Sábado de Estado Islâmico

* Por Luiz Fernando Leal Padulla

No último dia 20 de agosto estive em Campinas, na Facamp, participando do Seminário de Atualização de Professores, na área de Geopolítica. Pela manhã assisti a palestra do professor James Onning, com a temática “O impacto do Estado Islâmico no Oriente Médio”.

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Professor James Onnig e eu.

Enquanto biólogo, estava curioso para poder compreender tudo isso que se passa em nossos dias. E minhas expectativas foram superadas. Além de grande mestre, o professor James mostrou-se uma grande pessoa, acessível às perguntas e atencioso com todos que, ao final da aula, foram com ele trocar algumas palavras.

Para um leigo como eu, a maneira como tratou o assunto foi muito didática. Em um primeiro momento, citou Halford Mackinder que, entre 1904 e 1911, mostrando-se um visionário e estrategista, já alertara que a Eurásia seria o “coração do mundo” e quem ali se instalasse, teria um poderia mundial.

Com base neste link, eis que começa a caminhar pelos tempos mais atuais. E diferentemente do que estamos acostumados a ver pela imprensa ocidental – e até mesmo doutrinados –, o professor não foca sua aula apenas no caráter religioso, mas nas questões políticas e econômicas.

Na década de 1970, o governo ianque Carter, alerta para a importância da Ásia Central-Cáucaso, uma região até então desconhecida pelo Ocidente. A figura central neste alerta era Zbigniew Kazimierz Brzezinski, Conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos durante a presidência de Jimmy Carter.

Com a queda da URSS, abriu-se um campo desconhecido e com imenso potencial exploratório de recursos naturais – o chamado “Oriente Médio Expandido”. Áreas fragmentadas, desconhecidas e sem controle do estado – e também, sem infraestrutura. Paralelamente, a queda da URSS também abriu espaços que poderiam ser ocupados por coligações islâmicas e até mesmo gerarem grupos de contestação à ação desestabilizadora dos EUA.

Surgia o problema movido pelo interesse nos petrodólares.

Até a década de 40, os EUA exploravam muito petróleo. A demanda se tornou ainda maior a partir da década de 70, surgindo a necessidade de importação do óleo. E os vendedores eram Arábia Saudita, Kuwait, Qatar…países dirigidos por famílias que foram enriquecidas diretamente pelos contratos com os EUA.

(O primeiro parêntese é feito: são sim governos opressores e ditatórias, mas que “compram” o silêncio da população distribuindo, literalmente, dinheiro para a mesma).

A partir dos anos 2000, os EUA passam a explorar o xisto betuminoso como fonte energética, o que reduziu sua necessidade de importação petrolífera. E nasce assim uma dualidade estadunidense, que rege até hoje o jogo diplomático entre ianques e Oriente Médio: o petróleo não interessa mais, no entanto, não podem deixar que esses países sejam bem-sucedidos – pois há um real risco à soberania dos EUA. Foi isso que aconteceu no Afeganistão, Iraque, Síria…

A disponibilidade de petróleo era imensa, mas a falta de infraestrutura, um fator limitando. Sob esse ponto de vista, entende-se a importância da Turquia no contexto: em Baku (Azerbaijão) sai um oleoduto/gasoduto até Ceyhan, único porto com estrutura para dar vazão aos produtos para águas quentes…e fica justamente na Turquia.

O professor cita também dois imensos projetos para geração de novas infraestruturas nestes locais. Um deles, com previsão de finalização em 2045, é o Projeto TRACECA, que atenderá a Ásia Central, e outro é o Projeto TAP/TANAP/BTC, saindo a produção do Azerbaijão e indo diretamente para a Europa. Em ambos, a passagem desses terminais se faz pela Turquia – haveria a possibilidade de passar, em um caminho mais curto, pela Armênia, mas relações diplomáticas por conta do genocídio, impedem tal feito.

Eis que surgem perguntas sobre a Síria, governada pela família Assad há mais ou menos 45 anos.

Segundo parêntese: mesmo sendo considerada uma ditadura, o que pouco – ou quase nada – se vê nos noticiários ocidentais, são os elevados e exemplares índices em saúde, moradias e educação, louváveis e defendidas pela própria população.

E como o problema todo envolveu esse país? Exatamente quando Bashar Al Assad lança a chamada “Política dos 4 mares”, fazendo com que a Síria tenha uma importância fundamental na distribuição de óleo e gás através dos mares Negro, Cáspio, Mediterrâneo e Vermelho. Obviamente que, ao propor isso em janeiro de 2011, alianças internacionais, encabeçadas pelos EUA, Turquia, Arábia Saudita e parte do Ocidente, sentiram-se ameaçados. E o que se viu pouquíssimo tempo depois? O estouro de uma guerra civil, em março de 2011, o que arrasou com o país.

Voltando um pouco mais na história, percebe-se que algo similar aconteceu com a Afeganistão e Iraque.

Em outubro de 1979, houve a invasão soviética no Afeganistão – alguns historiadores dizem ter sido esse movimento o motivador do início da queda da URSS. Tal ato gerou “receio” por parte do Ocidente que, em plena Guerra Fria, julgou aquilo – ou pelo menos vendeu essa ideia – como ameaça de nova fixação comunista – o que é grande incoerência, pois afegãos são islâmicos, e a ameaça comunista e seus princípios era impossível de se instalar lá.

Mas a resposta veio. E os EUA apoiaram os afegãos na luta contra os soviéticos. No acordo, eles armariam e dariam condições durante e após a derrubada dos comunistas.

Neste momento, o professor projeta uma foto no mínimo intrigante: Brzezinski – aquele mesmo que era o braço direito de Jimmy Carter – no Afeganistão, ensinando um afegão a manipular uma metralhadora. Mas não um afegão qualquer, e sim aquele que anos mais tarde seria considerado o inimigo número 1 dos EUA: Osama Bin Laden.

A pergunta que talvez se faça: mas por que Bin Laden, então “amigo” dos EUA, comandou os atentados de 11 de setembro de 2001? Justamente porque os EUA, pedindo ajuda para derrotar a invasão, não cumpriu com seu acordo de posterior assistência e reestruturação do país. Em resposta a falácia ianque, surgem as organizações Al Qaeda e MAK, que trouxeram para si cidadãos sunitas revoltosos e indignados com a atitude dos EUA.

Curiosamente, neste mesmo ano de 1979, ocorreu a Revolução Islâmica no Irã – de princípios xiitas. Alimentou-se assim, a rivalidade xiita x sunita. Na visão transmitida ao Ocidente, o Irã era o inimigo da vez, e os sunitas precisavam de ajuda para combatê-los. Novamente os EUA atuam, mas desta vez, armando o lado sunita, representado pela pessoa do general iraquiano Saddam Hussein.

Nascia assim a Guerra Irã-Iraque e depois, a primeira guerra transmitida ao vivo pela televisão: Guerra do Golfo, a qual não teve o apoio dos EUA, mas sim sua represália. Guerras estas que perduraram por quase 10 anos e que tiveram como pretexto a disputa principal, rivalizada entre xiitas e sunitas, pela foz dos rios Tigre e Eufrates e a ocupação do Kuwait.

Ao término dessas lutas, os EUA novamente abandonaram o Iraque totalmente arrasado. Saddam foi sufocado economicamente, graças a criação da zona de exclusão, com pesadíssimas sanções econômicas e desarticulação de redes de fluxo com o Iraque.

Em 2003, com o argumento de “armas químicas”, nova invasão sob o comando de Bush. Mas desta vez, até mesmo para surpresa dos EUA, uma tomada muito fácil do território devido a total pobreza do país. E a culpa foi jogada sob as costas de Saddam – ignorando às sanções econômicas.

(Minha singela observação: não é a mesma coisa que fizeram com Cuba e fazem com Venezuela, tentando culpar os regimes castristas e chavistas? E quanta gente não compra essa ideia, não é mesmo?).

Com a prisão e enforcamento de Saddam Hussein, o Iraque, que vinha tentando se reerguer, sofre forte desestruturação interna. Eis que o Estado Islâmico (EI) ganha terreno junto à comunidade sunita, mais do que nunca marginalizada e reprimida pelos xiitas, e ainda ressentida com a invasão de 2003 e todas a barbaridades cometidas contra os islâmicos.

Como alternativa a pobreza e ao caos, insuflados pelos discursos religiosos, o EI oferece suporte para o fortalecimento dos sunitas. Como bem destacou o professor, a visão que eles tinham era de que “os EUA trouxeram a bagunça; e o EI seria a nova ordem”; uma nova e promissora organização. Ao dominar territórios e países localizados na faixa do petróleo, conseguem aumentar cada vez mais seu exército.

O curioso aqui, é que a renda petrolífera não se faz em grande escala como nas multinacionais estadunidenses. No caso do EI, são consumidores locais, pontuais. Mas em número muito grande. Em alguns casos, a venda do petróleo se faz em lombos de animais, pequenas embarcações e até mesmo alguns oleodutos. Para atraírem os cidadãos, chegam até a negociar o petróleo em troca de farinha, a ser distribuída à população.

O lucro estimado do EI com o petróleo é calculado em cerda de U$ 1 milhão/dia.

A partir de 2013, com a tomada do EI na Síria, “curiosamente” o preço do petróleo cai vertiginosamente em escala mundial. E outro dado inusitado e coincidente (será mesmo?) foi a reaproximação dos EUA com o Irã, passando a comprar novamente seu petróleo, derrubando o preço do óleo – ou seja, enfraquecendo os negócios do EI.

E tem mais.

O porto de Tartus, localizado na Turquia, e de localização estratégica para o mar Mediterrâneo, mas pertencente à Rússia, estava abandonado desde 1980. Quando se dão os primeiros conflitos com o EI, a visão e raciocínio estrategistas de Wladimir Putin, observando a potencial ameaça de tomada da Criméia e seu porto pelo EI, lança ofensiva para a retomada deste local chave, com saída para águas quentes.

Houve tentativa na tomada, por parte do EI, da represa Mossul no Iraque, para o controle da água, mas forças curdas conseguiram a retomada do local. Salienta-se aqui que os rios que alimentam esta represa exatamente na Turquia. E eis que o presidente turco, ameaçando a construção de uma barragem em seu território, detém todos os interesses novamente em suas mãos.

Ao final de sua explanação nota-se, tal como nos foi alertado desde o início da aula, que o que está sempre em jogo, na grande maioria das disputas armadas, não são apenas ideologias/religiões, mas território. Como disse o professor, “território é sinônimo de poder”.

A mensagem final, deixada no ar para que todos pensemos – mas que o lado ocidental quer evitar maiores discussões – é justamente uma pergunta: por que há um interesse cada vez maior nos discursos/ideais do EI? Deixando de lado sua forma bárbara de ação – com decapitações, pessoas sendo queimadas vivas em jaulas – precisamos refletir sobre isso, deixando de lado o velho discurso batido e vazio de que são apenas jihadistas, malucos, doentes e fanáticos religiosos. Se hoje discutimos tais reações, devemos analisar quais ações as desencadearam.

Talvez sua visão de terrorismo seja modificada, assim como seu julgamento sobre os verdadeiros terroristas.

*Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências

 

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