Pelo fim dos fogos de artifício!

*Por Luiz Fernando Leal Padulla

O fim do ano passou, e com ele, o tormento dos fogos de artifício. Quem tem animais em casa, sabe como é complicada essa época do ano.

Infelizmente, rojões, morteiros e todo tipo de fogos com estampido são rotineiramente utilizados em nossa sociedade – seja em dias de jogos, festas juninas e comemorações diversas. Os usuários destes artefatos, no entanto, que se dão ao trabalho de gastar seu dinheiro comprando tais produtos, pouco se importam com o sossego e o respeito ao próximo.

Muitas cidades já votam leis que proíbam essa prática bizarra e arcaica de se comemorar algo com barulho que ultrajam o respeito ao próximo. Uma alternativa mais urgente e necessária frente a falta de educação dessa gente.

Não é difícil encontrar pessoas conscientes contrárias a esse tipo de comportamento. E a justificativa se dá pelos transtornos diretos ou indiretos que os mesmos causam.

Os transtornos vão desde acidentes, que causam mutilações que acarretam indenizações e até afastamento/aposentadorias por invalidez – e até mesmo a morte de pessoa. Segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão (SBCM), mais de 70% dos casos de queimaduras são decorrentes de artefatos pirotécnicos, onde 10% das vítimas sofrem amputações.

Impossível não pontuar igualmente as perturbações causadas em bebês, idosos, doentes e portadores de deficiências psíquicas. Vê-se, assim, que a proibição desses materiais vai além do barulho, envolvendo a questão de saúde pública.

Isso sem falar dos danos causados aos animais – domésticos ou não.

Que o barulho dos fogos é ensurdecedor e incômodo para todos nós, ninguém duvida. Agora, imaginem para os demais animais, cuja audição é ainda maior. É sabido, por exemplo, que os cães são altamente sensíveis aos estrondos – o que justifica o temor e o pânico que os acomete. Mas não são os únicos. Gatos, pássaros, coelhos e tantos outros animais sofrem com o mesmo problema.

E não é algo momentâneo, como alguns que ainda defendem essa prática rudimentar podem dizer. São inúmeros os casos de fugas, danos permanentes e até mortes por ataque cardíaco que os animais sofrem ao ouvirem e se assustarem.

Pássaros, ao se apavorarem na escuridão da noite, alçam voos desesperados e letais ao se colidirem contra muros, prédios e árvores. Muitos filhotes também são abandonados nos ninhos.

Vários estudos científicos mostram que barulhos e ruídos provocam distúrbios gastrointestinas, distúrbios relacionados ao sistema nervoso (irritabilidade, nervosismo, vertigens), acelera o pulso, eleva a pressão arterial, contrai vasos sanguíneos. Todas essas ações acabam por desencadear reações adversas ao bom funcionamento do sistema nervoso, endócrino e cardiovascular, tanto em humanos como em outros animais.

Trabalho de SANTOS et al. (1992), por exemplo, compra que barulhos causam o aumento da irritabilidade, ansiedade, náuseas, insônia, fadiga e cansaço, além da perda de apetite, diminuição da atividade sexual e o surgimento de estados pré-neuróticos.

Acho que contra esses fatos, não há o que se argumentar contra.

Um argumento, no entanto, que tentam levantar é a geração de empregos e a renda das famílias que vivem da produção desses fogos – o Brasil é o segundo maior produtor mundial de fogos de artifício, atrás apenas da China.

Sinceramente, para mim isso não serve de desculpa. Muitas coisas do passado também já foram vistas como fonte de renda e emprego, mas a partir do momento que a sociedade se torna consciente de seus danos e da necessidade de mudanças, passa a ser abolida e/ou modificada – basta lembrar, por exemplo, o velho entregador de leite, que ia de casa em casa, vendendo leite em sua carroça, sem qualquer cuidado de higiene, até surgir o processo de preservação e manutenção da qualidade do leite.

Além disso, se realmente houver necessidade de literalmente queimar dinheiro, existe a possibilidade de uma reestruturação dessas empresas para a confecção de fogos de artifícios silenciosos.

Pensando no mercado de pets e nas pessoas que zelam por eles, o Brasil possui a segunda maior população do mundo – sendo mais de 53 milhões de cachorros e 22 milhões de gatos, sem contar demais animais – o que em cifras, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet), representou um incremento de mais de R$ 19 bilhões – e milhares de empregos.

Ou seja, em termos econômicos, a rentabilidade é muito maior no cuidado com os animais, do que a diversão barulhenta de alguns.

Mais do que uma mera lei, as cidades que aprovarem essa importante resolução, devem também torná-las executáveis. Afinal, de nada adiantará mais uma lei, se os culpados não forem punidos.

Em tempo: Em pleno século XXI, é inadmissível que tais práticas ultrapassadas, ainda sejam encaradas como diversão e entretenimento. O mesmo tipo de reflexão pode – e deve! – ser feita para outras práticas, como “festa do peão”, vaquejada e tantas mais.

*Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências, Especialista em Bioecologia e Conservação

 

Bibliografia:

PIMENTEL-SOUZA, F. A poluição sonora ataca traiçoeiramente o corpo. Apostila “Meio Ambiente em Diversos Enfoques”, “Projeto Jambreiro”. Associação Mineira de Defesa do Meio Ambiente (AMDA), Secretaria Municipal do Meio Ambiente, Secretaria Municipal da Educação, BH, p24-26. 1992.

SANTOS, M.F.C.; BETHANCOURT, M.L.B.T.; TEDESCO, M.L.F. 1992. Prevenção de problemas auditivos numa indústria. Hosp. Adm. Saúde, 16(3): 137-139.

SLABBEKOORN, H.; RIPMEESTER, E.A.P. 2008. Birdsong and anthropogenic noise: implications and applications for conservation. Molecular Ecology, 17: 72–83.

URAN, S.L.; AON-BERTOLINO, M.L.; CACERES, L.G.; CAPANI, F.; GUELMAN, L.R. 2012. Rat hippocampal alterations could underlie behavioral abnormalities induced by exposure to moderate noise levels. Brain Research, 1471:1-12.

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