Obrigado, Darwin!

Por Luiz Fernando Leal Padulla

Fico irritado ao ver pais que para terem sossego e não precisarem educar seus filhos, dão tablets e celulares em suas mãos, em uma espécie de “cala a boca que eu quero fazer minhas coisas”. Ignoram a necessidade real de atenção e cuidado que seus filhos precisam, deixando essa “função” para os jogos e aplicativos.  E o resultado disso vai além de uma criança – filho(a) – quieta, criando uma geração de seres frustrados, sem amor próprio, incapazes de socializar de forma correta.

Para nós, educadores, que estamos diariamente nas salas de aula, muitas das vezes lutando contra esses aparelhos hipnotizantes – sim, nós também somos “vítimas” – os estudos apresentados recentemente pela professora da Universidade Estadual de San Diego, nos Estados Unidos, Jean Twenge, mostrando que os jovens que cresceram na era dos smartphones estão menos preparados para a vida adulta, apenas confirma tudo aquilo que já discutíamos em reuniões pedagógicas.

Como costumamos dizer, os pais dessas crianças estão “criando monstros”, incapazes de lidar com as frustações, e que querem, a qualquer custo, sempre ter a razão – mesmo que para isso tenham que “peitar” a escola e seus docentes.

(Lembro aqui um episódio que ocorreu comigo quando ainda lecionava no Ensino Fundamental: o pai de um aluno, aos berros, nitidamente alterado e raivoso, não admitia a correção que eu havia feito na prova de seu filho. Na questão, duas perguntas diretas: uma que ele acertou, e outra que errou. Mesmo explicando o que o filho do dito cujo havia errado, ele retrucava e dizia “mas se ele respondeu errado uma, é por que ele sabia responder certo a outra”. Isso mesmo que leram! Segundo o tal doutor, ao errar a resposta seu filho teria acertado!)

É uma triste realidade. E acima de tudo, com a culpa e conivência dos progenitores (meros reprodutores, pois tais atitudes não são dignas de qualifica-los como pais – afinal, fazer filho é gostoso, mas cuidar e educar…).

De acordo com a pesquisadora, a tal “geração smartphone” (nascidos após 1995), não só vem amadurecendo mais lentamente, como são menos dispostos a trabalhar, fazer sexo e sair. Para chegar a essas conclusões, entrevistou e avaliou mais de 11 milhões de jovens.

Como reflexo direto deste comportamento, “chegam à universidade e ao mundo do trabalho com menos experiências, mais dependentes e com dificuldade de tomar decisões”.

Paralelamente, essas pessoas tornam-se cada vez mais individualistas, egoístas, incapazes de aceitar – e até mesmo conviver – com seus semelhantes que divirjam em opiniões. E com isso, deixam de crescer pois são igualmente incapazes de dialogar e aprender com as diferenças. E por passarem mais tempos conectados do que com os amigos reais, esses jovens também apresentam problemas em suas habilidades sociais, o que resulta em quadros de altos níveis de ansiedade, depressão e solidão.

(Lembro aqui outro post que escrevi e recomendo a leitura: “A indústria da ansiedade e a depressão”).

Em tempos de um país golpeado e um mundo caóticos, eis que a ciência surge para explicar mais essa anomalia.

O lado positivo desse tipo de comportamento – se é que existe – é que ao mesmo tempo que se entretêm com tais tecnologias e se isolam em seus mundos egocêntricos e fantasiosos, diminui-se também a busca pelo sexo. E pensando cá com meus neurônios darwinianos, vibro com a notícia. Afinal, por seleção natural, esses mesmos genes não serão passados adiante, impedindo a perpetuação de comportamentos bizarros como esse.

E viva la Evolución!

*Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências, Especialista em Bioecologia e Conservação.

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