Chile, Equador, Bolívia e o golpe dos 20 centavos no Brasil

Por Luiz Fernando Leal Padulla*

Quando tive conhecimento das manifestações no Chile, posterior às ocorridas no Equador, fiquei receoso. Ainda mais quando o estopim se deu justamente na forma de protestos estudantis contra o aumento da passagem do metrô de Santiago. Impossível não lembrar que, em 2012 no Brasil, a onda dos “20 centavos” tomou uma proporção preocupante, permitindo a ascensão de um novo fascismo, com ideias retrógradas e conservadoras.

No caso do Chile, há uma diferença brutal: a política neoliberal, imposta durante e pós o regime ditatorial de Pinochet. Política esta que perdurou por dezenas de anos, até que a população acordasse e dissesse BASTA! Coincidentemente, o fracassado modelo político chileno, gerador de grave crise social, com aumento de desigualdade, precarização do trabalho e elevação do custo de vida, é mesmo modelo idolatrado pelo ministro da Economia Paulo Guedes…e sua tara em desestatizar.

Privatizaram tudo: saúde, educação, água…e o que resultou? Melhoria nas contas públicas e elevação do PIB, mas como efeito colateral desejado pelo capitalismo: aumento vertiginosos da desigualdade social, causando empobrecimento da população.

As políticas de previdência social, também seguidas por Paulo Guedes aqui no Brasil, foram catastróficas no Chile. A privatização, imputada durante o governo Pinochet, prometia um “milagre econômico”, mas anos depois, o que se vê é o desespero da população, obrigada a sobreviver com salários pífios (até inferiores ao salário mínimo – nove em cada dez aposentados chilenos receba menos de 60% de um salário mínimo, que é de US$ 450). Não à toa, os casos de suicídios entre idosos no Chile disparou – fazendo com que ocupasse a primeira posição entre os números de suicídios na América Latina. Segundo dados do Ministério da Saúde, em parceria com o Instituto Nacional de Estatísticas (INE), entre 2010 e 2015, 936 adultos maiores de 70 anos tiraram sua própria vida. Para os cidadãos acima de 80 anos, em média, 17,7 a cada 100 mil habitantes recorreram ao suicídio. Com isso, o Chile ocupa atualmente a primeira posição entre número de suicídios na América Latina.

Vale lembrar que o discurso no Brasil “anticomunista” dizia que era preciso desestatizar para combater a corrupção e melhorar os serviços. E que o próprio Paulo Guedes, vendendo seus interesses em fevereiro passado, dizia que “o Chile hoje é como a Suíça”.

Na tentativa de melhorar essa situação, o governo socialista de Michelle Bachelet, preocupado com a dignidade e vida dessas pessoas, forneceu um aporte estatal para conseguir fazer com que as aposentadorias se igualassem ao salário mínimo, atenuando um pouco a situação dos aposentados. Com a eleição de Sebástian Piñera, o retrocesso começou e o povo não apenas resistiu, mas lutou contra a opressão e autoritarismo ameaçado pelo presidente.

Na Argentina não foi diferente. O país sofreu com a eleição de Macri, apoiada pela mídia golpista, e agora tenta reverter seus estragos com a eleição de Alberto Fernández, com esperança de políticas mais igualitárias e públicas. No Equador, Lenín Moreno enfrenta a resistência popular – principalmente dos indígenas, que correspondem a 25% da população – para impor políticas de interesses ianques, contrárias aos interesses populares, colocando a perder todas as conquistas do esquerdista e ex-presidente Rafael Correa.

Em pleno século XXI, ainda assistimos ao repugnante ato contra a prefeita da cidade de Vinto, na Bolívia, Patrícia Arce, aliada de Evo, que foi atacada por machistas opositores, arrastando-a, cortando seu cabelo e derramando tinta vermelha sobre todo o corpo, mostrando audácia e totalitarismo. Dias depois, a emissora Bolívia TV e a rádio Pátria Nova, estatais, tiveram seus sinais cortados pelos golpistas. O ataque não parou por aí. O diretor de rádio ligada à Confederação de Trabalhadores Campesinos (CSUTCB), José Aramayo, foi amarrado em uma árvore e humilhado pelos opositores. Táticas intimidadoras que, além disso, impediam a informação do que acontecia no país.

Com a proliferação de atos de vandalismo e intimidação para com seus simpatizantes e aliados, sob a tutela e apoio dos militares, não restou outra opção a Evo Morales, na tentativa de pacificação, a não ser sua renúncia e convocação de novas eleições. O vice-presidente Álvaro Garcia Linera, após também renunciar, denunciou que “policiais perseguiram campesinos, famílias de trabalhadores foram intimidadas, sequestradas, suas casas queimadas, roupas destruídas”. Uma clara demonstração de que a direita, derrotada nas urnas, quer de qualquer jeito assumir o poder, mesmo que para isso seja necessário a ruptura democrática.

Como bem disse João Pedro Stédile, líder do MST, é o imperialismo estadunidense que age por trás desses golpes, para justamente derrubar governo com “ações terroristas que vão sequestrando as entidades públicas e colocando temor na população, a ponto que o próprio Evo se sentiu sequestrado e, para preservar a vida dos seus familiares, da sua irmã, das pessoas mais próximas, que já tinham até as casas incendiadas, ele tomou essa atitude política e renunciou

Chilenos, assim como equatorianos, argentinos e bolivianos, mostraram que possuem um conhecimento político, e que não aceitam as imposições de Washington. Sofreram com as políticas entreguistas, privatizadoras e desumanas, mas agora reagiram e encurralaram os interesses capitalistas.

No entanto, o capital imperialista não se entrega fácil e não reconhece a democracia quando esta opta por governos esquerdistas, restando-lhe a interferência nesses países através de um golpe, seja ele parlamentar – como tivemos em 2016 no Brasil, com a farsa do impeachment e a prisão política de Lula para inviabilizar sua garantida eleição – ou escandalosamente militar, como vemos na Bolívia.

Aqui no Brasil, lamentavelmente, a cultura de educação política nos é falha e talvez nunca vejamos um levante popular em defesa da nação. Muitos brasileiros e brasileiras que tinham toda uma condição de vida digna e exemplar, com distribuição de renda, luta pela igualdade e justiça social, caíram na armadilha de “luta contra a corrupção” e colocaram tudo a perder com todas as conquistas que tivemos durante os governos progressistas do PT. Isso porque somos uma nação sem educação política, ainda guiados e doutrinados por falaciosas igrejas neopentecostais – mesmo em um Estado Laico –, a ponto de apoiarem o golpe parlamentar elegerem um fascista com base em Fake News.

Nosso presidente (sic), em sua extrema ignorância e inabilidade diplomática, espumando barbáries e em tudo enxergando “a esquerda…o Lula…o PT…a ameaça comunista“, é incapaz de promover melhorias ao país, a ponto de dizer que “os trabalhadores querem menos direitos e mais trabalho”.

Viveremos um novo ciclo de desgraça e desigualdade social, ou acordaremos a tempo? Teremos em nosso sangue o desejo da real democracia e da independência das amarras neoliberais?

Que o espírito libertador de Simón Bolívar, seguido por Che, Hugo Chavez, Lula e cia. nos inspirem e nos encorajem. Afinal, o poder do povo é soberano, quer a direita fascista aceite ou não. Lutemos!

*Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências

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