Carta de um (quase) suicida

Por Luiz Fernando Leal Padulla*

Não está fácil viver. Não é fácil – e quando foi? – ser esquerdista, lutar por justiça, igualdade e um país/mundo melhor.

Em meio ao caos da pandemia, isolados em nossos lares, trabalhando de forma absurda (sendo explorados pelo capital!), somos bombardeados com fatos que acontecem no Brasil e no mundo que desanimam e minam nossas esperanças de dias melhores.

Com tristeza vemos o Pantanal e a Amazônia arderem em chamas, sob sorriso e ironia de um genocida. O mesmo pária que fez do país uma vergonha mundial. Um pulha que tem a coragem de dizer que “professores não querem trabalhar”, mesmo sabendo – mas fazendo-se de um canalha dissimulado – que esses mesmos professores e professoras estão em suas casas se virando para educar crianças e jovens, trabalhando três vezes mais.

Somos espectadores atônitos, passivos.

Indignados com sujeitos sem caráter que ocupam cargos em ministérios, sem qualquer atitude perante o avanço das queimadas. O fogo que é criminoso, tal como seu responsável chamado agronegócio (que é tóxico, mentiroso e assassino!), arde a revolta em mim. Mas o que fazer?

Injustiças com os justos e inocentes, ameaças a quem estende as mãos às pessoas em situação de rua, desumanização da pobreza, perseguição aos verdadeiros guerreiros e guerreiras, menosprezo de nossos irmãos indígenas e nossa natureza…

Por onde andam os desgraçados milicos (ou seriam milicianos), coniventes com toda essa barbárie? Não basta as mãos sujas de sangue dos golpes, também terão suas mãos cobertas com as cinzas dos incêndios criminosos?

Humanos, patriotas, cidadãos de bem…quanta hipocrisia!

Somos peças quase descartáveis de uma sociedade vil, fria, egoísta. Isolados em seus mundos particulares, atendendo apenas seus anseios sem qualquer senso de empatia e compaixão. O mundo que era pouco real, de repente ficou apenas virtual. Triste ver que aqueles que ainda podem se ver, se tocar, se abraçar, optam pela tela fria, mentirosa e egoísta de um celular.

Tristeza resume, junto a dose de impotência. Vemos nosso país definhando debaixo de nossos narizes e nada podemos fazer. Voltamos ao mapa da fome e insegurança alimentar! Tento dormir, mas não tenho paz sabendo que nessa mesma noite quente e seca, 10 milhões de brasileiros passam fome. Fome!

Um professor, biólogo e socialista, que está cansado de tanto lutar. Pode ser fraqueza, mas bem que essa poderia ser uma carta de despedida se em mim houvesse coragem. Um basta nesse sofrimento, nas desgraças diárias do Brasil e mundo a fora. Mas não sou tão corajoso assim. Insisto em (sobre)viver. E quando um dia eu morrer, ainda que seja um gesto covarde ou obra do acaso, descansarei. Não haverá mais perseguição, mentiras e injustiça. Assim espero…

Quem me dera ter coragem. Ou que a fosfina de Vênus fosse realmente a prova de raças alienígenas e que estas viessem invadir e socorrer a Terra da ação dessa gentalha.

Seguirei de pé. Lutarei até quando e como conseguir. Não darei o prazer de me verem desistir. Muito menos medo terei – até porque, como dizia Marighella, não temos tempo para isso. Luto é nosso verbo!

*Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências, Especialista em Bioecologia e Conservação

2 comentários sobre “Carta de um (quase) suicida

  1. Olá Professor Luís.
    Compartilho com vc esses sentimentos.
    Seus textos trazem reflexões necessárias.
    Permanecer na luta, lúcidos e unidos é fundamental nesse momento histórico.
    Seguiremos!

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