O que nos torna humanos?

Por Luiz Fernando Lea Padulla*

A pergunta que dá o título deste artigo já foi outrora feita pelo escritor Charles Pasternak. Será que seria nossa capacidade cognitiva e o uso de ferramentas? Ou seria nossa capacidade de empatia? Afinal, o que nos diferenciaria de nossos primos evolutivos, os chimpanzés, além do 0,6% do DNA?

Sinceramente, ao pensar neste texto durante certa noite, me perguntei a mesma coisa. Mais ainda, indaguei-me como será nossa sociedade após esse período crítico da pandemia. Conseguiremos nos relacionar como antes? Algo, efetivamente, nos tornará melhores e mais solidários? Tenho minhas dúvidas, justamente pelo que temos visto em nosso cotidiano.

Em plena pandemia, onde (sobre)vivemos a uma segunda onda da doença, quando médicos e lideranças pedem para que as pessoas se preservem, pensando no próximo, e evitem aglomerações, deparamo-nos com festas clandestinas. Pessoas (humanos?) que não respeitam o distanciamento social e não usam máscaras. Comerciantes manifestando para que seus negócios continuem a lucrar. Pior ainda, (des)humanos que divulgam fake news contra nossa única possibilidade de salvação: a vacina.

Em plena pandemia, vimos políticos em campanha dizendo que o gasto público é preocupante e por isso assistência emergencial ao povo não seria possível, mas logo após às eleições aprovam aumento de seus próprios salários, negligenciando ajuda a quem mais precisa no momento.

Será mesmo que somos tão diferentes dos demais animais? Será mesmo que somos seres empáticos, dotados de inteligência inigualável?

Enquanto biólogo comportamental, não nos vejo com tamanha superioridade quanto nossa arrogância antrópica nos diz. Vejo animais não humanos muito mais “humanos” do que nossa espécie – dotados de maior inteligência, inclusive!

Sendo assim, talvez um ponto que nos diferencie das demais espécies seja um só: o egoísmo. Só assim poderíamos explicar tamanha falta de cooperação e empatia; tamanha barbárie que vemos prevalecendo em nossa sociedade.

E a culpa disso é exatamente a semente plantada pelo capitalismo, onde geram-se pessoas individualistas, competidoras e oportunistas, dando voz à falaciosa meritocracia. A esperança de que o mundo mudasse, tornando-se mais “humano” parece que ficará para outro momento.

Um mundo mais colaborativo, de preocupação e respeito ao próximo, novamente fica restrito à época hipócrita do Natal, quando todos resolvem ser bonzinhos, mas logo depois voltam a ser o que sempre foram: racistas, xenófobos, fascistas.

Queria neste último artigo de 2020 ser mais otimista, mas a realidade não me deixa. Seguiremos na luta contra a desinformação, contra o fascismo. Em 2021 seguiremos lutando contra a desigualdade e contra as mentiras; defenderemos uma sociedade mais justa e verdadeiramente humana. E esperamos que mais pessoas, verdadeiramente humanas, se unam a essa luta.

Sendo assim, meu desejo de força para todas e todos que assumiram essa responsabilidade. Que tenhamos coragem, que não nos falte ânimo para permanecermos nas trincheiras.

*Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências, Especialista em Bioecologia e Conservação.         

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