Quintina Valentina: exemplo de vida

Luiz Fernando Leal Padulla*

Em toda minha vida sempre gostei dos animais. Os cachorros sempre estiveram presentes, desde a infância até hoje. Já com gatos, minha experiência foi passageira. Final dos anos 90, quando uma gata apareceu na casa de meus pais – onde morava até a adolescência – e deu cria. A gata em si, muito arisca e arredia. De seus filhotes, lembro pouco. Acho que três nasceram, sendo um deles uma fêmea com um olho verde e outro azul. Mas só um acabou sendo mais amistoso e se aproximava. Minha irmã mais nova deu-lhe o nome de Kenji. Até que um dia, acordamos e ele estava morto no jardim – suspeitamos até hoje que o infeliz e desumano vizinho o tenha envenenado.

Depois disso, nunca mais. Até chegar o dia 6 de outubro de 2017 (conforme escrevi no post “Por que não sou ateu?”).

Todos esses dias cuidando e assistindo Quintina, me fez pensar e refletir sobre muitas coisas. Após a perda da visão (seu olho esquerdo teve que ser removido, e o direito está sem função) e a incapacidade de mastigar de forma efetiva (teve uma fratura na mandíbula que impede sua total articulação), temia que sua adaptação fosse difícil e que ela não conseguisse a devida recuperação. Paralelamente, após a decisão de adotá-la, havia outro problema: nossos filhos caninos.

Muitas perguntas e dúvidas. Preocupações que com o tempo foram se dissipando.

A aproximação com os cachorros foi incrível. Comecei com as meninas que, por dormirem dentro de casa, deveriam aceitar Quintina. Tanto Lia como Manuela foram “mãezonas” e a aceitaram muito bem. Manuela, inclusive, é sua principal parceira de brincadeiras – quando Quintina está disposta, claro!

Passadas algumas semanas, sempre a mostrando para os meninos através do portão gradeado, senti que chegara o momento de aproximá-la deles. Carreguei-a no colo e fomos para o quintal. Coloco-a no chão, com certo receio, mas confiante ao mesmo tempo. E lá se fez a magia! Chegaram perto, cheiraram e só! Não ouve qualquer reação de desaprovação. Naquela tarde, ganhei o dia!

Quintina caminhou pelo quintal, passo a passo, na certeza de onde pisava. Depois deitou-se no sol e tirou uma soneca. E os meninos? Também ficaram perto dela, igualmente deitados. E eu, só curtindo aquela alegria!

Não sei ao certo o que se passa na cabeça deles, mas no fundo acredito que saibam da dificuldade e deficiência dela. O nome disso: empatia. Daí o cuidado e respeito.

A partir deste dia, pude deixar parte das preocupações de lado, afinal, a aclimatação e entrosamento com os irmãos e irmãs estava garantido. Passava agora a focar na melhora da qualidade de vida de Quintina. O que poderia fazer para tornar o ambiente melhor para ela? Tudo para mim era novidade. Gatos são diferentes de cachorros. O que dizer então de uma gatinha cega!

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E mais uma vez, a vida nos surpreende. Após alimentá-la, deito no sofá. De repente, vejo Quintina aranhando o sofá e…escalando-o para deitar em meu ombro. E assim os dias se sucederam. De noite, arrumamos almofadas ao lado da cama para ela. Eis que no meio da madrugada, que está ao lado de minha cabeça para dormir?

As brincadeiras com Manuela também são dignas de admiração. Manuela parece se aproveitar da falta de visão e brinca de “bobinho”, pulando do chão para o sofá e vice-versa. Rodopia ao redor de Quintina como se brincasse de “pega-pega”. Mas, para nossa surpresa, Quintina pressente sua presença e vai atrás, como se realmente a enxergasse.

(Em tempo: sabemos que ao perdermos um dos sentimos, os demais acabam se desenvolvendo um pouco mais, para justamente suprir essa necessidade de percepção do ambiente).

Entre um acontecimento e outro, lembrei do filme “Ensaio sobre a cegueira”, baseado na obra de mesmo título, de José Saramago. O filme é angustiante ao nos mostrar a perda repentina da visão e a reação das pessoas perante a incapacidade de enxergar e às necessidades. Analisando Quintina, não pude deixar de pensar: e se fosse comigo? Como será que eu reagiria?

Curiosamente, um dia antes de escrever esse post, assisti um vídeo que mostrava uma mulher que perdera seu braço e ao invés de lamentar e/ou superar, decidiu aceitar (veja o vídeo: “Viva com leveza”).

Quintina tem mostrado como devemos agir. Não vi nessa gatinha qualquer atitude que demonstrasse desespero, lamentação. É óbvio que sua rotina de vida mudou tragicamente; seu passado de total independência, onde caminhava e subia em muros, árvores e tantas coisas mais que fazia, agora ficou para trás. Mas nem por isso ela se entregou. Nesse novo desafio, optou por seguir adiante.

Quantas dificuldades ela encara diariamente? Inúmeras! Desde nem sempre achar sua caixinha de areia, o pote de água, depender dos humanos para se alimentar – alimento triturado e umidificado – e até mesmo pelas várias trombadas com paredes e objetos. Mas o que ela faz? Para, chora e se lamenta? Não! Caminha, se movimenta, enfrenta cada obstáculo com determinação!

Curiosamente, ao procurar artigos para aprofundamento dos estudos durante as férias, deparei-me com um publicado na Nature (“Animal behaviour: Cognitive bias and affective state”), que me deixou ainda mais feliz por saber que Quintina adota essa postura em função de seu estado psíquico em resposta ao ambiente acolhedor. Segundo os autores, o chamado “viés cognitivo” escolhe respostas negativas quando o ambiente não lhes é favorável. Assim, a vontade de superação e todo pensamento e atitudes positivas de Quitina, me mostra que estamos no caminho certo.

É difícil e trabalhoso cuidar dela? Com certeza. Mas ao mesmo tempo, é uma experiência sem igual, que me fortalece e me ensina diariamente. Parece um velho clichê, mas temos muito o que aprender com esses seres!

Como disse no início, nunca tive gatos. Continuo não tendo. Quem me tem, é ela!

*Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências, Especialista em Bioecologia e Conservação.

4 comentários sobre “Quintina Valentina: exemplo de vida

  1. LUIS FERNANDO.. não me surpreendeu bem um pouco esse seu artigo porque vc sempre foi perfeito em tudo que faz ..sempre amoroso,dedicado ,determinado e etc..etc…ficaria aqui dias e dias descrevendo seus predicados e assim mesmo acho que não conseguiria enumerar todos…te amo muito e continue nesse caminho que Deus estará sempre te acompanhando e te dando forças (nós tb) abençoando sempre esse seu amor pelos animaizinhos…amo essa gatinha como se fosse minha neta já há muito tempo…conte sempre conosco…te amamos muito…gosto muito desse ditado que aprendi na adolescência TE AMO HOJE MAIS QUE ONTEM E MENOS QUE AMANHÃ…BJS..BJS…BJS…

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