Como será contada essa história?

*Por Luiz Fernando Leal Padulla

Humanos são primatas. E tal como esses animais, nossa principal característica seria a capacidade de viver em sociedade, compartilhando e aceitando ideias diferentes, termos empatia e, acima de tudo, tolerância para uma boa convivência.

No entanto, os tempos atuais mostram uma humanidade totalmente diferente desta teoria. Discursos de ódio, segregadores, egoístas, afloram cada vez mais em nosso meio. Talvez por uma autoproteção de raízes animalescas, liberando o lado primitivo de nossa ancestralidade metazoa? Uma involuação ou simplesmente ignorância?

Infelizmente, grande parte desse comportamento anômalo justifica-se por não aprendermos com nosso passado – ou seja, a falta de educação e dos conhecimentos históricos nos levam a cometer os mesmos erros de outrora. Líderes que se aproveitam da fragilidade social, surgem como promessa de esperança, com ideias mirabolantes, radicais e extremistas, mas que sabemos que não nos levarão a nada! Ou pelo menos deveríamos saber.

Fico imaginando meus amigos historiadores tendo que explicar em sala de aula aos alunos – se isso será permitido daqui alguns anos, é claro! – todos esses acontecimentos movidos a tamanha intolerância. Não me refiro apenas ao retrocesso que o Brasil se meteu com o golpe parlamentar, dando também espaço ao (re)surgimento reacionário de um direita extremista e defensora das atrocidades que nos remetem aos sombrios anos ditatoriais. Na Europa como um todo, e até mesmo nos EUA, ganham cada vez mais espaço esse tipo de voz. Não à toa, Donald Trump, um magnata extremista, misógino, racista foi eleito presidente. É um alerta do que nos aguarda daqui para frente.

geert-wilders
Geert Wilder: intolerância e radicalismo em pessoa.

Candidatos de extrema-direita surgem como “salvação”, dando ares de um falso nacionalismo e egoísmo – empunhando bandeiras como “pátria, Deus e família!”. Recentemente, o líder da extrema-direita da Holanda, Geert Wilders, disse que os marroquinos são “escória” e defendeu que sejam banidos todos os muçulmanos, bem como sejam fechadas todas as mesquitas do país. Em nosso país, o símbolo nazifascista de Bolsonaro prega constantemente a misoginia e até mesmo o armamento da população. Ou seja, o diálogo e a igualdade perdem seus espaços em nossa sociedade, em troca da barbárie.

Como explicar aos alunos a guinada mundial ao extremismo, justamente em um mundo em que se vê cada vez mais a necessidade de sermos solidários, vemos candidatos defenderem o fechamento de fronteiras aos imigrantes que fogem de guerras civis? Como despertar nesses cidadãos o espírito de colaboração e ajuda, quando os exemplos a que são expostos, pregam e defendem exatamente o oposto?

É lamentável que vivamos em uma sociedade cada vez mais perdida de seus valores, e como bem afirma a antropóloga da Unicamp, Adriana Dias, “todos os povos têm certo grau de paranoia. A extrema-direita historicamente se aproveita dessa paranoia para crescer, principalmente se tiver ao seu lado um líder carismático. Essas lideranças têm grande capacidade de se comunicar com a massa, principalmente se a massa estiver ressentida por viver em anos de dificuldade e restrições”. Ainda segundo a pesquisadora, há o ressurgimento de grupos e ideias neonazistas no Brasil por conta da exposição da população a constantes e incessantes discursos autoritários de partidos de extrema-direita e seus representantes, como o Movimento Brasil Livre (MBL).

A intolerância é nossa grande inimiga. Seja em discursos fascistas, seja em atitudes truculentas, racistas e preconceituosas. Mais do que nunca, devemos refletir sobre a questão: o que nos torna humanos?

 

*Biólogo, Professor, Especialista em Bioecologia e Conservação, Mestre em Ciências, Doutor em Etologia.

Anúncios

2 comentários sobre “Como será contada essa história?

  1. Apesar de não ser professora, sou uma pessoa inserida na Escola Pública há 10 anos. Essas questões levantadas aqui eu faço silenciosamente em meu cotidiano. Como ensinar que as aulas de História não são verdades absolutas? Como trocarmos os protagonistas das famigeradas batalhas que decoramos para o vestibular? Como utilizar o conhecimento para exercermos uma cidadania solidária? Na escola onde trabalho a maioria dos alunos são pobres e, obviamente, repercutem o verbo da opressão.

    Vou contar um exemplo simples de como as crianças/adolescentes já estão contaminados pelo discurso da meritocracia, do indivíduo, da vantagem…

    Fizemos uma “festa do cachorro-quente” para arrecadarmos dinheiro para atender alguns gastos na manutenção predial e, como os alunos mais carentes não puderam comprar, paguei o cachorro-quente para alguns. Para a minha terrível surpresa, fui severamente indagada sobre a minha atitude por alunos que chegam à escola diariamente dentro de um ótimo automóvel, tem bons agasalhos, calçados sempre limpos e novos. O grupinho só sabia repetir que eu os “roubei”, pois se eles soubessem que eu ia “dar” cachorro-quente, não teriam comprado.

    Foi desgastante. Foi frustrante. É como se tudo o que os educadores tentam construir, ruísse diante dos meus olhos. Eu só pude dizer que eles também ganharam o cachorro-quente, afinal eles não compraram com o ganho de seu próprio trabalho.

    Enfim, é apenas um exemplo “tolo”, para percebermos que a caminhada para desconstruir esses vícios está muito árdua. Mais difícil que ensinar, é combater os erros que já se sabe.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s