Os zoos não são lógicos. E o que fazer?

*Por Luiz Fernando Leal Padulla

No último artigo (“Zoo…lógico?”), trouxe algumas informações mostrando que não há lógica alguma em mantermos animais aprisionados sob a falácia das instituições que dizem zelar pela preservação e educação ambiental. Depois de várias pesquisas e trabalhos científicos, fica cada vez mais claro que a manutenção de animais em cativeiro inóspitos, da maneira como são tratados, é altamente prejudicial à sobrevivência dos mesmos, causando danos à saúde – física e mental –, contrariando os tais ideais que os zoológicos dizem defender.

Sendo assim, surge um questionamento pertinente: o que fazer com os animais que já estão lá?

Pois bem. A primeira atitude a ser tomada é o fechamento desses locais – que poderiam muito bem ser chamados de centros de tortura – para a visitação pública. O efeito danoso e muitas vezes irreversível à saúde dos animais é altamente preocupante.

Uma vez realizada essa etapa, urge a ampliação e melhoria dos recintos. Sabemos que apesar de muitas dessas instituições seguirem o protocolo do IBAMA, nem sempre isso condiz com a real necessidade dos seres ali (sobre)viventes.

No Brasil, a Instrução Normativa (IN) nº 7, 30 de Abril de 2015, do IBAMA, apesar de atual, mostra-se inadequada e fora dos padrões indispensáveis ao bem-estar da grande maioria dos animais. Peguemos os grandes primatas por exemplo. Esta exige 60 m2 por grupo familiar, não exige pontos de fuga para privacidade e distanciamento do público de apenas 1,5 m. Seriam essas condições salutares?

Vejamos as condições estipuladas para aves. No caso dos membros de Falconidae (falcões), os recintos são de 2 aves/10m2 e altura de 3m. Qualquer pessoa é capaz de analisar que são recintos que não condizem com a real necessidade de animais cuja característica é o voo. Papagaios (família Psittacidae) também são obrigados a sobreviver em gaiolas que abrigam 2 aves/1m2 – sim, dois seres em um metro quadrado!

Você se imagina sendo um pinguim (família Spheniscidae), que naturalmente nada quilômetros em busca de alimento, sendo obrigado a viver eternamente e dividir um recinto de 8m2 com outro indivíduo? Além disso, troque o gelo e/ou a areia por um piso de cimento liso, e um espelho d’água com 40% da área total do recinto e profundidade mínima de 60 cm. Consegue imaginar ser vivo psicologicamente saudável nessas condições?

Enfim, basta uma consulta à bizarra IN do IBAMA para verificar toda essa barbaridade.

Um fator ainda mais preocupante é que, de acordo com a própria Sociedade de Zoológicos e Aquários do Brasil (SZB), em um censo realizado em 2004, menos de 40% dos zoológicos no Brasil possuem autorização e registro junto ao IBAMA, ou seja, a grande maioria funciona de maneira irregular e fora dessas exigências mínimas. Atualmente, os valores não devem ser mais positivos (tentei novos dados junto ao IBAMA, mas não recebi retorno).

Para os zoológicos, que lucram com a presença do público – para não citar vários casos de tráfico de animais que já foram denunciados em várias dessas instituições–, vale a lei do “quanto menor o espaço, mais animais e, consequentemente, mais visitantes”, pouco se importando com as condições e espaços daqueles seres que estão aprisionados.

Uma vez melhorados os recintos, tais locais poderiam ser transformados em centros de triagem (CETAS) de animais resgatados do tráfico, por exemplo, o que ajudaria muito, dada a superlotação que sofrem esses centros no país.

Outra alternativa viável e eficiente seria transformar esses zoológicos em “santuários”. Para as espécies nativas, paralelamente seriam desenvolvidos estudos e investimentos para a real preservação – o que inclui a preservação dos ambientes e a soltura dos animais. Já para as espécies exóticas, o cuidado perpétuo.

Por fim, seria fundamental que se extinguisse o comércio desses animais – tratados como objetos – reduzindo assim, o tráfico dos mesmos. E para isso se tornar eficiente, somente com a verdadeira educação ambiental, que passa longe de mostrar animais estereotipados, enjaulados, sem qualquer comportamento normal.

São medidas simples, que dependem da boa vontade e empatia dos responsáveis, que deveriam se importar acima de tudo com a qualidade de vida desses animais. E se mesmo assim não estiver convencido de que os zoológicos são ambientes arcaicos e deploráveis, imagine-se no lugar desses macacos, papagaios, ariranhas e tantos outros. Você seria capaz de viver em seus recintos?

*Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências, Especialista em Bioecologia e Conservação

 

Bibliografia

62,5% dos zôos funcionam sem licença. Disponível em:  http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0403200420.htm

Instrução Normativa nº 7, 30 de Abril de 2015 do IBAMA. Disponível em: https://www.legisweb.com.br/legislacao/?id=284592

Artigo publicado na edição de fevereiro do jornal “Recantos da Terra”. Disponível: https://issuu.com/andersonbarbosadasilva/docs/recantos__1_

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