Mentiras que os zoológicos contam

*Por Luiz Fernando Leal Padulla

Não surpreendeu o laudo da necropsia da girafa “Sininho”, assassinada – sim, assassinada! – no Parque Ecológico de Americana, aos 15 anos de idade. Esse mesmo animal, que foi sequestrado de sua mãe com 1 ano de idade, era obrigado a sobreviver em um recinto diminuto, totalmente aquém das necessidades naturais que lhe permitiriam viver em grupos e caminhar vários quilômetros por dia. Uma vida que duraria em média 26 anos, foi ceifada e encurtada pela estupidez humana.

Sua causa mortis apontada foi um colapso cardiorrespiratório. No entanto, uma pergunta deve ser feita: o que causou esse colapso?

Um mero problema cardíaco? Seria esse problema cardíaco fruto de um endocruzamento entre indivíduos usados como matrizes de reprodução para abastecer esse mercado de compra de animais? Ou talvez um problema cardíaco causado pela depressão?

girafa

Cardiopatia, por sinal, é uma desculpa habitualmente usada pelos zoológicos para tentar atenuar e justificar as constantes mortes dos animais – faça uma busca em noticiários e constatará isso. O que evitam falar, no entanto, é o que pode causar esse problema: o estresse.

Cada vez mais comprova-se que a cardiomiopatia pode ser ocasionada pelo estresse, seja ele mental ou físico agudo, caracterizando uma importante e ocultada neurocardiologia – o que afeta a cabeça, desencadeia reação direta com o coração.

Em 2011 foi publicado um estudo (“Stress-related cardiomyopathies”, disponível aqui: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3224539/), que mostra o efeito do estresse no organismo humano, o qual podemos extrapolar para demais animais, cujo metabolismo e fisiologia são similares. De acordo com as pesquisas, o estresse emocional e físico pode induzir uma excitação do sistema límbico, afetando diretamente a região cerebral da amígdala e do hipocampo, que são as principais áreas relacionadas com a emoção e memória.

São inúmeros os trabalhos que comprovam o efeito negativo desses cativeiros, com exposição ao assédio público e recintos diminutos. Mas tais “experts” e falsos defensores da vida animal, insistem em omitir e negar. Preferem dizer que foi “causa natural”, a “idade avançada” e tantas outras desculpas.

Com chimpanzés, nossos irmãos mais próximos, os dados são igualmente preocupantes. Clarke et al (1982), Chamove et al (1988) e Birke (2001) comprovaram que a presença e o assédio do público desencadeiam reações danosas que reprimem as afinidades e aumentam as manifestações de agressividade entre os primatas. A visitação pública, maior nos finais de semana, foi proporcional aos índices de ferimentos causados em grupos de chimpanzés, conforme levantamentos feios por Lambeth et al. (1998). Chamove et al. (2005) comprovaram que os primatas, quando expostos ao público, apresentam maior irritação e estereotipias, comprovando que o público é um fator de excitação estressante.

Com orangotangos no zoológico de Chester, no Reino Unido, Cook & Hosey (2005) confirmaram que recintos sem estrutura suficiente para a preservação e privacidade dos mesmos gera um potencial a mais de estresse. Resultado parecido foi obtido por Wells (2005), que observou a influência negativa da presença de pessoas no comportamento dos gorilas. Estudos realizados no Brasil por Pizzutto (2006) analisando a produção hormonal de chimpanzés, mostra alta presença de cortisol (hormônio do estresse) nesses animais nos zoológicos.

Assim sendo, por mais que tentem encontrar um argumento justificável para sua morte, é inegável que o tal colapso respiratório não foi uma simples patologia que acometeu esse pobre animal. Foi algo que poderia ter sido evitado. Afinal, qual a chance de ter uma vida saudável sendo tirada da companhia de sua mãe, logo com 1 ano de idade, para (sobre)viver de maneira solitária em um minúsculo recinto?

Faço o breve convite de um rápido e prático exercício: coloque-se no lugar desta girafa e de tantos outros seres inocentes que estão presos em suas jaulas/recintos. Você se imagina feliz sob essas condições?

Negar que o psicológico doente causa doenças – psicossomáticas – é assinar um atestado de ignorância e estupidez. A própria direção do local, ao afirmar que é uma espécie de difícil manejo em cativeiro, não leva em consideração qualquer tipo de respeito ao ser vivo. Afinal, prezam muito mais a atração e exposição, do que a vida deste animal e sua senciência. Para eles, não é um ser vivo, é uma “coisa”.

Pessoas que defendem esse tipo de aprisionamento, deveriam ser responsabilizadas pelas inúmeras mortes desses animais – muitas das quais passam despercebidas e incrementam estatísticas nem sempre divulgadas para o conhecimento da população. Não apenas serem responsabilizadas, mas responderem por homicídio doloso.

É repugnante que esse tipo de gente, com todo falso moralismo cabível, tente ainda defender esses centros de tortura sob argumentações mentirosas e demagogas. Se fossem realmente preocupados com o bem-estar animal, ou com a preservação das espécies, investiriam tempo e dinheiro na preservação dos habitas naturais, assim como promoveriam a reintrodução desses no ambiente.

Mas o que fazem? Reproduzem, “trocam” como se fossem meros objetos (quando não vendem!), desrespeitando qualquer vínculo familiar e os mantem em condições altamente prejudiciais. De todos os animais que são reproduzidos em cativeiro, quantos são reintroduzidos? Qual a lógica de se aprisionar e mantê-los trancafiados?

Que tipo de educação ambiental é essa, que mostra animais atormentados, depressivos, tristes, e em condições nada naturais?

Até quando seremos cúmplices desse absurdo?

A mudança começa com cada um de nós.

Boicote, não visite esses centros de tortura. Incentive que novas pessoas adotem essa medida racional e humana, afinal, se os zoológicos ainda existem, a culpa também é nossa que ainda insistimos em achar que animais são objetos de exposição e entretenimento.

Nossa omissão e posicionamento perante tais mortes, nos tornarão sempre cúmplices desses crimes.

Diga não aos zoológicos!

*Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências, Especialista em Bioecologia e Conservação

 

Referências citadas:

BIRKE, L. 2001. Effects of human visitors on the behaviour of captive orangutans. Disponível em: <http://www.psgb.org/Meetings/Spring2001.html&gt;. Acesso em: 20 fev. 2008.

CLARKE, A.S.; JUNO, C.J.; MAPLE, T.L. Behavioral effects of a change in the physical environment: a pilot study of captive chimpanzees. Zoo Biology, 1: 371-380. 1982.

CHAMOVE, A.S.; HOSEY, G.R.; SCHAETZEL, P. Visitors excite primates in zoos. Zoo Biology, 7 (4): 359-369. 2005

COOK, S.; HOSEY, G.R. Interaction sequences between chimpanzees and human visitors at the Zoo. Applied Animal Behaviour Science, 93 (1-2): 13-17. 2005.

LAMBETH, S.P.; BLOOMSMITH, M.A.; ALFORD, P.L. Effects of human activity on chimpanzee wounding. Zoo Biology, 16 (4): 327-333. 1998.

PIZZUTTO, C.S. Estudo sobre a influência das técnicas de enriquecimento ambiental nos parâmetros endócrino-comportamentais de antropóides não-humanos mantidos em cativeiro. 344p. 2006. Tese (Doutorado em Reprodução Animal) – Universidade de São Paulo, USP: São Paulo.

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