As baratas, a fome e a biologia

* Luiz Fernando Leal Padulla

Em uma noite de sábado, fui tratar de minha criação de baratas (Periplaneta americana) que mantenho para minhas aulas. Por um descuido – e falta de tempo – acabou que elas ficaram mais tempo sem comida do que o planejado. Ao colocar a ração, para minha surpresa e reflexão que motivou esse post, poucos minutos depois elas já estavam aglomeradas sobre a comida. Até aí pode parecer tudo relativamente normal, não fosse o fato de ignorarem minha presença – e até mesmo a luz acesa.

Baratas são insetos de hábito noturno, extremamente ariscas e sem hábito de viver em sociedade. Sempre que vou trata-las e trocar/limpar seus recintos, fogem e procuram se esconder – seja de mim, ou de Lia Maria, que ao vê-las sempre fica latindo. Mas desta vez, não. Será que a fome falou mais alto e pouco se importaram se um predador em potencial iria ataca-las? Quando aglomeradas teriam um comportamento de “sociedade”, na tentativa de intimidar-me? Ou até mesmo se acostumaram com minha presença e perceberam que eu não as faria mal?

Indagações à parte, atrevo-me a abrir mais esse leque de hipóteses.

Enquanto humanos, sabemos o que é certo e o que é errado – ou pelo menos deveríamos saber. Em uma sociedade cada vez mais desigual, frustra-nos quando não conseguimos atingir um objetivo ou adquirir determinado produto. No entanto, após raciocinarmos sobre a real necessidade de tal aquisição, muitas vezes percebemos que não havia necessidade da compra, e que fomos tomados pela emoção do consumo – o verdadeiro doutrinador social.

No entanto, quando se trata de comida, a resposta é outra. Não aceitamos facilmente a derrota – até mesmo por questão de sobrevivência. Entre outros animais, tal como nas baratas, podemos observar vários exemplos onde ignora-se o “correto/moral” em nome da sobrevida.

Quantos pais sacrificam-se em busca de alimento para seus filhos? Em casos mais impactantes, vê-se claro exemplo de altruísmo, com o sacrifício próprio para sua prole – lembro do exemplo de machos de algumas aranhas e escorpiões que, após a cópula, são predados pelas fêmeas, suportando-as em nutrientes para a geração dos filhotes.

Ok. Você pode até me dizer que “na nossa espécie, isso seria impossível porque não somos canibais” – não citarei o clássico e fatídico evento da tripulação que sobreviveu ao acidente aéreo na Cordilheira dos Andes em 1972, tendo que se alimentar da carne de outras pessoas que morreram no mesmo acidente para sobreviverem. Ignorando-se essa possibilidade – que apesar de imoral, incorreta, pecaminosa e/ou surreal (a seu critério de julgamento) – a pergunta que faço é: o que você faria para saciar sua fome?

Em tempos de um regime de exceção que vivemos em nosso país, golpeado por políticos corruptos, eis que surge a notícia de que após mais de uma década fora do Mapa da Fome e da Miséria da ONU, tudo caminha para que voltemos ao mesmo. Infelizmente veremos pais de famílias, desempregados e desesperados para saciar a fome de seus filhos, tendo que optar por roubos e até mesmo assaltos. Condenável a atitude desses humanos? Condenável a atitude desses animais?

E tudo isso porque nossa sociedade, abastecida com a ideologia capitalista do consumo – que se preocupa muito mais em TER do que SER – preza pelo lucro, pelo individualismo. Enquanto áreas gigantescas são usadas para a produção de toneladas de alimentos, poucos têm acesso aos mesmos. Ou seja, enquanto muitos passam fome, poucos optam por concentrar sua renda e seus lucros, ignorando as reais – e fundamentais – necessidades da população.

Em tempos de “sustentabilidade”, ainda que propagada aos quatro cantos, vê-se a hipocrisia que o capitalismo defende: como atender às necessidades ambientais, sociais e econômicas, quando o dinheiro toma a frente de qualquer negociação?

Para que se tenha uma ideia, de acordo com a FAO, um terço de toda a comida produzida anualmente (o que corresponde por volta de 1,3 bilhões de toneladas) não é consumida. Além desse número bizarro, estima-se que apenas 25% deste montante já seria suficiente para abastecer a população com fome – o que hoje corresponde uma a cada nove pessoas no mundo.

Estudos e levantamentos recentes mostram que é mentiroso o argumento de que falta área para plantio para atender a demanda da população. O que existe, na verdade é a má distribuição desses alimentos – muitas das vezes em atendimento a falta de lucro por parte dos produtores. A própria Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (ONU/FAO), ao apresentar um estudo em abril de 2016,  refutou esse argumento ao dizer que “a concentração da renda e da produção, falta de vontade política e até mesmo desinformação e consolidação de uma cultura alimentar pouco nutritiva são fatores que compõe o cenário da fome e desnutrição no planeta”. Já abordei esse tema outra vez em Dia do Meio Ambiente deve ser todo dia!

E na tentativa de fazer com que “o povo” acredite nisso, apoiando a mais deterioração ambiental, noticia-se que essas mentiras são verdades. E quando alguém se levanta e mostra/escancara a verdade, tentam menosprezá-los.

Cito novamente a Venezuela como exemplo. A tal crise implantada pela oposição – e atendimento aos interesses estadunidenses – faz girar mundo a fora, com apoio irrestrito da mídia oligárquica, de que falta comida e produtos básicos no país. Sabe-se, porém, que não falta. O que ocorre é o boicote dos empresários que estão estocando tais produtos por conta do preço fixo (e acessível) que o governo bolivariano impôs para que todos tivessem acesso – em resposta às sanções econômicas encabeçadas pelos EUA.

Agora passam a entender que a verdadeira fome e miséria não são “coisas de socialistas/comunistas”, e sim, fruto de interesses capitalistas. Fruto dos detentores dos meios de produção que ignoram o lado humano e olham apenas para seus bolsos.

Com esse tipo de política, que nega políticas públicas como a do “Bolsa Família” – entre tantas outras que permitiram a ascensão das classes menos favorecidas – o Brasil passa a se preocupar novamente com seu rebaixamento à níveis de pobreza e desigualdade. E com isso, tal como uma bola de neve, os índices de criminalidade – que já são assustadoramente altos – aumentarão ainda mais, não apenas pela frustração de não atender ao TER capitalista, mas pura e simplesmente por uma questão de sobrevivência.

Talvez o comportamento de aglomeração das baratas nos sirva de exemplo para que nos unamos como forma de intimidação de nossos verdadeiros predadores, e não esperemos que a fome se faça presente para tomarmos a mesma atitude. Ou nossa unidade se faz presente para nosso benefício, ou seremos facilmente aniquilados por um simples e certeiro pisão.

*Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências, Especialista em Bioecologia e Conservação

Relatório da ONU/FAO: http://www.keepeek.com/Digital-Asset-Management/oecd/urban-rural-and-regional-development/adopting-a-territorial-approach-to-food-security-and-nutrition-policy_9789264257108-en#page1

Estudo da “Nature” sobre alimentação sem produto animal: https://www.nature.com/articles/ncomms11382

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