Aterro sanitário é a solução?

Por Luiz Fernando Leal Padulla*

Recentemente deparamos com a informação de que a prefeitura de Americana faz tratativas para implantar um aterro sanitário na região do pós-represa do Salto Grande. O principal argumento da prefeitura seria a economia e a arrecadação de verba ao receber o lixo de outras cidades. É óbvio que nenhum aterro é visto com bons olhos em nenhum lugar. Menos ainda no local onde estão planejando.

Hoje, a palavra e as ações que devem direcionar qualquer cidade e sociedade é justamente a sustentabilidade. E para que isso seja alcançado, deve-se atentar aos pilares da mesma: o ambiente, a sociedade e o fator econômico.

Há inúmeros fatores a serem levados em consideração para implementar uma obra como essa. A começar dos efeitos negativos que são ocasionados diretamente (contaminação do ar e do solo, riscos às áreas adjacentes, degradação ambiental) e indiretamente (desvalorização das áreas, surgimento de fauna peçonhenta, concentração de aves carniceiras que comprometem o espaço aéreo). Ou seja, o desequilíbrio no tripé da sustentabilidade é evidente. Esses são apenas alguns dos questionamentos – e talvez um biólogo especialista ou engenheiro ambiental sejam as pessoas mais indicadas para salientar os dados mais técnicos.

Mesmo assim, trago alguns dados levantados pelo Inventário Estadual de Resíduos Sólidos Urbanos da CETESB, em 2014, para termos uma ideia do tamanho de nosso problema. Calcula-se que em Americana sejam geradas 203 toneladas/dia de lixo – ou seja, cada habitante seria responsável pela geração de cerca de 1 kg diário desse produto – o que faz de nossa cidade, a 3ª maior geradora de lixo na região metropolitana de Campinas (atrás apenas de Sumaré e Campinas).

Curiosamente, a maior parte do lixo não precisaria ser destinada para os aterros – mas ainda é. Isso porque 32% dele é constituído de material reciclável (26 mil toneladas/ano) e 52% de matéria orgânica (42 mil toneladas/ano). Ou seja, apenas 16% dos resíduos teriam outra composição e necessitaria de um tratamento mais adequado. Com base nesses dados, percebe-se que o volume de lixo pode ser drasticamente reduzido se o mesmo fosse tratado de maneira mais adequada.

Em primeiro lugar, políticas públicas de conscientização e de incentivo à redução dos resíduos, bem como a valorização da reciclagem, fortalecendo cada vez mais as cooperativas e formando cidadãos preocupados com o ambiente. Outra alternativa mais eficiente, sustentável e menos degradante, seria a construção de biodigestores, que utilizariam essa matéria orgânica para geração de energia. Estudos calculam que o processamento de 200 toneladas/dia de resíduos orgânicos pode gerar 2 MW de energia. Óbvio que há um custo na construção e implantação desse tipo de usina, no entanto, é um investimento que trará benefícios a longo prazo – sendo o principal deles, a redução do volume de lixo destinado aos aterros, além da geração de empregos e da própria energia.

Enfim, com base nessas análises, vê-se que mais do que a discussão da construção de um aterro sanitário, devemos discutir e conscientizar sobre o produto final: o lixo. Compete a nossos governantes – e igualmente à nossa sociedade – buscar soluções equilibradas e condizentes com essa realidade. E como se vê, não será através do aterro sanitário que isso será alcançado.

(Artigo publicado na página 15 da edição de Março/2017 do jornal “Recantos da Terra” – disponível: https://issuu.com/recantosdaterra/docs/recantos_da_terra_-_mar__o_issuu)

*Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências, Especialista em Bioecologia e Conservação

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