Zoo…lógico?

Luiz Fernando Leal Padulla – Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências, Especialista em Bioecologia e Conservação*.

Passa ano, entra ano e a pergunta que me faço é a mesma: hoje, em pleno século XXI, qual a real função de um zoológico? No seu início, por volta do século XVI, pessoas com anomalias, índios, aborígenes, negros e animais selvagens eram confinados pelos europeus após suas explorações marítimas. Tudo aquilo que era diferente e bizarro era aprisionado. Com o tempo, os humanos “diferentes” foram libertados dessas jaulas, restando apenas os outros animais, como conhecemos hoje. Com as recentes descobertas da capacidade de inteligência e sentimentos nos demais seres vivos, é inadmissível a permanência de animais trancafiados em ambientes inóspitos, irregulares e precários, que atendem a exploração comercial.

Alguns pontos merecem atenção. Muitas dessas instituições levantam a bandeira da preservação e manutenção das espécies, muitas ameaçadas de extinção. Pois bem. Há, no entanto, alguma política de soltura e reintrodução desses animais no habitat natural? Onde está o real fundamento na preservação e preocupação ambiental? Reproduzir animais a troco de que? Para que sejam usados como moedas de troca e vivam eternamente em recintos minúsculos? Quem ganha e/ou quanto se ganha com isso? Que tipo de educação ambiental é essa, que mostra animais atormentados, depressivos, tristes, e em condições nada naturais?

Que os animais precisam de cuidados e atenção, não há dúvidas. Mas se eles pudessem escolher, já que são sencientes e inteligentes, será que aceitariam viver perpetuamente sob essas condições? Imagine você no lugar daqueles pinguins, que ao invés desfrutarem de um mar aberto, vivem em um tanque onde mal conseguem se locomover; ou dos macacos que não podem caminhar livremente em uma floresta; ou ainda, no lugar das araras e tantos pássaros que não podem exercer o princípio natural de sua existência, o voo. Isso seria viver?

É óbvio que eles não podem nos falar com palavras, mas basta um pouco de sensibilidade e empatia para interpretar os sinais que passam. Olhares tristes, desanimados, depressivos, movimentos e comportamentos estereotipados. Qual é a nossa responsabilidade na causa de desespero e angústia desses animais?

Ainda que se tente negar tudo isso, as necropsias de animais mortos nos zoológicos confirmam o sofrimento. A maioria das mortes causadas é em função de cardiopatia, cuja principal causa é justamente o estresse, seja ele mental ou físico, caracterizando uma importante e ocultada neurocardiologia – o que afeta a cabeça, desencadeia reação direta com o coração. São inúmeros os trabalhos que comprovam o efeito negativo desses cativeiros, com exposição ao assédio público e recintos diminutos. Não há mais como negar.

Em 2011 foi publicado um estudo (“Stress-related cardiomyopathies”, disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3224539/), mostrando o efeito do estresse no organismo humano, o qual podemos extrapolar para demais animais cujo metabolismo e fisiologia são similares. De acordo com as pesquisas, o estresse emocional e físico pode induzir uma excitação do sistema límbico, afetando diretamente a região cerebral da amígdala e do hipocampo, que são as principais áreas relacionadas com a emoção e memória.

Com chimpanzés, nossos irmãos mais próximos, os dados são igualmente preocupantes. Clarke et a.l (1982), Chamove et al. (1988) e Birke (2001) comprovaram que a presença e o assédio do público desencadeiam reações danosas que reprimem as afinidades e aumentam as manifestações de agressividade entre os primatas. A visitação pública, maior nos finais de semana, foi proporcional aos índices de ferimentos causados em grupos de chimpanzés, conforme levantamentos feitos por Lambeth et al. (1998). Chamove et al. (2005) comprovaram que os primatas, apresentam maior irritação e estereotipias quando expostos ao público, comprovando ser este um fator de estresse.

Com orangotangos no zoológico de Chester, no Reino Unido, Cook & Hosey (2005) confirmaram que recintos sem estrutura suficiente para a preservação e privacidade dos mesmos gera um potencial a mais de estresse. Resultado parecido foi obtido por Wells (2005), que observou a influência negativa da presença de pessoas no comportamento dos gorilas. Estudo realizado no Brasil por Pizzutto (2006) analisando a produção hormonal de chimpanzés, mostra alta presença de cortisol (hormônio do estresse) nesses animais nos zoológicos.

Além disso, de todos os animais que são reproduzidos em cativeiro, quantos são reintroduzidos? Qual a lógica de se aprisionar e mantê-los trancafiados? De acordo com a International Union for the Conservation of Nature and Natural Resources (IUCN), dos projetos existentes de reintrodução de animais na natureza, os vertebrados correspondem a apenas 4% das espécies.

Enquanto mantivermos esses seres inocentes presos, sem qualquer atenção e cuidado com sua saúde, seguiremos tendo essas instituições como meros centros de lazer e exposição ao público, cuja ideia de preservação e conservação das espécies não passa de demagogia. E nossa omissão e posicionamento perante tais condições – o que inclui nossa visitação – nos torna cúmplices dessa barbárie.

*Artigo originalmente publicado no jornal “Recantos da Terra“, Dezembro/2016. Disponível em: https://issuu.com/recantosdaterra/docs/recantos_da_terra_issuu__5_

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