O bem-estar animal: produção, conscientização e libertação

Luiz Fernando Leal Padulla*

Estive recentemente em dois simpósios de Medicina Veterinária: em Pirassununga (I Simpósio Internacional de Bem-Estar Animal: “Na Fazenda com Temple Grandin”) e Campinas (III Simpósio de Medicina Veterinária Legal do CRMV-SP). Entre tantas coisas interessantes que foram abordadas, algumas me chamaram a atenção, principalmente no que diz respeito ao bem-estar e defesa dos animais.

Tudo passa, basicamente, por dois pontos: a questão cultural e a educação. Em Campinas, a Dra. Mara Massad deixou bem claro essa questão ao abordar a polêmica e abusiva prática da vaqueja, rechaçada pelo STF, mas mesmo assim aprovada pelo Senado em função do lobby forte que fizeram lá dentro – como tantas outras obtusidades que acabam por aprovar. Usando das falas dos ministros do STF para ilustrar, ficou evidente que por mais que seja cultural, é inadmissível nos tempos atuais tal ação, ainda mais com provas incontestáveis que aos animais são sencientes – ou seja, entre outras coisas, sentem dor.

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Dra. Temple Grandin em Pirassununga.

Em Pirassununga, com muitas palestras voltadas para fins produtivos, confesso que fiquei confuso em entender ao certo a prática das “5 liberdades” (livre de fome e sede, de dor e doença, de desconforto, de medo e estresse e para expressar seu comportamento natural), quando se zela por isso e os destinam ao abate – mas essa é outra discussão. No entanto, era consenso entre elas a necessidade de se “romper com a tradição”.

E pensando cá com meus parafusos, tentando não olhar pela cadeia produtiva, chego à conclusão: não precisamos mais de carne (ou, se não quiser ser tão drástico, de tanta carne) para nossa sobrevivência.

Além da maneira predatória e danosa ao ambiente – degradação de florestas para o plantio de pastagem, emissão de gases que potencializam o efeito estufa –, nosso corpo não suporta mais essa carga.  Nossa dentição não é mais a mesma – gerações nascem sem o dente do siso e até mesmo sem os caninos, em clara evidência evolutiva de mudança de hábito alimentar –, nem mesmo nosso trato digestório se mostra eficiente em trabalhar na digestão de tanta carne – há estudos que mostram, inclusive, a relação direta do consumo de carne com índices de câncer, arteriosclerose e diabetes tipo 2.

O mesmo vale para outros produtos de origem animais, como ovos e leite.

Já parou para analisar quantas pessoas são diagnosticas como intolerantes a lactose? Há estudos que relacionam a necessidade dessa fonte de proteína apenas nos primeiros anos de vida – e, consequentemente, perderíamos a capacidade de síntese de enzimas que quebrariam esse açúcar. Sendo assim, por que insistir na ingestão desse tipo de alimento?

Segundo levantamentos, populações com predominância de alimentos lácteos na dieta, particularmente do norte da Europa, 2% da população apresenta deficiência primária de lactase. Já entre os hispânicos, esse valor é de 50% a 80%, e de 60% a 80% em negros e judeus asquenazim (de origem da Europa Central e Oriental) e quase 100% em pessoas asiáticas e índio-americanos.

Em 2007, estudo desenvolvido pela University College de Londres, publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, mostrou que homens do período neolítico não tinham a capacidade de digerir leite, pois não possuíam o gene responsável pela produção da lactase – sendo, portanto, intolerantes à lactose.  É justamente nesse período que começam as práticas da agricultura, acrescentando alimentos de origem vegetal de forma mais rotineira em nossa dieta.

Para os autores da pesquisa, em determinado momento da evolução, uma mutação surgiu e promoveu a produção desta enzima. Há duas hipóteses: que a mutação surgiu antes da criação dos gados, ou que ela tenha surgido apenas depois. O curioso nesse jogo dos genes é que hoje em dia, segundo os pesquisadores, mais de 90% da população com origem do norte da Europa tem o gene, mas a intolerância ao leite continua comum nos tempos modernos. Na Ásia e a África, a maioria das pessoas tem algum nível de intolerância à lactose.

(Abro aqui um parêntese: há crianças também intolerantes à lactose. No entanto, quando apresentam algum sinal como diarreia, dor abdominal e náusea, recorre-se ao uso de medicamentos. Ou seja, atuamos contra o princípio da seleção natural – é obvio que faremos de tudo para salvar e melhorar a qualidade de vida das pessoas, ainda mais quando são nossos entes. Apenas faço essa observação para mostrar que nossas atitudes – médicas, principalmente – não favorece a seleção de indivíduos resistentes, mas promove a sobrevivência daqueles inaptos à mesma)

Enfim, deixemos esse aspecto mais evolucionista de lado. Voltemos a questão do bem-estar animal e os meios de produção. Será que realmente obedecem às “5 Liberdades”? Bovinos que vivem alojados em galpões climatizados e que não tem contato com a luz do sol, são normais e capazes de expressar seu comportamento natural? E as aves e suínos?

Ao mesmo tempo em que digeria as falas e matutava isso em minha cabeça até elaborar esse post, assistia ao documentário “Enjoy your Meal – how food changes the world”. E as situações abordadas no mesmo, só reforça essa ideia e necessidade de mudança.

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Em pleno século XXI, passou da hora de repensarmos nossas atitudes e nossa maneira de tratarmos os animais e o próprio ambiente. Falas como “a população está crescendo e precisamos produzir”, não cabem mais.  O sistema de produção intensivo não é danoso apenas aos animais, mas degrada e destrói o planeta, sendo insustentável e inadequado.

Minha vontade? A verdadeira libertação animal. Mas entendo que é um sonho um tanto quanto distante – para não falar utópico. Enquanto isso não é possível, cabe a nós, defensores dos animais, lutarmos por melhores condições para todos eles. Lutar para métodos de criação mais humanos, que realmente atendam às 5 Liberdades; lutar pelo fim do confinamento abusivo, pelo fim das gaiolas, promover estudos sobre o bem-estar.

Paralelamente, trabalhando com a conscientização das pessoas, estimulando-as a reverem seus hábitos de consumo e exploração.

É um trabalho árduo? Sem dúvidas! Mas apenas assim conseguiremos atingir o objetivo final.

 

*Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências, Especialista em Bioecologia e Conservação.

 

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