Carta aberta ao ex e futuro presidente Lula

Por Luiz Fernando Leal Padulla*

Querido companheiro e camarada Lula,

Esta carta nasce na madrugada de uma quarta-feira, em mais uma noite em que a insônia é presente pela ansiedade que toma conta de meus pensamentos. Sono que não vem, mesmo estando esgotado física e emocionalmente – ainda mais por saber que amanhã mais dez aulas me aguardam e, junto delas, a incerteza e o medo de frequentarmos salas de aulas com possíveis casos de covid19.

Desde a ascensão desse (des)governo neofascista, não está sendo fácil dormir. Ainda que lute para conseguir pagar meu aluguel (cujo indicador de reajuste inflacionário está beirando os 40%!) e comprar meu sustento (gastando cada vez mais e colocando de menos no carrinho do mercado), atormenta-me não apenas saber, mas presenciar o avanço da pobreza e da miséria em nossa sociedade. A desigualdade social aumenta cada vez mais! Quantas pessoas em situação de rua, sem um abrigo para o frio e a chuva, sem ter o que comer. Isso me dói.

E esse é um ponto primordial desta carta: segurança alimentar e alimento de qualidade.

Escrevo para o senhor, nosso ex e futuro presidente do Brasil, para solicitar o comprometimento para com a agricultura familiar e agroecologia. Enquanto biólogo, fico indignado com tanto retrocesso ambiental causado pelo agronegócio, seja pelos impactos diretos através dos desmatamentos e incêndios criminosos, seja pela contaminação do solo, do ar, dos alimentos e da própria água que ingerimos. Como estudioso, deve saber que somos o país que mais consome agrotóxicos no mundo. É uma guerra que estamos perdendo faz tempo. Mas acredito na vitória. Somos mais fortes e realmente comprometidos com a vida!

Fazemos nossos esforços para denunciar o crime do agronegócio. Mas por isso somos perseguidos e até ameaçados. Ainda que tentem nos enfraquecer e desistir da luta, não desistiremos. Olhemos, por exemplo, para a professora Larissa Bombardi. Mulher guerreira, forte e que estuda os perigos dos agrotóxicos na saúde. Por seus estudos científicos que desmascaram e revelam a letalidade do agronegócio, foi ameaçada. Mas não desistiu. Mantém-se comprometida com a verdade e a justiça. Junto dela, tantos outros e outras companheiras. Mas é preciso de maior apoio. Estão nos cercando e tentando nos calar.

Apesar de toda propaganda mentirosa e o forte lobby que existe no Congresso Nacional, é preciso interromper esse ciclo vicioso e assassino que o agronegócio está fazendo. A defesa da agricultura familiar e a valorização da agroecologia, são fundamentais para atender às necessidades básicas de alimentação. Para isso, precisamos realizar a Reforma Agrária. Sei que é um assunto “espinhoso”, mas nunca foi tão necessário como agora. Com seu retorno, é chegada a hora de avançarmos com isso. Temos que valorizar nossas pequenas propriedades e valorizar esses locais de onde sai nosso alimento (70% de nossa comida vem daí, e não das “commodities” do agronegócio!).

Sou uma pessoa que procura enxergar “o copo sempre meio cheio” e, mesmo sabendo que herdará um país combalido – terra arrasada pelo negacionismo e interesses neoliberais – devemos aproveitar a oportunidade para promovermos mudanças verdadeiramente significativas. Entendo que a ascensão das classes menosprezadas é de fundamental importância, mas, se me permite uma sugestão – não com base em “achismos”, mas por experiências trocadas com várias pessoas do campo progressista ao longo desses anos de retrocesso – que dessa vez não seja pelo mero consumo, mas pela inserção na sociedade como seres com sentimento de pertença. Ou, como diria nosso eterno e querido Paulo Freire, que sejam donos e protagonistas da verdadeira mudança. É o momento de rompermos os laços com esse sistema predatório e extrativista.

Não se esqueça, por favor, de olhar também para nossos irmãos e irmãs indígenas, quilombolas e demais povos tradicionais. Afinal, se há alguém que seja verdadeiramente dono das terras, são eles! E, infelizmente, pessoas que estão sofrendo ainda mais com o avanço do garimpo e do agronegócio.

Por sinal, quando se fala em preservar a Amazônia, lembremos que não se trata apenas de um local de mata, mas que dentro dela vivem comunidades e toda sua biocultura. A defesa desse bioma – e dos demais – é urgente para que se evite o imperialismo ambiental, que traria novos problemas com sua internacionalização para a exploração do capital. E isso, como bem sabe, é uma ameaça real.

Mais um importante pedido que lhe faço é o apoio e esforço do Brasil para com a questão palestina. Sei que sua trajetória sempre foi de luta e defesa da legitimidade do povo (e território) palestino. Mas é preciso mais do que reconhecer o Estado Palestino. Não podemos continuar financiando as ações terroristas e sionistas de Israel. Não podemos comprar armamentos de quem promove o apartheid e testa suas armas sobre inocentes. Se realmente nos importamos com a Palestina, precisamos tomar atitudes que surtam efeito.

Assim, querido Lula, espero que ouça esses pedidos e os coloque entre seus planos e projetos políticos, permitindo o real direcionamento para nosso país ao caminho de uma sociedade emancipada, plurinacional e soberana. Tenho certeza que ecoo nessa carta o desejo e vontade de milhões de “lulistas” que, assim como eu, estiveram presentes em manifestações diversas pelo país quando as perseguições políticas para com sua pessoa e o que representa começaram. Falo por aqueles que, assim como eu, viajaram por horas e até mesmo dias para acompanhar o (pseudo)julgamento no TRF-4 em Porto Alegre ou ainda, marcaram presença no inesquecível e histórico acampamento em Curitiba. Acredito que represento igualmente aqueles que também se direcionaram à São Bernardo do Campo, seja no momento de sua consciente rendição às garras dos (pseudo)juízes e promotores criminosos, seja no extasiante reencontro com o povo brasileiro naquela tarde quente não apenas de calor humano.

Acima de tudo, meu presidente, faço coro ao desejo de milhões de pessoas que acreditaram e acreditam que o senhor, com toda vivência política, e mais do que isso, pela experiência de vida, é a pessoa certa para colocar o Brasil de volta nos rumos. Mas rumos esses que precisam de caminhos mais certeiros, humanos e comprometidos com o espírito socialista; o anseio de uma sociedade justa e igualitária.

Que seu retorno seja ainda maior, como o senhor mesmo disse. E que, acima de tudo, jamais perca a essência da classe trabalhadora!

Um fraterno e carinhoso abraço.

*Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências, Especialista em Bioecologia e Conservação

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