Pug: maldade humana

Por Luiz Fernando Leal Padulla*

Em 1859, Charles Darwin, com colaboração de seu amigo Alfred Wallace, revolucionaria a sociedade e o pensamento cientifico ao propor a teoria da seleção natural. Em suma, dizia que indivíduos mais aptos à determinado ambiente, sobrevivem, enquanto os demais morrem e não perpetuam sua espécie. Eis que o ser humano – um dos frutos dessa seleção – resolve manipular as regras naturais e selecionar artificialmente alguns indivíduos.  Surgia assim, a medicina e seus tratamentos – uma alternativa não natural, que trata dos doentes (indivíduos que não seriam selecionados naturalmente para sobrevivência) e permite sua proliferação.

É óbvio que, em sã consciência, jamais aceitaríamos a seleção natural quando alguém está doente, principalmente quando se trata de nosso semelhante. No entanto, fica claro que tais atitudes são contrárias a ideia e ação da própria sobrevivência da espécie, pensando em sua melhor configuração genética.

O uso da seleção artificial, portanto, não pode ser totalmente condenada. Porém, quando a mesma é utilizada para outros fins, como a escolha de determinadas características comerciais, visando o lucro, permitindo o surgimento de aberrações, devemos sim fazer uma crítica. Talvez muitos não saibam, mas isso ocorre de maneira muito mais comum do que se imagina. Basta olharmos para os cachorros como os pugs e buldogues – para citar apenas dois exemplos que estão “na moda” em nossa sociedade.

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A raça American Bully e sua deformação nítida: dificuldade na locomoção e vários problemas.

A criação comercial – infelizmente as legislações ainda tratam animais como “objetos” e ignoram seu lado senciente – desses cães trás à tona várias discussões, mas me atentarei a abordar a questão biológica, principalmente.

Por mais que se venda determinado “pedigree”, esses animais, na grande maioria das vezes são cruzados entre si nos próprios canis, por exemplo. Assim, pai cruza com as filhas, filhos com a mãe, irmão com irmã. E esse é a raiz do problema genético – o que se chama no senso comum de “problema sanguíneo”. Para entender melhor: somos metade da carga genética de nossa mãe (vinda através do óvulo) e metade de nosso pai (via espermatozoide) – assim como os cães. Suponha que sua mãe possua um gene que desencadearia uma determinada doença (por exemplo, câncer). No entanto, como seu pai não possui esse gene, por mais que você tenha herdado de sua mãe, ele só manifestaria se combinado com outro gene do câncer (no caso, o do seu pai). Agora, se você possui esse gene e gera um filho com sua mãe (em nossa cultura tratado como incesto), há chance enorme de gerarem um filho com os dois genes combinados do câncer. E é isso o que acontece com as ninhadas de “pedigree” na grande maioria dos canis, o que explica a fragilidade dessas raças quando comparada com um vira-lata, por exemplo.

Além disso, analisando profundamente a anatomia de um pug, pode-se atentar a bizarrice que foi selecionada, visando a estética – para agrado humano – sem que fosse levada em consideração a própria saúde do animal.

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Crânios de pug (esquerda) e de um cão normal (direita): aberração selecionada pelo homem.

Já observaram o crânio de um pug? Parece algo normal? É claro que não. Quando comparado com um crânio normal de um cão, percebe-se que a seus dentes são saltados, o focinho bastante curto e a cavidade ocular muito rasa. Ou seja, apresentam os olhos saltados/esbugalhados (dificultando o fechamento das pálpebras, assim como o ressecamento do olho e a formação de úlceras e, em casos mais avançados, causando a cegueira), dificuldade respiratória (narinas curtas e estreitas impedem melhor oxigenação, forçando-os a ofegação constante, causando cansaço, dificuldade em regular a temperatura corporal e sobrecarga ao coração, podendo levar à morte súbita).

Lesões nas articulações dos membros anteriores e posteriores e dores crônicas na coluna, em função das alterações morfológicas e sobrepeso, assim como dermatite crônica (problema na pele) também são comuns.

No caso do buldogue inglês, a prova de que não são aptos à sobrevivência e reprodução, vai além. A fêmea possui sua pelve tão estreita que praticamente impede sua reprodução natural. Com isso, é quase sempre necessária a realização de inseminação artificial e, para o nascimento, apenas a cesárea é possível devido ao tamanho desproporcional da cabeça dos fetos.

Assim, se está pensando em ser tutor de um cão, não compre. Adote! Além de permitir uma vida mais digna aos milhões de inocentes que vagam pelas ruas (no Brasil são mais de 30 milhões, de acordo com a Organização Mundial da Saúde  – sendo cerca de 10 milhões de gatos e 20 milhões de cachorros), deixará de abastecer esse tipo de comércio, que ainda considera animais como mercadorias, ignorando a maneira como são gerados, seus problemas e sentimentos.

*Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências.

 

2 comentários sobre “Pug: maldade humana

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