais e conseguíamos resultados altamente satisfatórios. Além de não prejudicar o ambiente, tais técnicas não permitia o surgimento de “insetos-pragas” resistentes, tão comum quando se usa os agroquímicos.

A cada dia, via que esse tipo de controle biológico, era uma das alternativas mais eficiente e viável, sem degradação ambiental, preservando espécies “não-alvo” como os polinizadores, sem custo elevado para os produtores e tantos outros benefícios, sempre havia a pergunta: por que não investem nisso? A única resposta plausível: não geraria tantos lucros para as grandes empresas e seus acionistas.

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Por mais que alguns ainda defendam o sistema capitalista, explorador de pessoas e do ambiente, é cada vez mais evidente que a solução (e por que não a salvação?!) é a reorganização de nosso princípios sociais: uso harmônico e ecológico do ambiente, dando oportunidade para cada pessoa gerir e produzir alimentos.

Para que isso se torne realidade, faz-se necessária a conscientização de todos. Há muito coisa a ser feita, mas para que se consiga construir uma casa, é necessário o primeiro tijolo. Que tenhamos coragem de começar essa construção!

Em tempo: que tal conhecer um pouco mais sobre a agricultura orgânica? Visite o site do Sítio A Boa Terra: http://www.aboaterra.com.br/

 

*Biólogo e professor, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências

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5 comentários sobre “O veneno continua sobre a mesa…

  1. Assunto bastante polêmico e também abordado pela Geografia. Além dos agrotóxicos, costumo também levantar os prós e contras dos OGM’s, os popularmente conhecidos como transgênicos.

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