Santa hipocrisia!

Luiz Fernando Leal Padulla*

 

Correu nas “timelines” do Facebook, proliferou pelo WhatsApp e tantas outras redes sociais, a filmagem de uma professora da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), ensinando adolescentes a colocar a camisinha com a boca.

Comentários condenatórios não faltaram. Oportunistas – e desinformados! – logo execraram a liberdade da educação e a atitude da educadora. E como sempre, polarizou-se uma discussão que nem deveria ser discutida, afinal, o que estava sendo feita era a educação sexual de adolescentes.

Mas como “sexo” é um tabu em nossa sociedade, logo vieram as condenações – inclusive, de “educadores”.

Quero ponderar aqui duas coisas: o falso moralismo e a educação.

Entre tantos comentários indignados de “cristãos”, “cidadãos de bem”, logo percebe-se que muitos deles são hipócritas. Sim, hipócritas, dissimulados, farsantes.

Em rodas de discussão sobre o tema, alguns conhecidos – e talvez você tenha tantos outros – são os mesmos que compartilham vídeos pornográficos e acessam conteúdo do mesmo gênero na internet. Os mesmos indignados que condenam exposição em museus – arte! – mas acham normal novelas e os tais ‘realities’ exporem cenas quentes de relações sexuais e mulheres nuas durante o Carnaval, não é mesmo?

Talvez, como um mea culpa, têm que demonstrar essa (falsa) indignação para ser socialmente aceito, e impor sua defesa da “família tradicional” – em resumo, a fatídica frase ditatorial que assombra os dias de hoje: “Deus, Pátria e Família”. No post sobre Marighella, cito um trabalho científico que mostra essa necessidade de afirmação perante a sociedade (veja aqui: Marighella e a falta de informação)

(Em tempo: Outro dado curioso – e lamentável – foi publicado também recentemente. O Brasil é o país que mais tem acesso e procura por pornografia transexual, e ao mesmo tempo, o país que mais mata transexuais. Talvez Freud pudesse explicar? Uma série de hipóteses poderia ser levantada aqui, mas deixaremos para outro post).

Apenas para constar, e derrubar o argumento de que esse tipo de educação é absurda, desrespeitosa, aflorando o complexo de “vira-lata”, na Noruega, a educação sexual é ainda mais explícita. No canal estatal – para desespero dos conservadores e defensores da propriedade privada – possui um programa chamado “Pubertet” que, em oito capítulos, mostra claramente os corpos despidos de homens e mulheres – “aí meu Deus! Que horror!” – e explicando o que acontece em c ada um deles conforme crianças se tornam adolescentes, incluindo o processo de relação sexual. Aulas simples, real e sem pudores.

“Mas, isso é necessário?”, dirão alguns. Ora, deixemos a hipocrisia de lado. Acha mesmo que a sexualidade não entra pela tela do celular ou tablet de seu/sua filh@? Acha mesmo que “esconde” tudo aquilo que julga inadequado para el@? Além disso, vale a máxima de que “o proibido é mais gostoso!”. Desde que não traga consequências mais ou menos sérias, como uma DST ou gravidez indesejada, não é mesmo? E para isso, só há uma saída: educação sexual.

E para falar – e atingir – essa juventude, qual o melhor vocabulário? Aulas maçantes, com desenhos e linguagem formal? Claro que não!

Enquanto acharmos que nossos jovens são educados com esse tipo tradicional – e arcaico! – jamais reduziremos os índices de doenças sexualmente transmissíveis, jovens grávidas e abortos clandestinos! Fechar os olhos para essa realidade é querer tampar o sol com a peneira.

Nosso patrono da Educação, Paulo Freire, já dizia isso: devemos falar a linguagem do jovem!

Sendo assim, deixemos de ser dissimulados apenas para parecermos puros.

Precisamos falar de sexo, masturbação, camisinha e cia! Em pleno século XXI, é inadmissível o aumento de 4% nos casos de Aids no Brasil, enquanto que no mundo houve uma queda de 11%. Não podemos ignorar o aumento de mais de 1000% (sim, mil por cento!) nos casos de sífilis em Campinas (SP), sendo o aumento anual no país de 28%. Falar sobre prevenção é o único caminho.

Educação sexual é coisa séria, e sem espaço para mimimi! É questão de saúde pública!

*Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências, Especialista em Bioecologia e Conservação

 

Fontes:

Brasil é o país em que mais se procura pornografia trans e que mais se mata pessoas trans.

https://www.revistaforum.com.br/2017/01/28/brasil-e-o-pais-em-que-mais-se-procura-pornografia-trans-e-que-mais-se-mata-pessoas-trans/

 

Casos de sífilis em adultos aumentam 27,9% em um ano

http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2017-10/casos-de-sifilis-em-adultos-aumentam-279-em-um-ano

 

Em um ano, novos casos de HIV aumentam 4,1% no país

https://oglobo.globo.com/sociedade/saude/em-um-ano-novos-casos-de-hiv-aumentam-41-no-pais-22137782

 

Casos de sífilis aumentam 1.031% em Campinas em 6 anos https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/casos-de-sifilis-aumentam-1031-em-campinas-em-6-anos-veja-como-tratar.ghtml

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