A pequenez de um grande monstro

Luiz Fernando Leal Padulla*

 

A Copa do Mundo de Futebol acabou. Não vou falar aqui sobre a prepotência da seleção da CBF, nem das ridículas simulações do “menino de 26 anos” que virou piada mundial.

Também não vou escrever sobre a beleza do futebol belga, muito menos elogiar o país campeão, e menos ainda ser repetitivo em elucidar a vitória dos “africanos franceses” (17 dos 23 jogadores da seleção), dando um verdadeiro tapa na cara da sociedade xenofóbica da França – mostrando mais uma vez que o futebol é belo e não apenas um simples jogo.

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Venho aqui escrever sobre um gigante de 1,68m chamado N’Golo Kanté – o volante camisa 13 da seleção campeã. Esse filho de imigrantes de Mali, há vinte anos era um garoto que catava latinhas e material reciclado nas ruas de Paris, inclusive no dia em que franceses celebravam o inédito título de 1998.

Há vinte anos, Kanté vivia à margem da sociedade que hoje o nota e o idolatra. Em cinco anos, saiu da terceira divisão da Liga Francesa para tomar conta do meio-campo da seleção do país que um dia lhe ignorou.

Acompanho a Premier League e Kanté sempre me chamou a atenção por sua determinação e entrega nos jogos. Destacou-se efetivamente no meio-campo do Leicester na temporada de 2015/2016 – ano no inacreditável título do clube sob o comando de Claudio Ranieri. Não à toa, foi eleito o melhor jogador da liga. Com isso, grandes clubes passaram a olhá-lo com outros olhos, conseguindo o milionário Chelsea leva-lo para Londres.

Kanté é um marcador espetacular – ou, como dizemos na gíria dos boleiros, um “carrapato”. Corre a todo momento, com senso preciso de marcação e desarme dos adversários. E só por isso Kanté é percebido.

Kanté sempre passa despercebido na vida, mas em campo tem fundamental e marcante presença. Um verdadeiro monstra na meia cancha.

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No título da França, na Rússia, os jogadores estavam todos eufóricos e extravasavam alegria. No canto, comedido e esboçando um tímido sorriso, Kanté também celebrava. Envergonhado, Kanté sequer tiraria uma foto com a cobiçada – e merecida – taça, não fosse seu amigo N’Zonzi coloca-la em sua mão. Quanta humildade em um ser humano!

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Vestindo a camisa 13, Kanté comemora o título como sempre: comedido e envergonhado.

É verdade que tantos outros jogadores – inclusive no Brasil – também tiveram infâncias difíceis e de superação. E infelizmente, quando ascendem socialmente, muitos esquecem suas origens e optam pela ostentação, pela mídia, por cabelos pomposos, e sucumbem ao capital. Por isso Kanté é diferente. Joga pelo grupo, corre como sempre correu, luta como sempre a vida lhe exigiu.

Confesso para vocês que o olhar e o sorriso maroto deste rapaz chegam a me emocionar. Não é mais um olhar de fome e tristeza, mas de alguma forma ainda carrega essas marcas. Quanta história de superação está por trás de tudo isso!

Dói saber que Kanté é um dos poucos casos de sucesso dentre os refugiados. Dói ainda mais saber que nem todos terão a mesma oportunidade – e força – que ele teve. Dói na alma saber que depois da ressaca do título, a França continuará fechando as portas e ignorando tantas outras crianças e adultos que migram em busca de uma vida digna, longe de guerras, da fome e da barbárie. Dói e revolta saber que para tantos outros “Kantés” há solução, mas falta vontade política; falta humanidade e empatia aos políticos.

E não precisamos ir longe. Em nosso país, golpeado desde 2016 por verdadeiros corruptos e lesa-pátria, assistimos estarrecidos a ActionAid/Ibase anunciarem a volta da extrema pobreza e o aumento da mortalidade infantil, o que não ocorria desde 1990. Soma-se ainda o aumento dos índices de desemprego, da desigualdade social e a aniquilação dos programas sociais para um caminho ainda mais perverso rumo ao mapa da fome da ONU, do qual havíamos saído desde 2014.

Quem sabe esse título francês, e a maneira como foi construído faça o mundo repensar um pouco mais sobre a humanidade. Quem sabe o povo realmente acorde do sono profundo e lute verdadeiramente pelo coletivo, e assim, o exemplo de vida de Kanté não seja lembrado e reverenciado a cada quatro anos em um evento esportivo, mas que seja o início de uma nova maneira de pensarmos e agirmos para com nossos irmãos e irmãs.

*Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências

 

 

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2 comentários sobre “A pequenez de um grande monstro

  1. Se a luta por igualdade , se a luta contra preconceitos, fosse um coletivo de humanos , como o mundo seria melhor não ?
    Reflexão(artigo) muito bonita ! Como sempre meus parabéns e administração!

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