O avanço das rodovias e a proliferação de doenças

Por Luiz Fernando Leal Padulla*

Sejamos realistas: o avanço e crescimento populacional da humanidade é algo insustentável. Hoje, somos mais de 7 bilhões, e a previsão é de que em 2050 atinjamos 9 bilhões. Junto disso, a necessidade de exploração e recursos (renováveis ou não), ocupação de espaço e exploração de novas áreas. E isso só se torna possível quando se invade áreas de outras espécies.

Não podemos deixar de lembrar também que ante todo esse crescimento, há emissão de gases poluentes, complicando cada vez mais o aquecimento global e até a desintegração da camada de ozônio.

Quando as alterações ocorrem em regiões metropolitanas, o próprio microclima do local é afetado, tornando cidades verdadeiros “desertos urbanos”, influenciando até mesmo no regime de chuvas e fenômenos como inversão térmica.

Mas os problemas não param por aí. Conforme as cidades crescem, as expansões rodoviárias se tornam necessárias, e com elas, novas desapropriações de áreas rurais e desmatamento.

Não entrarei no mérito dessas duas questões, mas de uma terceira: o desequilíbrio ambiental causado pelo avanço das rodovias, que necessitam penetrar em áreas de mata onde vivem muitos animais.

Em qualquer rodovia que se trafegue, podemos ver não apenas animais domésticos atropelados (cães e gatos), mas também capivaras, gambás, carcarás, cobras, lobos-guará, saguis entre outros. Seres inocentes que na tentativa de cruzarem o asfalto em busca de abrigo, comida ou explorar novas áreas, tornam-se vítimas de veículos.

Cuidados-com-atropelamentos-de-animais
Família de quatis atravessando rodovia

Dados da ONG Mata Ciliar indicam que na região de Jundiaí e Sorocaba são atropelados em média, 4 animais por semana. Já o Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estrada (CBEE) apresenta dados ainda mais estarrecedores: 473 milhões de animais atropelados/ano.

Muitos ficam inválidos e não podem ser reintroduzidos na natureza, e outros tantos vão à óbito. Segundo o ecólogo Alex Bager, em seu projeto de pós-doutorado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), cruzando informações do Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas, da Universidade Federal de Lavras UFLA), estima-se que 2 milhões de animais de médio porte morram atropelados/ano nas estradas brasileiras.

Além de promoverem acidentes, tais mortes, em especial dos animais silvestres, ocasionam também danos indiretos e significativos principalmente para a população humana. Pesquisas indicam que a morte de gambás, muitos deles atropelados ao atravessar rodovias – geralmente mães com filhotes em sem ventre – causam efeito negativo no próprio controle e eliminação de carrapatos – aracnídeos responsáveis pela transmissão de várias doenças, como a “febre maculosa”, causada pela bactéria Rickettsia rickettsii.

De acordo com a bióloga e cientista adjunta do Cary Institute of Ecosystem Studies, Felicia Keesing, cada gambá consume cerca de 5000 carrapatos semanalmente e conseguem eliminar 96% deles quando aderidos em seus corpos.

Com as taxas de atropelamento e morte desses marsupiais aumentando, os carrapatos começam a proliferar cada vez mais, pois não há um predador tão eficiente para controlá-los. É uma questão ecológica de ocupação de novo nicho ecológico. Entram em cena as capivaras, outras vítimas da devastação humana, e que se tornaram excelentes hospedeiras dos carrapatos. E o que vemos hoje? O avanço desses roedores, em relação antrópica, e sendo erroneamente associadas como “transmissoras” da doença, enquanto na verdade são tão vítimas como nós.

Por culpa da ignorância, fazem das capivaras as vilãs da vez, defendendo inclusive sua morte para “controlar a doença”, o que é um equívoco, pois não surtirá efeito no controle da doença causada pelo aracnídeo. Assim como os carrapatos se adequaram às capivaras, novos hospedeiros ocuparão esse espaço.

Percebam que a culpa não é do gambá, nem da capivara, mas da ação do ser humano no ambiente. Corroborando com isso, a pesquisa da bióloga ressalta que a preservação dos gambás depende diretamente da preservação ambiental, pois há uma relação direta em áreas com maior biodiversidade apresentando menor risco da presença desses carrapatos infectado com a bactéria.

Mas como promover o avanço de rodovias e canais de ligação entre centros urbanos, sem que se tenham danos ambientas, que não são poucos?

De acordo com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), há programas de monitoramento de atropelamento da fauna, cobrindo cerca de 5,5 mil quilômetros dos 90 mil quilômetros de rodovias federais e cerca de 200 pessoas envolvidas, mas ainda insuficiente pelo tamanho da malha rodoviária.

Uma solução bastante promissora e eficiente podem ser os corredores, túneis e caminhos aéreos para o trânsito da fauna. Uma das concessionárias responsável pela administração e instalação desses túneis, afirma que a redução foi de 86% nos acidentes com animais silvestres.

Em relação aos animais chamados “domésticos”, é necessário a atenção às políticas públicas de educação, adoção e posse responsável e, principalmente políticas de castração. Essas são medidas urgentes e necessárias para o controle do número de abandonados e que ficam à mercê da vida e que podem, inclusive, servirem como agentes transmissores e/ou hospedeiros de doenças como a raiva e leishmaniose.

Embora o abandono de animais seja crime previsto pela Lei Federal nº 9605/98, o que se vê é um número crescente de cães e gatos abandonados. E, sem a castração, reproduzem-se livremente, piorando a situação de abandono. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a castração – associada com a educação – é a maneira mais eficiente e ética do controle populacional de cães e gatos.

Com isso, percebe-se que os mecanismos de ocupação, produção e exploração humana devem ser revistos; não mais pela lógica capitalista da degradação, acumulação infinita, materialismo que além do extrativismo, gera também a desigualdade, resíduos, dejetos e tantos poluentes ambientais. Isso é insustentável!

Devemos sim defender e difundir o ecossocialismo, que nada mais é do que pensar novos meios de exploração e produção, evitando aquilo que Marx chama de “ruptura metabólica”, causada justamente pelo modo de produção desenfreado do capitalismo. E esse é um trabalho que compete a cada um de nós, pois a sociedade foi amedrontada com a palavra “socialismo”, e devemos atuar na desconstrução da mesma. Afinal, o caminho socialista é a única alternativa para uma urbanização racional e respeitosa.

*Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências.