M-26-7: Revolução, humanismo e futuro

Por Luiz Fernando Leal Padulla*

Há 67 anos nascia, sob a brilhante mente de Fidel Castro e seus camaradas, o revolucionário Movimiento 26 de Julio, que teve êxito na derrota do ditador Fulgência Batista, permitindo não apenas a ascensão do povo ao poder, mas a instalação do regime socialista em Cuba, promovendo a reforma agrária e o confisco de terras de latifundiários estadunidenses.

Com isso, as sanções impostas pelos EUA – já iniciadas pré-revolução pelo então presidente Eisenhower – foram ainda maiores, justamente pelo medo da ascensão do regime socialista para outros países. Isso fez com que Cuba estreitasse relações com a URSS, que se torna importante aliada em contraposição aos abusivos – e desumanos – embargos. A imposição dos bloqueios financeiros e de mercadorias não atingiram a ilha de forma significante graças à aliança com os soviéticos, que passam a comprar o açúcar excedente – antes comprado pelos EUA e aliados – em troca do fornecimento de petróleo para o país – combustível que também foi proibido de entrar em Cuba.

Dada a ineficiência das atitudes, os EUA financiaram e apoiaram contrarrevolucionários a invadirem Cuba, desencadeando a fatídica e vergonhosa derrota imperialista pelos patriotas cubanos na Bacia dos Porcos.

Como última alternativa, agora sob os mandos de Kennedy, as sanções são totais: nenhum aliado dos EUA poderia ter qualquer tipo de relação comercial com Cuba. Cuba resistiu. No entanto, com a queda da URSS, o impacto desse estrangulamento contra Cuba foi sentido. Mas como sempre, o apoio do povo formou uma exemplar e consciente resistência. Resistiram e resistem até hoje. Bush apertou ainda mais os embargos, punindo qualquer companhia que mantivesse relação com a ilha. Posteriormente, Clinton e Obama afrouxaram parcialmente as medidas, as quais foram novamente afrontosas com o fascista Trump.

Durante esses 61 anos (!!!) de embargos, a ONU condenou tais medidas por 29 vezes, mas nenhuma atitude material e prática foi tomada – justamente pelo papel exercido pelos EUA em seu “puxadinho” disfarçado de Organização das Nações Unidas, assim como fazem com a questão da Palestina.

Hoje a discussão vêm novamente à tona, juntamente com o apoio da mídia oligárquica/capitalista na tentativa de deslegitimar e condenar o socialismo. Ao mesmo tempo, omitem – propositadamente – que as atitudes imperialistas são responsáveis diretas pelos problemas que tentam desestabilizar o país caribenho. Ao invés, por exemplo, de condenarem os embargos que proíbem a chegada de insumos para a fabricação de medicamentos e seringas para vacinações – em plena pandemia! – enfatizam que não há remédios e seringas para vacinar a população, e igualmente omitem que é o único país latino-americano que fabrica as vacinas contra a Covid de forma independente, as quais serão também distribuídas gratuitamente para países latino-americanos, de acordo com parceria com a Organização Pan-Americana de Saúde.

Eis um resumo do que é e o que sofre Cuba. País referência em saúde básica, gratuita e universal e que, através de suas brigadas de médicos, exporta esses profissionais para assistir tantos outros países – inclusive aqueles que outrora condenam a ilha – mostrando que o caráter da revolução socialista é também o internacionalismo.

O sistema educacional em Cuba também é digno de elogios pela qualidade em níveis globais – apontamentos feito pelo Banco Mundial! Por sinal, a educação é um marco dos países com vertente socialista – como China, Rússia, Vietnã. No caso de Cuba, é prioridade desde a Revolução, enfatizando sua eficiência e professores de alto padrão. É a ilha socialista, inclusive, um dos países que mais investe na educação em todo o mundo – 13% de seu PIB é destinado à educação (o Brasil, por exemplo, investe menos de 6% do PIB, valendo lembrar aqui que os golpistas de 2016 revogaram os recursos para a educação que seriam destinados com a exploração do Pré-Sal).

(Quando falam para mim vai pra Cuba, só lamento não poder ir!)

Educação. Talvez seja essa a chave para entender o sucesso do socialismo em Cuba – e, novamente, o medo do capital em divulgar as verdades. Afinal, mesmo com as sanções criminosas, qual povo sai às ruas em defesa de seu regime? Somente um povo educado – emancipado – faz esse tipo de movimentação. Um povo que vive o socialismo e entende que é esse o caminho. Mas por que isso não é tão demonstrado e raramente trabalhado nos livros didáticos e em ambientes escolares?

A resposta está justamente pelo medo do capital. O mesmo capital que promove a exploração do homem pelo próprio homem, sob a falaciosa bandeira da meritocracia.

Hoje, com esse mundo globalizado e unipolar, é evidente que somos bombardeados com propagandas capitalistas. O consumismo é a arma mais forte desse sistema. O TER é infinitamente mais valorizado do que o SER. Porém, com as recentes crises financeiras e a atual pandemia, foram abertas as entranhas do capitalismo; escancarou-se sua fragilidade. E com isso, atrevo-me a dizer que é um sistema desgastado e fadado ao seu fim.

E não falo isso como alguém que apenas torce por essa mudança. Falo com base nos acontecimentos e todos os problemas trazidos pelo capitalismo e suas mãos invisíveis. O sistema atual é insustentável – em seus três pilares: social, ambiental e econômico – e vai mudar. Talvez não seja o socialismo em sua essência que será implantado, mas ele será – quer queiram ao não. Suas vertentes gradativamente serão impostas, sem qualquer outra alternativa. A começar pelo ecossocialismo – e aqui cabe o elogio aos camaradas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que desde sua organização, há 37 anos, vem promovendo exatamente esse método de produção emancipador, solidário e de respeito à vida.

A natureza mandou seu recado através da pandemia. A pobreza, a fome e todas as mazelas do capitalismo foram afloradas enquanto os milionários/bilionários aumentaram seus lucros.

A relação direta entre o avanço dos latifúndios e a pandemia que assola o planeta também foi mostrada. O agronegócio com seu desmatamento, incêndios, poluição do ambiente e das águas com seus agrotóxicos e a não produção de alimento de verdade – e sim de commodities – está nu. Podemos também falar do genocídio de indígenas e quilombolas, e também das políticas extrativistas e danosas ao ambiente que o garimpo e as mineradoras causam, vide os recentes casos de Brumadinho e Mariana, estupradas pelas mineradoras estrangeiras – e ainda não punidas.

Associa-se tudo isso com as políticas neoliberais que promovem o aumento da desigualdade social, resultando em mais miséria – fruto do desemprego, inflação – e que, inevitavelmente, gera maiores índices de violência. Apenas para comparação: os índices de violência/homicídio, divulgados pela ONU em 2018, mostram o Brasil com 27,4 a cada cem mil habitantes. Cuba, no entanto, tem esse índice em 5.

Consequentemente, a violência policial explode – militarizada no Brasil –, ainda mais insuflada pelos discursos bolsonaristas. Dados recentes divulgados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra que a violência policial sextuplicou desde 2013, e a população negra é quem mais sofre com esse extermínio das forças policiais, com quase 79% dos casos.

Outro ponto geopolítico que também diz respeito à Cuba e que merece atenção é a tentativa de enfraquecimento do BRICS por parte da potência – desesperada e enfraquecida – estadunidense. Uma cartada do capitalismo, afinal, como sempre falo, essa coligação é afrontosa aos interesses do capital financiado pelo FMI/Banco Mundial. Não à toa financiaram os golpes no Brasil e tentam, desesperadamente, desestabilizar a Rússia e a China em nova Guerra Fria camuflada – ou até mesmo caracterizada como híbrida –, evitando a multipolaridade global e o fim da hegemonia capitalista estadunidense.

A Rússia, mostrando sua humanidade e solidariedade – registrada como ditadura pela mídia – acaba de enviar 88 toneladas de ajuda humanitária para Cuba. Enquanto isso, o império estadunidense, defensor da democracia e direitos humanos, segue tentando estrangular o povo cubano em represália ao sucesso do socialismo com El bloqueo.

Cuba resiste e vencerá. Os ideais plantados por Fidel Castro, Raul, Che Guevara, Camilo Cienfuegos e demais camaradas, fazem parte da vida das cubanas e cubanos, e vertem nas veias desse povo internacionalista. Cuba fez história com sua Revolução e serve de exemplo para o futuro que devemos seguir.

Não escrevo tudo isso como mero espectador, entusiasta do socialismo e admirador da história revolucionária de Cuba – a qual sempre procuro ler de diferentes fontes e meios. Escrevo e defendo esse regime pela defesa da vida e da igualdade social. É claro que não há um regime 100% ideal, mas devemos lutar por aquele que melhor atende nossas necessidades enquanto seres pertencentes a um mesmo planeta, que respeite não apenas nossos irmãos e irmãs, mas o ambiente como um todo. Um sistema que prioriza o SER e não meramente o TER. Esse é o socialismo.

O caminho pode até ser longo – se é que o planeta permitirá mais tempo para que essa reação ocorra – mas é inevitável!

*Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências, Especialista em Bioecologia e Conservação.

Instagram: @BiologoSocialista

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