Carta ao Sr. Claudio de Moura Castro

Tenho certeza que escrevo em nome de vários outros educadores que assim como eu, sentiram-se ultrajados por suas colocações irresponsáveis.

Tive conhecimento de seu artigo “Professor ganha mal?” (publicado naquela revista golpista, chamada “Veja”, que faço questão de não ver), por meio das redes sociais – jamais gastaria meu tempo folheando as páginas daquela latrina impressa. E seu artigo comprovou o que digo aqui.

O mundo em que o senhor vive, eu não sei. Muito menos em qual país. Afinal, golfou tantas atrocidades, que desconfio certeiramente que não é no Brasil.

Não sou do Rio de Janeiro, mas me solidarizo aos demais professores pela falta de bom senso que teve em suas palavras ao criticá-los, ainda que de forma indireta, pela greve que fizeram. Por sinal, palavras essas que o senhor deveria medir antes de escrever sobre aquilo que mostra total desconhecimento: a realidade da educação – e mesmo assim, se diz especialista nesta área.

Primeiramente, deveria ter a prática e a vivência em uma sala de aula para poder julgar. Talvez, levantar seus glúteos de sua poltrona aveludada, seja um primeiro passo, pois não basta ler notícias e assistir telejornais para achar que entende de tudo sobre a profissão – muito menos se for espectador da Rede Globo, ou leitor da “Folha”, “Estadão” e cia.).

Saiba que os professores que lecionam, não o fazem pelo dinheiro em si. Se há alguma profissão em que se trabalha por amor e vocação, uma delas, tenha certeza, é a de professor. Assim, dizer que no ensino público não estão lecionando “as melhores cabeças”, é um ato de extremo desrespeito e menosprezo de sua parte.

Já fui estagiário na rede pública e também contratado como categoria “O”, aqui no estado de São Paulo (também conhecido como Tucanistão), onde o governo, há mais de 20 anos, é declarado inimigo da educação. E mesmo assim, lutamos por acreditar nesta luta. Contra salários baixos, falta de reconhecimento – tal como sua vil pessoa demonstra –, fechamento de escolas, salas superlotadas e tudo mais que possa imaginar – e dificilmente encontra em páginas de “Veja” e cia. Isso sem falar na inacreditável censura que tentam nos impor através de tal “Escola Sem Partido” – criada por gente sem caráter.

Apesar disso tudo, tenho muito orgulho de ser professor, assim como demais profissionais. E sim, somos preparados tal como professores que lecionam em escolas particulares também. Suamos para ter essa profissão, sem a qual não há esperança alguma em uma sociedade mais justa, consciente e menos preconceituosa.

Sua outra leviana tentativa de querer afrontar a questão da aposentadoria dos professores é ridícula. Ao dizer que “eles [nós, professores] passam tantos anos aposentados quanto ensinando”, comprova-se sua incompetência para afirmar tal coisa. A própria aposentaria não é suficiente para os custos de vida dos professores, ou seja, mesmo aposentado temos que continuar na luta e em sala de aula. Ou acredita que somos milionários, donos de mansões e trocamos de carro todos os anos?

E o que dizer de suas contas tendenciosas, generalizadas e desqualificadoras dos docentes? Quer dizer que a mulher não pode ficar grávida, porque isso onera o estado? E professor não tem direito a adoecer? Faz-me rir, senhor! Desconhece também que nós, educadores, não trabalhamos apenas nas salas de aulas – geralmente insalubres, superlotadas, sem condições dignas para lecionar o bom ensino, e mesmo assim damos conta do recado. Nosso trabalho se estende para nossas casas, pois o preparo das aulas, correção de atividades, provas não é feita em “horário de trabalho”. Nosso serviço começa antes do sol nascer, e não tem hora para acabar. Conhecendo a realidade de um professor, saberá que feriados não são usados para viagens, mas para colocar tudo em dia. Saberia também que essa rotina, a qual amamos e dedicamos literalmente nossas vidas, acaba por nos adoecer. Seja uma simples faringite, ou até varizes e estresse.

Sendo assim, Sr. Claudio de Moura Castro, não sei qual o motivo que o levou a escrever tantas baboseiras que atingem diretamente essa honrada classe trabalhadora, mas tenha certeza que ao não se retratar, terá a partir de agora, milhares de inimigos.

Sem mais,

Luiz Fernando Leal Padulla

Professor

Biólogo

Doutor em Etologia

Mestre em Ciências

Especialista em Bioecologia e Conservação

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248 comentários sobre “Carta ao Sr. Claudio de Moura Castro

  1. Luiz Fernando, parabéns pelo seu posicionamento.
    Às vezes me pergunto porque ainda existem pessoas tão cara de pau como esse tal Cláudio de Moura Castro para proferir tamanhas barbaridades acerca dos professores e mesmo da educação, pois se ele não conhece a realidade da educação brasileira – especialmente a pública – por não vivenciá-la, ao menos deveria assistir os jornais que por diversas vezes já denunciaram o descaso do poder público nesse sentido.
    Acredito que se ele é tão extraordinário para falar mal dos professores, certamente deve ter sido um aluno muito medíocre.
    Obrigada por defender nossa categoria.

    Maria da C. R. de Alencar

    Professora
    Pedagoga
    Licenciada em Letras (Língua Portuguesa e Língua Espanhola)
    Bióloga
    Acadêmica de Bacharelado em Teologia
    Doutora em Educação
    Mestre em Educação
    Especialista em Orientação Educacional

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  2. Prof. Luiz Fernando,
    Parabéns e mais parabéns por calar a boca de uma pessoa infeliz e completamente desumano. Uma verdadeira besta em um corpo humano. Não sabe o que diz!!!

    Ao senhor, fica a minha total e imensa gratidão pelas mais verdadeiras palavras de alguém que de fato sabe o que é SER PROFESSOR!!!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Dra. Maria…
      Sou solidária à causa dos professores.
      Venho de uma época em que ser professor era algo de muito prestígio. Tive professores maravilhosos.
      O grande problema de hoje é o péssimo nível da formação desses profissionais em razão da má qualidade das escolas e faculdades.
      Evidentemente não se pode generalizar….
      Mas não é incomum ler escritos de professores com sérios erros de linguagem…
      E um professor que não domina a língua pátria revela a gravidade do estado em que se encontra nosso Sistema Educacional.
      Jornais são lidos…
      E só assistimos telejornais quando damos a eles assistência…fora isso, assistimos a telejornais.
      Assim, percebemos que nossa Educação está doente e há casos em que a única reação é chorar.
      Sinceramente, não sei qual a solução para esse estado lamentável em que nos encontramos.
      Nossa Educação está morrendo junto com a Língua Portuguesa.
      Desejo-lhes sorte, força e empenho.

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  3. Perfeito texto! Hoje em Macapá, este pseudoespecialista em educação veio participar de um evento de educação, (pasmem) a convite do conselho de educação. Ele teve o que merece, fizemos muito barulho e só saimos de lá quando nos foi dada a palavra e ele foi obrigado a ouvir nosso repúdio. Foi maravilhoso!!

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    1. Luiz Fernando, sábias palavras, você soube defender nossa classe, tão oprimida pelas mazelas desse governo que tende em nos humilhar, não garante nossos direitos e desvaloriza nossa profissão.
      Quando você citou a respeito do estresse e problemas de saúde, oriundos da exaustiva jornada de trabalho, me vi mais ainda, retrada em suas palavras, pois estou lutando no presente momento, por meus direitos, uma vez que precisei me afastar das atividades laborais, por conta de uma faringite aguda.
      Trabalho em salas de aulas lotadas,fechadas, abafadas, com centrais de ar sem manuntenção, algumas salas fedem a mofo.
      Enfim, são varios os problemas, ganhamos tão mal, e ainda tem casos, em que exigem que o professor custeie eventos promovidos pela escola.

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  4. Professor ganha pouco, muito ou mais ou menos?

    Eis ai uma pergunta cuja resposta depende de muita coisa. Não darei, em princípio, os nomes de pessoas ou de locais, mas citarei fatos, rigorosamente verdadeiros, em apoio ao que vou dizer, mais adiante.

    Numa escola de ensino fundamental do interior do nordeste pedi a oito professoras, que participavam de um curso, que escrevem uma definição de “sistema”. Dez minutos se passaram e nenhuma delas conseguiu escrever uma linha sequer. Diante do meu espanto uma delas perguntou: “mas, professor, o que a gente vai escrever?”

    Numa outra escola, da mesma região brasileira, verifiquei que várias crianças da quinta série não sabiam dizer o que é o zero. Até ai tudo bem. O que me surpreendeu é que a professora de matemática também não sabia.

    Numa outra escola professoras não sabiam a diferença entre número e algarismo. Muito menos critérios de divisibilidade. Professoras de português dizem “pra mim fazer”. Um professor do ensino médio, numa reunião com os pais dos alunos pediu a palavra e, lá pelas tantas, soltou um “a gente vamos”. Um pai de aluno comentou com outro: “veja nas mãos de quem entregamos os nossos filhos”.

    Um cidadão mineiro, que foi morar no nordeste tornou-se amigo do prefeito e, faz alguns anos, conseguiu empregar como professora de inglês uma sobrinha que não fala inglês e só tem o ensino médio.

    Um diretor de escola, evangélico, pediu ao professor de História que ensinasse a sua disciplina “sob uma perspectiva evangélica”. O professor de História até não sabe o que é isso. Os critérios pelos quais os voluntários para programas do tipo “Mais Escola” eram escolhidos eram os do compadrio, vinculação religiosa ou política. Nunca pelos de mérito ou competência.

    Numa prova do curso de aperfeiçoamento de professores de matemática do ensino médio, realizado pelo INSTITUTO DE MATEMÁTICA PURA E APLICADA, só doze por cento dos professores conseguiu resolver questão que envolvia conceitos do ensino fundamental.

    Confiram em:

    A consequência desse estado de coisas é que alunos que chegam à terceira série do ensino médio não conseguem resolver questões elementares, em todas as disciplinas. São analfabetos funcionais e assim chegam às universidades.

    Salta aos olhos que EXISTEM PROFESSORES E PROFESSORES. Desse modo não se pode, por exemplo, comparar os professores do Colégio Militar de Porto Alegre, por exemplo, com professores iletrados de muitas escolas brasileiras. Como comparar um professor do Colégio Pedro II, como o foi o famoso Aurélio Buarque de Holanda, autor do conhecido dicionário que leva o seu nome, com um professor que não consegue escrever três linhas de texto sem agredir o vernáculo?

    Para professor iletrado ganhar salário mínimo já está de bom tamanho. Como comparar o salário de um professor de uma escola pública da qual saíram três presidentes da República do Brasil com professor de escola montada para “produzir fracassados” que se submeterão à exclusão e aos baixos salários gerados pelo sistema da “globalização”? Podem todos ganhar a mesma coisa?

    Há que se atentar para a relatividade das coisas. O Brasil é um país desigual. Eu olho a declaração de renda de uma professora de creche de um município nordestino e vejo que ela recebeu como rendimentos de pessoa jurídica em 2015 mais de 42 mil reais. É muito, é pouco? Ou estará de acordo com os padrões normais? Depende. Comparado com o salário de quem ganha salário mínimo pode ser muito. Em contrapartida, comparado com o de um professor que tenha feito graduação, mestrado e doutorado na USP pode ser pouco. O que fazer? Dar o mesmo salário para ambos?

    Vejamos o caso dessa professora de creche que, no meu modo de ver, deveria ser altamente bem preparada, para lidar com as crianças. Trata-se, todavia, de pessoa que passou os trinta anos iniciais da vida trabalhando na roça e um dia foi morar na cidade grande, onde resolveu ser professora. Fez o curso numa dessas instituições privadas que dão diplomas a qualquer pessoa, desde que pague as mensalidades, e virou professora, mesmo nunca tendo lido um livro na vida, sendo pessoa bastante limitada, que mal consegue escrever três linhas de texto.

    Tem instituições tão ruins quem nem são avaliadas pelo MEC. Não obstante dão cursos de pedagogia e magistério. Aliás, é comum encontrar pessoas que se dizem formadas em pedagogia que não sabem dizer o que é pedagogia. Como colocar no mesmo patamar esses “pedagogos” e o cearense Lauro de Oliveira Lima ou o paulista Vitor Henrique Paro?

    Muitos professores se consideram uma espécie de “sacerdotes”, acima do bem e do mal. Não aceitam críticas e logo se levantam, aguerridamente, contra qualquer pessoa que não lhes massageie o ego. Para não dizer que só falei do nordeste direi que no Rio de Janeiro, vendo um menininho que estava chorando no corredor da escola, perguntei-lhe por que chorava. Um jovem professora apressou-se em responder, alto e bom som: “ele está de castigo porque é um IDIOTA e não quer participar das brincadeiras com as outras crianças”. Seria então o caso de se perguntar: quanto merece ganhar essa professora?
    Em São Paulo converso com jovens, até formados, sem qualquer cultura, desconhecendo coisas básicas. Em que escolas obtiveram os seus diplomas? Quem foram os seus professores?

    Vamos valorizar os professores, mas é preciso que os bons professores, antes de tudo, valorizem a própria categoria, impedindo o acesso dos maus professores às salas de aula.

    Naturalmente que os graves problemas que envolvem o ensino no Brasil não poderão ser resolvidos no interior do contexto escolar. Sem atentar para os aspectos econômicos e políticos da questão eles não irão muito longe.

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