Hasta Siempre, Comandante!

*Por Luiz Fernando Leal Padulla

 

Queria ter escrito esse texto do dia 26 de novembro. Até o rascunhei, mas não consegui ir muito além.

Na manhã daquele sábado, onde tudo parecia calmo e tranquilo, recebo a mensagem no celular: Fidel morreu. Um choque para mim. Fiquei sem reação por alguns instantes. Tive vontade de chorar. Mas não chorei. Como dizem os fidelistas, “os revolucionários em geral, são pessoas racionais; não lutam contra a natureza das coisas”.

Sim, ninguém é eterno. Mas alguns deveriam ser. Fidel era um deles.

Ao longo de meus 35 anos, já vivi grandes perdas. Desde parentes queridos, até líderes que admirava. Não foi fácil. Cada perda, parece que um pedaço de nós se vai; uma ferida se abre, sangra e não parece parar. O mundo desaba; o chão se abre.

 

Uma frase vem à cabeça: “e agora? ”

Quando Chávez morreu, senti dor igual. Ele era a força na América Latina. Sem Chávez, a unidade latina foi se esmorecendo e perdendo força. A voz do cone sul sumia. Sozinhos, Mujica e Lula não conseguiam fazer grandes coisas pela unidade sul-americana. Mas assim foi.

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Fidel com Osvaldo Dorticós, Che e Camilo Cienfuegos (último à direita) durante o funeral das vítimas do La Coubre, em março de 1960.

Fidel, assim como Che e Cinfuegos, era o mártir vivo da resistência e determinação de um povo frente ao imperialismo. Uma força revolucionária que deu certo.

Há sim dualidade sobre Fidel. No entanto, aqueles que o criticam, ignoram as conquistas que tivera para Cuba e pretendiam expandir para tantos outros países massacrados pelos interesses imperialistas.

Esquecem também que, mesmo sob a ação desumana das sanções econômicas e embargos comerciais impostas pelos EUA, justamente com o objetivo de asfixiar a ilha e assim provar ao mundo que “o socialismo não funciona”, Cuba foi forte e superou tudo isso. Mesmo após o desmanche da URSS, Cuba persistiu e venceu.

Não conheço pessoalmente a ilha – é um de meus objetivos de vida um dia pisar neste território – e muito menos tive o privilégio de conhecer Fidel. Contudo, conheci pessoas que lá estiveram e até mesmo certo contato com ele tiveram. E o mais importante, sempre busquei informações isentas de interesses ocultos.

(Sugiro, por exemplo, a leitura do livro “A ilha”, de Fernando Morais).

É inegável que a grande maioria das vezes, as críticas prevaleçam sobre o regime cubano. Basta uma breve busca na internet e constataremos tendenciosas matérias. E isso sempre me intrigou.

No dia de sua partida, aproveitando a cobertura dos canais de TV, assisti um trecho de uma entrevista da dissidente cubana, Yoani Sánchez, crítica ferrenha da família Castro. Uma pergunta e sua resposta em específico, não poderiam passar em branco: “se houvesse uma eleição livre em Cuba hoje, você acha que um partido democrático clássico venceria o partido comunista? ”. Sua resposta mostrou a incoerência de suas críticas: “se fosse hoje, possivelmente não”. Ora, se o regime cubano é tão ruim assim, como tentam demonizar, por que a população escolheria permanecer no mesmo, não é?

Percebe-se, portanto, como há ainda uma propaganda negativa sobre o regime socialista e, principalmente, a manipulação das pessoas que, desinformadas, repetem retóricas vazias sem um mínimo de conhecimento.

(Cabe aqui um parêntese: um dos principais “argumentos” que ouvimos de pessoas críticas ao regime socialista cubano está em torno dos bens materiais e do consumismo, em clara demonstração da inversão de valores e da ganância humana; para pessoas doutrinadas pelo regime capitalista, o “ter” sempre falará mais alto do que o “ser”. É isso o que queremos? O próprio planeta já dá sinais de que devemos rever nossos hábitos).

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Fidel não foi um ditador como a mídia capitalista e capitalizada por interesses tenta vender. Fidel foi um governante, um estadista, um líder mundial que sofreu várias agressões, mas que obstinado, lutou sempre por uma sociedade latino-americana menos injusta. Fidel foi, acima de tudo, humano.

“El Comandante” gerou tamanho ódio porque mostrou-se ser um verdadeiro Davi contra um gigantesco e poderoso Golias. Enfrentou os EUA sem jamais se curvar, e exigindo respeito. Sua determinação deu resultado, e a pequena ilha tornou-se grandiosa: país exemplar na educação, medicina, moradia, esporte e igualdade social. Como disse certa vez em um de seus antológicos discursos, o futuro é um “mundo globalizado, mas verdadeiramente justo, solidário e pacífico. Esse dia, devemos ganha-lo lutando”.

Fidel se foi. Fidel morreu.Uma morte que não significa quase nada, pois o físico se foi, mas seu legado, seus ideais e pensamentos permanecerão para toda a eternidade. Uma morte que superou 637 atentados ao longo de seus 90 anos, e veio serena, em casa.

Fidel era tão grandioso e comprometido com seu país, com a igualdade entre os povos, que seu desejo foi ser cremado. Para ele, não era seu corpo que deveria ser cultuado e venerado, e sim seus ideais; a lembrança que deve ser mantida, a chama que jamais poderá se apagar.

Sendo assim, Comandante, seu espírito incansável estará sempre entre nós.

Gracias, Fidel! Hasta siempre, Comandante!

 

*Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências, Especialista em Bioecologia e Conservação

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