Gays: a salvação da espécie?

Por Luiz Fernando Leal Padulla*

Sempre falei em aula que nós, seres vivos, estamos vivos para cumprir nossa função biológica que é “passar nossos genes adiante“. E para isso, temos as etapas bem definidas: nascer, crescer, desenvolver, reproduzir e morrer. A reprodução…sempre ela justificando nosso objetivo de vida. E para tanto, a troca de gametas entre machos e fêmeas, certo? Inclusive, esse é um argumento – preconceituoso e retrógrado – que muitos apresentam na tentativa de deslegitimar as relações homoafetivas: “homem com homem, ou mulher com mulher não reproduzem“. (Sem falar no preconceito imposto por religiões, e que tentam de qualquer maneira sitiar a própria Constituição e impor suas “leis” em um Estado laico).

Uma das questões que mais intriga os cientistas é sobre a finalidade da homossexualidade. Do ponto de vista biológico, seria uma anomalia? Uma forma de controlar a procriação da espécie, tal como observado em camundongos quando em superpopulação?

Recentemente um estudo afirmou que ela não tem base genética, eliminando a explicação da existência de um “gene gay”. No entanto, relações homoafetivas existem…e não apenas entre humanos. Bonobos, girafas, golfinhos, bisões, aves e tantos outros animais não-humanos demonstram essa forma de amor e comportamento.

São diversas as finalidades: pacificação de um ambiente, fortalecimento de amizades entre machos, falta de acesso às fêmeas, satisfação sexual/prazer e até o favorecimento da sobrevivência da espécie.

Como exemplo, pode-se citar cisnes negros, os quais formam trios (dois machos e uma fêmea) até o acasalamento e geração dos ovos. Após isso, a fêmea é expulsa e os dois machos criam os filhotes, o que aumenta significativamente o número desses animais, muito mais do que se fossem criados por casais heterossexuais.

Uma nova resposta biológica sobre a função das relações homoafetivas, além da influência ambiental, pode ser dada por nossos irmãos evolutivos: os bonobos.

Recente estudo com esses primatas (parentes muito próximos aos chimpanzés), publicado na revista científica Hormones and Behaviour, revela que as relações sexuais entre indivíduos do mesmo sexo são fundamentais para a sobrevivência e, consequentemente, para a proliferação de seus genes. Neles – só neles? – verificou-se que o sexo homossexual é uma ferramenta para vínculos sociais. De acordo com o pesquisador Moscovice et al. (2019), “a pesquisa ajuda a explicar por que o comportamento sexual entre sujeitos do mesmo sexo pode ser benéfico para as bonobas, já que desencadeia a liberação do hormônio oxitocina, que provoca no cérebro um aumento das sensações de confiança e proximidade, o que promove uma maior cooperação entre os casais“.

Além disso, a união entre essas fêmeas teria como objetivo também a formação de coalizões apenas para enfrentar machos em caso de assédio (roubar seu alimento, ocupar seu lugar nas árvores, perseguir fêmeas), e nunca contra outras fêmeas – e tais coalizões eram sempre vitoriosas. Bonobas nos ensinando a sororidade e exemplo de feminismo?

Outro aspecto curioso é que a cultura machista também parece ser notada entre esses animais: dos mais de mil encontros avaliados, 65% eram entre fêmeas, e apenas 1% entre machos.

Há de se ressaltar também a influência do ambiente nesse (e também nos demais) comportamento. E com ela, o que fármacos e agrotóxicos têm promovido com as espécies. São vários os estudos mostrando a presença de resíduos de anticoncepcionais em efluentes domésticos que chegam até os corpos d’água. Com isso alterações nas taxas de fecundidade, fertilização, alterações comportamentais, inibição do desenvolvimento dos órgãos sexuais, reversão sexual e desenvolvimento de características sexuais femininas em macho e machos em fêmeas.

Em levantamento apresentado pelo Ministério da Saúde e obtidos e tratados em investigação conjunta da Repórter Brasil e a organização suíça Public Eye, apresentados como o “Mapa da Água”, um coquetel que mistura diferentes agrotóxicos foi encontrado na água de 1 em cada 4 cidades do Brasil entre 2014 e 2017. Em 2017, 92% da água analisada apresentava esses produtos químicos. Chama a atenção que desses 27, seis são apontados pela União Europeia como causadores de disfunções hormonais, e 21 deles 21 estão proibidos na União Europeia devido aos riscos que oferecem à saúde e ao meio ambiente. Lembrando que, dependendo do composto químico, podem atuar também como substâncias miméticas (que imitam) aos hormônios sexuais.

Mapa da água: levantamento em mais de 2300 cidades.

Em 2008, uma pesquisa também associou a poluição atmosférica com a redução do número de nascimento de meninos em São Paulo, indicando influência na conversão de gênero.

(Em tempo: ao mesmo tempo que conservadores criticam a chamada “identidade de gênero”, são os mesmos que promovem o aumento de poluentes atmosféricos e químicos em ambientes aquáticos (via agroTÓXICOS), ignorando até mesmo pesquisas científicas).

Ao avaliarmos esses comportamentos, não podemos deixar de tocar também em outro ponto polêmico: seríamos bissexuais por natureza, mas culturalmente nos tornamos heterossexuais? Ou devemos assumir de vez a ideia binária de orientação sexual – heterossexualidade?

Uma escolha não muito fácil de se assumir, ainda mais quando o preconceito fala mais alto e a perseguição que gays/bissexuais sofrem é assustadora em pleno século XXI, conforme pesquisas também comprovam.  De acordo com o Instituto de Pesquisa Bisexual Resource Center, de Boston, bissexuais, quando comparados com heterossexuais, têm uma tendência a enfrentar maiores disparidades de saúde, como maiores taxas de ansiedade, depressão e outros distúrbios de comportamento – fruto de uma sociedade homofóbica. O uso de tabaco, como método de “fuga” também é mais elevado, assim como doenças cardíacas e câncer.

Enfim, seja qual for a resposta, o fato é que o sexo deixa de ser um mero ator de finalidade reprodutiva, sendo interpretado também como um importante agente de construção social. E assim, deve deixar de ser um tabu e tratado em escolas através da educação sexual, longe de paradigmas conservadores, moralistas e religiosos.

As recentes descobertas científicas estão aí para ajudar na própria evolução do ser humano, que infelizmente parece não sair dos tempos obscuros e de total ignorância, preferindo um postura conservadora e hipócrita.

*Biólogo, Professor, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências

 

Links:

MOSCOVICE, L.R.; SURBEK, M.; FRUTH, B.; HOHMANN, G.; JAEGII, A.V.; DESCHNER, T. (2019).  The cooperative sex: Sexual interactions among female bonobos are linked to increases in oxytocin, proximity and coalitions. Hormones and Behavior, 116 (1-9). Disponível em: <https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0018506X19301503>.

MAPA DA ÁGUA: https://portrasdoalimento.info/agrotoxico-na-agua/