EUA e seu teto de vidro

Luiz Fernando Leal Padulla*

O berço da democracia. Um país que julga que mercados privatizados e consumismo livre de freios democráticos são instrumentos para a criação da democracia. Como diz Barber no livro “O império do medo”, “desde sua fundação, os Estados Unidos se consideram únicos, excepcionais e, portanto, isentos das leis que governam a vida e o destino das outras nações”. No entanto, provaram do próprio veneno.

A invasão que os trumpistas fizeram, apoiado pelo então presidente Trump, ordenados por fascista sob a égide de supremacistas brancos dos EUA, mostra quão ardilosa é a direita. Incapazes de vencer de forma legítima, através do voto democrático – mesmo com disparo de Fake News – querem o caminho mais fácil: o golpe.

(Cabe aqui uma reflexão: imaginando que tais fatos tivessem acontecido durante as manifestações do “Black Lives Matter”, será que a postura por parte da segurança seria a mesma? Ou teríamos dezenas de negros e militantes mortos e feridos? Na ocasião, Trump ordenou o destacamento de forças nacionais que cercaram o Capitólio – ao contrário do que foi visto ontem, cujas ações tiveram até certa conivência de policiais).

Joe Biden não é pacifista. Porém, seria o momento de convocar ajuda externa – incluindo lideranças como Rússia, China e cia – afinal, não tem como os EUA invadirem os EUA sob o argumento de restabelecer a ordem. Essa seria uma demonstração de grandeza, e mostraria que os EUA, sob sua tutela, estaria disposto a realmente ao diálogo e novos tempos. Mas, dado o histórico bélico e prepotente, tentando manter o status quo, é pouco provável que isso ocorra. Como disse o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, ao apoiara invasão desumana dos EUA ao Iraque, “deem mostras de fraqueza agora e ninguém acreditará mais em nós quando, no futuro, tentarmos demonstrar firmeza”. É isso que os EUA tem.

Outro aspecto intrigante e curioso é que na mesma semana da tentativa de insurreição, Eduardo Bolsonaro visitou a Casa Branca e aliados de Trump. Vale lembrar que ele foi designado o “líder” sul-americano do movimento de ultra direita populista encabeçado por Steve Bannon – que foi preso ano passado por fraude financeira, mas hoje responde processo em liberdade.

(Tal como aconteceu com a suspeitíssima execução do miliciano e chefe do chamado “Escritório do Crime”, Adriano da Nóbrega – uma das possíveis chaves para desvendar a morte de Marielle Franco e com ligação direta com a faMilíca. Seria mera coincidência que Eduardo Bolsonaro, esteve no Estado baiano dois dias antes da operação?).

Não morro de amores pelos EUA –muito pelo contrário. Arrogantes como são, se achando no direito de intervir em países e destruírem sua soberania, sempre com o argumento falacioso de instaurar a “paz e a democracia”, seguindo sua (!) Declaração da Independência, o sentimento mínimo que posso ter enquanto internacionalista é o desprezo. No entanto, essa manifestação absurda – e que deve sim ser condenada – mostra que o ilibado país, que deseja ser soberano e acima de tudo e de todos, incluindo suas guerras isoladas e de caráter “preventivo”, está provando pela primeira vez como é sofrer (uma tentativa de) um golpe.

Seriam páginas e mais páginas para recapitular todos os apoios diretos e indiretos que os estadunidenses fizeram em golpes de Estados. Nicarágua, Cuba, Chile, Argentina, Bolívia, Paraguai, Brasil, Síria, Iraque, Afeganistão…para citar alguns. Novos tempos para os EUA e o mundo. E quem sabe, o alerta final para que o fascismo seja combatido e liquidado de uma vez por todas. O Brasil que abra o olho enquanto há tempo!

*Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências, Especialista em Bioecologia e Conservação.

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