Mariana: um ano depois

*Por Luiz Fernando Leal Padulla

Após o rompimento das duas barragens, de Fundão e Santarém, que retinham rejeitos de minério de ferro, foram varridas ao longo do Rio Doce toda uma diversidade. 55 milhões de metros cúbicos que arrastaram histórias. Vidas humanas foram soterradas, assim como tantos outros animais e uma infinita variedade de vegetais. Matas ciliares foram devastadas pelos sedimentos com parcela significativa de sílica e tantos outros contaminantes, o que impedirá um renascimento a curto prazo – e quem sabe quanto tempo levará a longo prazo…

Dia 5 de novembro completa-se um ano do maior acidente ambiental em nosso país. E o que foi feito de lá para cá? Quase nada!

Logo nos primeiros dias, tomados pelo alarde midiático e a comoção social, Ministério Público, órgãos fiscalizadores, governos municipal, estadual e federal anunciaram que iram tomar todas as providências para solucionar o problema. No entanto, cada um falou sua própria linguagem e praticamente nenhuma atitude concreta foi tomada.

Muitas cifras foram e ainda são aventadas. Estipularam-se multas milionárias e até indenizações bilionárias. Contudo, entre a teoria e a prática, há uma enorme distância – principalmente quando se envolvem interesses financeiros de grandes empresas particulares, cujo pensamento é único e exclusivo no lucro.

Mais do que o dano econômico e o reparo financeiro, muitos se esqueceram de analisar os impactos sob a ótica da sustentabilidade e seus três pilares fundamentais: ambiental, social e econômico.

Lembremos aqui que à época, a empresa Samarco dizia que os níveis de metais contaminantes estavam dentro dos padrões estipulados. No entanto, laudos independentes, como o apresentado pelo Grupo Independente de Análise de Impacto Ambiental (GIAIA), mostravam outra verdade: excesso de manganês, arsênio e chumbo. Análises paralelas feitas por pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) e Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), também apontavam esse conflito de informações. Quem estava certo?

No Rio Doce, cerca de 80 espécies habitavam sua bacia antes do desastre, sendo que 11 eram apontadas como ameaçadas de extinção e 12 eram endêmicas do rio. De imediato, a turbidez das águas reduziu a demanda de oxigênio dissolvido, causando a mortandade de animais aquáticos. A longo prazo, vários efeitos.

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Crédito: Christophe Simon/AFP

Os elevados índices de ferro, que inviabilizam o tratamento, assim como a presença de metais pesados como o mercúrio, projetam um futuro preocupante. Efeitos de biomagnificação nas cadeias alimentares destes locais afetados, não estão descartados. Danos que afetam o sistema nervoso dos animais, até o sistema imunológico.

No aspecto social e econômico, não se deve analisar apenas a destruição de cidades e vilarejos, mas igualmente a contaminação da água, cujo tempo de recuperação é indeterminado, igualmente as providência e punição dos culpados. Ao todo, 39 municípios foram afetados pela passagem da lama até chegar ao litoral do Espírito Santo. Milhares de famílias e pessoas envolvidas.

Economicamente, é importante ressaltar que essa atividade de mineração era responsável por 80% da arrecadação fiscal da cidade de Mariana. Muitas famílias também dependiam de suas pequenas produções rurais e criações animais para consumo próprio e comércio local. Depois do ocorrido, agricultores não terão suas terras férteis novamente. A carência de material orgânico, associado ao excesso desses minerais, impede qualquer nascimento vegetal.

A Samarco Mineração é propriedade da brasileira Vale e da anglo-australiana BHP Billiton, as duas maiores empresas mineradoras do mundo. Ou seja, pela lógica capitalista, dinheiro para investir na prevenção e medidas contra esse tipo de desastre é o que não lhes faltava. Mas não se preocuparam com isso.

Um acidente que poderia sim ter sido evitado, caso os órgãos (in)competentes atuassem de forma correta e realmente fiscalizassem e cobrassem tais comprometimentos. Afinal, as barragens que se romperam foram beneficiadas por vistas grossas dos governos do PSDB à época (sob o governo de Aécio Neves e Anastasia), o que permitiu que fossem burladas as leis de exigências ambientais.

(Isso tudo, obviamente, sem levar em consideração a afronta ao país com a prática das privatizações criminosas realizadas pelo também tucano e ex-presidente, Fernando Henrique Cardoso. Para refrescar nossa memória, e até mesmo para que sirva de alerta sobre o que estão fazendo com nosso Pré-Sal, lembremos que a Vale do Rio Doce foi privatizada em 1997 por uma quantia mísera de pouco mais de R$ 3 bilhões de reais, enquanto seu real valor de mercado era calculado em mais de R$ 92 bilhões com toda sua reserva. Privatizações que são verdadeiros crimes de lesa-pátria).

Como bem definiu o professor da UNICAMP, Wilson de Figueiredo Jardim, “nestas regiões [de mineração] a riqueza é para poucos, enquanto que a degradação ambiental é democratizada”. Definitivamente, o que aconteceu em Mariana, não foi acidente. Foi um crime. Um crime que completa um ano de impunidade!

 

*Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências, Especialista em Bioecologia e Conservação

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