Preconceito: irracionalidade humana?

Luiz Fernando Leal Padulla*

Preconceito: “generalização superficial; juízo preconcebido, manifestado na forma de uma atitude discriminatória perante pessoas, culturas, religiões, lugares ou tradições consideradas diferentes ou ‘estranhos’”.

Somos preconceituosos sim – e por isso precisamos nos desconstruir. Mas por que agimos assim? Culpa de nossa carga genética? Ou fruto da estimulação ambiental? Eis uma pergunta que a Ciência ainda não conseguiu uma resposta totalmente convincente. Seria a discriminação uma atitude exclusiva do ser humano?

Quando trabalhava com chimpanzés, no Santuário dos Grandes Primatas de Sorocaba, pude presenciar o comportamento de alguns deles frente a alguns chimpanzés deficientes. Foi o caso de Emílio e Hulk – este último, cego. Apesar de respeitoso e pacífico, na tentativa de aproximá-los, Emílio não chegava perto de Hulk. Era nítida sua aversão – medo ou repulsa? – ao olho esbranquiçado de Hulk. Caminhava com Hulk de mãos dadas para perto de Emílio, que não tirava os olhos dele. Bastava chegar perto que ele fazia sua feição de medo, gritava e se afastava.

Outro chimpanzé chamado Vitor, cujo braço foi amputado por conta de uma briga entre sua mãe e sua tia em uma jaula, também sofria com sua deficiência física. Mesmo sendo amistoso, nenhum chimpanzé aceitava-o, cabendo apenas a interação com as pessoas, na tentativa de mitigar seu isolamento.

Lembro-me também de outro caso curioso: o ódio que Alex tinha em relação aos negros. Chegava a ignorar a cerca elétrica para tentar ataca-los. Não sabíamos de onde vinha tamanha raiva – talvez do passado de tortura que viveu no circo, e a partir daí, passou a generalizar todas as pessoas de pele escura.

Pesquisadores afirmam que o preconceito é um fenômeno social e não biológico. Ou seja, nos humanos, o racismo especificamente, só surge ao longo da vida. E, segundo a doutora Patrícia Izar, não há nos animais exemplo típico de preconceito, pois segundo a mesma “o preconceito [no caso, racismo] é uma construção verbal e social típica das culturas humanas”. Será mesmo?

(Em tempo: biologicamente falando, não existem “raças humanas”)

No caso dos chimpanzés, nossos parentes evolutivos mais próximos, é até mais fácil observarmos esse comportamento – ainda que a ciência insista em negá-lo. Mas e nos demais animais? Seria possível?

Recentemente observei isso em meus cachorros. Por conta dos absurdos fogos que soltam no final de ano, fiquei na sala com meus cachorros e minha gata – esta, cega de um olho e sem o seu olho esquerdo que foi retirado por conta de um atropelamento. Negão e Suricato se esquivavam sempre que Quintina (a gata) se aproximava deles. O olhar de preocupação – ou medo? – era instigante. O que será que se passava na cabeça deles? Toda vez que Quintina caminhava em sua direção,  sempre tateando com muito cuidado, Negão saia rapidamente de perto – nem conseguia relaxar na sala, pois ficava sempre de olho na gata. Como justificar esse tipo de comportamento em relações interespecíficas, como entre cão e gato, a não ser o verdadeiro preconceito?

Procurei artigos relacionados ao assunto para tentar entender um pouco mais, porém, nada ainda encontrei. E a razão para isso está no fato de que a ciência ainda caminha a passos lentos para reconhecer também nos demais animais o que chamamos de senciência. Afinal, admitir que animais não humanos são dotados de sentimentos, causaria uma revolução na sociedade – principalmente nas indústrias de alimentos, cosméticos e farmacêuticos. E a pergunta que faço é: estaríamos preparados para isso?

Entre indivíduos da mesma espécie, o preconceito pode ter uma justificativa biológica – e cruel: abandonar e/ou não cuidar da prole deficiente poderia ser um mecanismo de preservação da própria espécie. Isto é, todo o “fitness” – gasto energético destinado aos descendentes – seria despendido apenas para os filhos capazes de sobreviver e passar sua genética adiante. Por exemplo, podemos citar alguns pássaros que, ao gerarem dois ou mais filhotes, são coniventes com atitudes cruéis de alguns de seus descendentes, que não apenas competem pela comida, mas chegam até a bicar e jogar para fora do ninho seus próprios irmãos. Para os pais – biologicamente falando – o filho escolhido é aquele que tem maiores chances de perpetuar sua espécie, passando seus genes que foram naturalmente selecionados.

Relembro aqui alguns pontos levantados no livro “Animal Minds”, de Donald Griffin, e que nos faz refletir ainda mais sobre isso:

  1. Seriam os animais tão conscientemente conscientes ou meros zumbis, incapazes de terem sentimentos e emoções?;
  2. A consciência animal é tão difícil de negar quanto de se comprovar;
  3. A consciência animal ainda permanece sendo um tabu, apesar de cada vez mais ser aceita sua realidade e significância. Esse tabu permanece principalmente pelo fato de ser algo subjetivo e imensurável.

Aprofundando um pouco mais sobre o assunto, podemos extrapolar para nosso comportamento humano, e com ele, nossos preconceitos. Racismo, homofobia, sexismo, misoginia, xenofobia. Como explicar que, em pleno século XXI, a espécie humana ainda nutra esse tipo de comportamento, a ponto de celebrar a morte de pessoas contrárias à suas ideias e princípios? Como justificar que nós, ditos seres conscientes e dotados de moralidade – sem qualquer trocadilho com um certo ex-juiz canalha, cuja moral e ética são ausentes – aceitemos atitudes cruéis e incentivo à violência contra gays, negros, pobres, índios e até mesmo contra animais (com a abusiva tentativa de liberação da matança por bel-prazer!)?

Talvez o preconceito humano vá além do preconceito “irracional” dos demais animais. Ou seríamos nós, humanos arrogantes e prepotentes, dotados de tamanha irracionalidade, nos tornando cada vez mais primitivos em nossas atitudes? Talvez a eleição do atual presidente “Bozonazi” seja uma das provas mais significativas para essa tese que comprovaria o retrocesso pelo qual passamos em nosso país. E quem sabe, até rotulando erroneamente os demais animais como “desumanos”.

*Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências, Especialista em Bioecologia e Conservação.

 

Links:

https://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/redacao/2013/02/05/ciencia-busca-explicacoes-sociais-e-biologicas-para-explicar-o-preconceito.htm?cmpid=copiaecola

http://www.projetogap.org.br

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