Por que ser contra a reestruturação do Ensino Médio?

*Por Luiz Fernando Leal Padulla

Muitos me questionam se sou a favor à reestruturação do Ensino Médio, proposto pelo ministro do governo golpista de Michel Temer – cujo argumento é o de reduzir a elevada evasão escolar, aumentando a qualidade nessa etapa da Educação Básica. A análise que faço aqui não é a partir da crítica ao fato de ser um ministério ilegítimo, mas da maneira como foi imposto, sem as devidas considerações.

(As ideias foram aventadas durante a presidência legítima de Dilma, é verdade. Mas as mesmas seriam apresentadas à sociedade, aos professores e demais envolvidos antes de qualquer atitude de imposição, tal como prevê a Medida Provisória).

Ao ler as propostas do “ministro” Mendonça Filho, não pude deixar de lembrar de uma aula que lecionava na faculdade durante a disciplina “Fundamentos e Metodologias de Ciências” para o curso de Pedagogia. Na ocasião, o livro trazia um texto e um quadro que mostrava a “evolução da situação mundial e do ensino de Ciências”. Era nítida a preocupação de uma concepção neutra, ou no máximo, com um pensamento lógico, visando única e exclusivamente a formação do cidadão-trabalhador. Isso era o ideal do ensino nas décadas de 60/70 – modelo similar ao período da Ditadura Militar. E acreditem, é a “nova” proposta deste (des)governo.

Só quem é educador, e que vive a realidade de uma sala de aula sabe o que funciona e o que não funciona. Pois bem. Comecemos pela extinção de disciplinas – sim, serão extintas; a “não obrigatoriedade” é apenas um eufemismo.

Qual a importância das disciplinas de Artes, Sociologia, Filosofia e Educação Física aos alunos do Ensino Médio?

Nossa sociedade está cada vez mais intolerante e egoísta. Isso é fato. Nas aulas de Educação Física, por exemplo, alunxs têm a oportunidade de exercer atividades coletivas, valorizando a participação e solidariedade. Paralelamente, em jogos, aprendem a perder e lidar com as frustações. Isso é a base de qualquer sociedade. Sem as vitórias e as derrotas, uma sociedade não se faz por si só.

Outro ponto a ser considerado para a manutenção desta disciplina seria a possibilidade de contato com os esportes e a prática de atividades físicas, aspecto fundamental para a própria saúde dos adolescentes, que a cada dia são inseridos em índices de sobrepeso justamente pelos maus hábitos alimentares e a falta de exercícios. Passam assim, a integrar a lista de novos doentes vítimas de sedentarismo. Portanto, essa disciplina é também uma questão de saúde pública.

E o que dizer da importância social dessas aulas? São vários os exemplos de jovens que, com a prática e o estímulo das atividades físicas, não seguiram para o caminho das drogas e dos delitos. Peguemos alguns exemplos recentes de nossos heróis olímpicos.

Já as disciplinas de Sociologia e Filosofia, até entendo o interesse dos golpistas com sua extinção: evitar a formação de cidadãos pensantes e críticos. Afinal, quanto menos questionadores, mais facilmente serão manobrados pela mídia manipuladora, de acordo com os interesses políticos.

A disciplina de Artes é outro aspecto a ser lamentado caso tenha a aprovação pelos parlamentares. E é fácil entender isso. Basta olhar para o pouco caso de se faz em relação ao patrimônio histórico nacional – sob a tutela do famigerado IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Lembram-se do que fizeram com a marquise do antigo Maracanã para a construção do “Novo maracanã”? Tais obras descaracterizam totalmente a estrutura daquele que já foi o maior estádio do mundo, palco de final da Copa de 50, de shows como Frank Sinatra, e até mesmo as visitas de João Paulo II. Isso sem citar inúmeras outras estruturas históricas que são negligenciadas em nosso país. Justamente por falta de conhecimento!

Concordo que uma única aula semanal dessas disciplinas seja insuficiente, mas já é o início. Talvez, ao invés de propor sua “não obrigatoriedade”, seria mais importante e producente aumentar a carga horária dessas disciplinas.

Mais do que esses pontos aqui levantados, não posso deixar de salientar um perigoso item a ser aprovado: a possibilidade de contratação de professores sem a devida habilitação profissional para as disciplinas que ministram! Sim. Isso está na proposta. Imaginou-se indo a um médico que não é formado, mas sim um “profissional de notório saber”?

Assim, tal proposta de reestruturação é claro – e objetivo – retrocesso à educação brasileira.

Em tempo1: aos nobres colegas de profissão, que destilaram seu ódio e sua irracionalidade ao defender o “Fora Dilma” e a farsa do impeachment, servindo como massa de manobra, lembro da frase de meu amigo Vinícius Ghizini: “fique tranquilo, amigo. Solidariedade é uma virtude da esquerda. Lutaremos por você!”

Em tempo2: os desencontros de informações e possíveis alterações no texto, ainda estão pipocando pelos noticiários. Que não seja apenas mais uma demonstração do despreparo desse governo golpista, mas que de fato perceba a barbaridade da proposta.

 

*Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências, Especialista em Bioecologia e Conservação

 

 

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4 comentários sobre “Por que ser contra a reestruturação do Ensino Médio?

  1. Ao menos um artigo portentoso! Concordo inteiramente com a sua opinião. Permitir que um “profissional de notório saber” exerça a função de pessoas que realmente são profissionais capacitados da área é algo inaceitável; Como estudante de Jornalismo passo pela mesma situação, como todos sabem e poucos discutem, não é preciso um diploma para ser um profissional que além de trazer informação a sociedade também forma a opinião das mesmas.
    Um professor não apenas um ditador de apostilas, é o mestre do conhecimento, do que tem nas apostilas e também do que a vida lhes ensina, ser um professor é fazer o bem para humanidade, é fazer a diferença, construir e instruir as novas gerações, indicar o melhor caminho. É formar o ser humano! Coloco como exemplo o privilégio de ser educada por um profissional como o Luiz Fernando, levo o aprendizado para o resto da minha vida e acredito não ser a unica.

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  2. Além da forma atabalhoada de se apresentar a proposta, algo que me incomodou foi a impressão de as decisões dessa reforma são chutes. Até o momento não vi nada próximo a P&D para sustentar as medidas propostas. Para fazer um contraponto, o Porvir publicou umas idéias interessantes e ainda desmistificou algumas idéias (como a remuneração por desempenho ou mais horas de aula) que, por coincidência, propostas dentro dessa reforma. http://porvir.org/6-medidas-de-baixo-impacto-6-solucoes-para-educacao/20150716/

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