Marighella e a falta de informação

*Luiz Fernando Leal Padulla

“Político, guerrilheiro e poeta, Carlos Marighella vivenciou a repressão de dois regimes autoritários: o Estado Novo (1937-1945), de Getúlio Vargas, e a ditadura militar iniciada em 1964. Foi um dos principais organizadores da resistência contra o regime militar e chegou a ser considerado o inimigo número um da ditadura”. Eis uma breve descrição apresentada no site “Memórias da Ditadura”.

Pouco se ouve falar sobre Carlos. E quando se vê alguma coisa, é com aspecto negativo.

Isso porque temos dois tipos de geração: aqueles nascidos durante a época da Guerra Fria, e aqueles cuja paciência para leitura é praticamente nula, restringindo-se às manchetes e memes das redes sociais.

Para os mais velhos, ainda sobrevive em seu subconsciente a visão de “comunistas comedores de criancinhas”, afinal, foi esse tipo de propaganda difundida pelos yankes para condenar o comunismo/socialismo – basta lembrar os aviões dos EUA que sobrevoavam a ilha de Cuba lançando panfletos que amedrontavam o povo cubano, alertando para o “perigo” dos revolucionários.  À época, pouca informação – e principalmente pouco acesso a ela – se tinha. Ao horrorizar a população, tudo aquilo que tinha uma estrela vermelha era rapidamente recriminado, temido e rechaçado.

Para a geração seguinte, podemos subdividi-la em duas vertentes: aqueles que buscam informações e conhecimento, e aqueles “preguiçosos”, os verdadeiros analfabetos funcionais. Com praticamente o mundo em nossas mãos – seja através de smartphones, tablets ou notebooks – toda informação pode ser acessada, mas nem todos fazem isso. E pior: restringem-se apenas as manchetes (muitas vezes tendenciosas) de noticiários e jornais, sem aprofundamento no assunto.

Pesquisas comprovam isso: a maior parte das reportagens são compartilhadas nas redes sociais sem que a pessoa a tenha lido. O motivo? A geração de pessoas apressadas, ansiosas. Mas o pior não é isso. Além de compartilhar sem a leitura, as mesmas pessoas se acham aptas a comentar! Médiuns do século XXI? Acho que não.

No referido estudo, por exemplo, a cada 10 links compartilhados, constatou-se que 6 não eram acessados.

Para o cientista e um dos autores responsáveis da recente pesquisa, Arnaud Legout, do Instituto Nacional Francês (veja aqui: Social Clicks: What and Who Gets Read on Twitter?), “as pessoas formam suas opiniões baseadas em um resumo, ou um resumo de resumos, sem fazer o esforço de ser aprofundar em um tema”.

Além disso, um outro estudo, mostrou que textos “virais” provocam maior atividade na região cerebral responsável pela aceitação e sensação de prazer. Possível justificativa para isso é o fato de sermos mais aceitos se também viralizamos o assunto – assim, seríamos mais aceitos socialmente, teríamos maior aceitabilidade social. (veja artigo aqui: A neural model of valuation and information virality)

(Em tempo: é sabido que a área pré-frontal, objeto desse estudo, só está completamente formada após os 30 anos. A pesquisa, no entanto, foi feita com pessoas entre 18 e 24 anos. Seria essa a explicação para a maior aceitação de Bolsonaro entre pessoas nessa faixa etária?)

Para os autores, a preocupação com esse tipo de postagem, está relacionada com o impacto social, fazendo com que as pessoas postem não apenas o que gostam, mas com aquilo que os outros pensam/pensarão sobre ela.

Esse tipo de informação superficial, tornando pessoas “conhecedoras do assunto”, é hoje o principal motivo de tamanha ignorância política. Pessoas que ao invés de conhecerem a verdade, preferem se ater a conhecimentos rasos, falaciosos. E muitas vezes, mentirosas!

Quem não se lembra da Ferrari e da lancha do filho do Lula? Ou do cachorro da presidenta Dilma, que foi acusada de tê-lo matado porque estava velho?

(Em tempo: o labrador de Dilma teve que ser eutanasiado por conta de uma mielopatia degenerativa canina).

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Nesse contexto, sugiro a busca constante de informações – muitas vezes você não a encontrará facilmente em redes sociais. Sobre Marighella, recomendo o livro de Mario Magalhães: “Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo”, da Editora Companhia das Letras). Ao ler, entender e conhecer sobre este soteropolitano, todo estigma – ditado pela direita desesperada e reacionária – carregado por Marighella, se desfaz como pó, dando espaço para a verdade.

Assim, não se atente ao que memes e manchetes de jornais e mídias oligárquicas estão te vendendo – sempre em submissão aos interesses do capital. Não julgue Carlos Marighella antes de conhecer sua biografia e seu ideal. Marighella foi sim um herói, que bateu de frente contra os interesses imperialistas e capitalistas dos EUA.

Carlos foi, acima de tudo, um verdadeiro brasileiro, que colocaria “no chinelo” qualquer um que se diz patriota hoje em dia.

Marighella foi – e deve ser para sempre – um exemplo de resistência!

Carlos Marighella, presente!

 

*Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências, Especialista em Bioecologia e Conservação.

 

 

 

 

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