Bactérias intestinais e o cérebro

*Por Luiz Fernando Leal Padulla

Bactérias sempre são associadas à doenças e coisas ruins. No entanto, recentes estudos têm mostrado que o papel desses seres vivos é muito mais importante do que pensamos.

Em maio do ano passado, uma pesquisa desenvolvida em Valência, pelo Consejo Superior de Investigaciones Científicas (CSIC), do projeto europeu chamado “MyNewGut” mostrou que há uma possível e importante influência de microrganismos do intestino no equilíbrio químico de nosso cérebro. Ou seja, seu estado mental pode variar de acordo com as bactérias que habitam seu intestino.

O que se sabia até então, era que essas bactérias tinham efeito direto como causadoras de doenças gastrointestinais e em alguns casos de obesidade. A descoberta da relação com o comportamento cerebral é a novidade.

Estudos mais aprofundados permitirão descobrir as reais influências tanto na saúde física como na psíquica, e com isso a promessa de medicamentos e terapias mais eficientes contra doenças como a depressão, ansiedade e até mesmo o autismo.

Com mais essa descoberta temos, no entanto, uma situação preocupante:  nossos avanços civilizatórios, que incluem dietas e medicamentos, podem ser prejudiciais à nossa sobrevivência. Isso porque os medicamentos que parecem inofensivos, como os antiácidos, e até mesmo aqueles controlados, como antibióticos e antidepressivos, são comprovadamente danosos a microbiota intestinal, causando significativa redução da diversidade desses microrganismos e, consequentemente, afetando seu hospedeiro.

Concomitantemente, outro estudo conduzido com trinta índios yanomamis, isolados da civilização urbana ao sul da Venezuela, mostrou que eles apresentavam uma variabilidade bacteriana duas vezes maior do que indivíduos dos EUA. Para os pesquisadores, ficou bastante claro que quanto mais exposto ao estilo de vida ocidental, maior é a perda da diversidade do chamado microbioma.

Ou seja, o remédio que teoricamente está nos ajudando, nos prejudica em outros aspectos – podendo nos levar inclusive a problemas psicológicos.

(Seria essa uma das razões – junto ao estresse do dia a dia, por exemplo – para o aumento de casos de ansiedade, pânico, depressão em nossa sociedade contemporânea?)

Em tempo 1: O chamado “transplante de fezes”, relativamente novo, vem ganhando espaço entre os médicos e pacientes, principalmente aqueles que sofrem com infecções e inflamações intestinais causadas pela bactéria Clostridium difficile. Apesar de aparentemente bizarro, é um tratamento que apresenta resultados muito positivos, mais eficiente e menos prejudicial do que o uso de antibióticos. O transplante de fezes pode ser feito através de uma sonda nasogástrica ou por colonoscopia.

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Em tempo 2: no Brasil, parece que alguns se confundiram com as pesquisas e, ao invés de colocarem bactérias em seus intestinos para afetarem o comportamento, provavelmente colocaram diretamente as fezes no lugar do cérebro! Ah esses bolsominions e milicos….

*Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências, Especialista em Bioecologia e Conservação

 

Bibliografia

CLEMENTE, J. et al. 2015. The microbiome of uncontacted Amerindians. Science Advances. Vol 1, No. 3. Disponível em: http://advances.sciencemag.org/content/1/3/e1500183.full

Influence of environmental factors on the gut microbiome and its impact on brain development and function. http://www.mynewgut.eu/influence_factors

Influence of lifestyle factors on the gut microbiome and its role in obesity development and metabolic disorders during critical stages of life. http://www.mynewgut.eu/influence_lifestyle

 World’s first population-level microbiome study reveals links between lifestyle and gut flora. http://www.vib.be/en/news/Pages/World%E2%80%99s-first-population-level-microbiome-study-reveals-links-between-lifestyle-and-gut-flora.aspx

 

 

 

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