Das bizarrices da Guerra Fria aos avanços da medicina

*Por Luiz Fernando Leal Padulla

Alguns dias atrás, fui indagado por um aluno sobre o que eu achava do possível transplante de cabeça que estaria para acontecer agora em 2017, conforme alguns meios de comunicação noticiaram.

Não havia me aprofundado no assunto, até por não saber ao certo como tal feito – inédito – seria realizado. No entanto, mais perguntas foram surgindo à medida que caminhávamos em nossa análise em sala de aula para possíveis consequências.

Na época da ascensão (e queda!) do regime nazista, muito se falou também sobre tais experimentações envolvendo cães e até humanos, com destaque aos trabalhos nada éticos e muito menos humanos, do médico argentino Josef Mengele, conhecido como “Anjo da Morte”. Seria lenda ou não?

Em contrapartida, em 1954, na antiga União Soviética, Vladimir Demikhov apresentou ao mundo seu experimento bizarro: um cachorro de duas cabeças, criado artificialmente – alegava que tais testes tinham como objetivo o estudo para possíveis transplantes de coração e pulmão em humanos. Antes dele, em 1928, outro médico soviético, Sergei Brukhonenko, manteve apenas a cabeça de um cachorro viva ao conectá-la a uma máquina que exercia as funções do coração e do pulmão.

 

vladimir-demikhov
Dr. Demikhov e seus cães com duas cabeças.

(Veja o vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=ap1co5ZZHYE e https://www.youtube.com/watch?v=Lruk0r0JD0Y)

Todas essas experiências – que eu particularmente condeno! – só aconteceram por conta da Guerra Fria e a bipolaridade mundial: se a URSS conseguia tais feitos, os EUA queriam ir além.

O fato é que nada disso teve fim com a queda do muro de Berlim e o desmonte da URSS. É um assunto que ainda chama a atenção e desperta o imaginário de qualquer um.

Na China, em 2015,  experimentos de regeneração medular utilizando uma substância chamada PEG (polietilenoglicol), que teria a capacidade de estimular a proliferação das células nervosas, foram realizados pelo Dr. Xiaoping Ren em ratos. Nesses roedores, que tiveram suas medulas espinhas cortadas e ligadas novamente, observou-se a regeneração medular, permitindo o mover das patas.

(Veja o vídeo: https://youtu.be/yevlIEmW6hw)

E eis que o cientista italiano Sergio Canavero reacende o assunto ao divulgar que realizou com sucesso o transplante total de cabeça em um macaco. Seu objetivo agora vai além: promete para o ano que vem, a experimentação em humanos. E para isso já tem seu paciente-cobaia: o russo Valery Spiridonov, que sofre da síndrome de Werdnig-Hoffmann, que deteriora e atrofia os músculos do corpo.

Assumindo os próprios riscos, é difícil para nós julgarmos a escolha de Spiridonov. Será que em seu lugar tomaríamos a mesma atitude?

Como disse, há mais dúvidas do que respostas. E talvez uma das principais é: até que ponto isso é válido e pode ser considerado ético?

Em um futuro não tão longínquo, talvez tenhamos essas respostas.

*Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências, Especialista em Bioecologia e Conservação

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