Pior que o frio, o coração gelado!

*Por Luiz Fernando Leal Padulla

Estamos em julho. O frio bate em nossa porta. A previsão fala de temperaturas muito baixas para este ano. Felizmente temos um lar, uma cama, um cobertor e estamos protegidos das intempéries. Se a fome bate, temos o que comer. Mas e as demais pessoas que toda noite, têm que se alojar debaixo de marquises e viadutos para tentar bloquear o frio intenso que penetrar seus corpos? Sim, pessoas como eu e você!

Não sei quanto a você, mas dói dentro de mim ver pessoas tentando se proteger deitadas em calçadas.

Ironicamente, vários imóveis seguem fechados, desocupados, à espera de locatários/compradores, de acordo com a especulação imobiliária. Está certo que vivemos em uma sociedade capitalista, mas até que ponto o dinheiro deve falar mais alto que nossa humanidade?

Capa-Oficial

Ao ler o livro de Guilherme Boulos, “Por que ocupamos?”, essa dúvida se torna ainda mais dramática frente aos dados: estudo da Fundação João Pinheiro (2013) mostra que cerca de 22 milhões (milhões!!!) de pessoas não têm casa – ou seja, 10 % da população do país é sem-teto. Se considerados o déficit habitacional qualitativo (falta de condições básicas para uma vida digna), esse valor atinge 48 milhões de pessoas.

Muitos poderão não gostar do que direi aqui – mesmo não sendo uma ideia inovadora, nem mesmo de minha autoria – mas é preciso dizer para que pelo menos pensemos a respeito. Por que não se desapropriam esses prédios e imóveis para o acolhimento dessas pessoas? Uma desapropriação que poderia vir a acorrer com o pagamento de certo valor, compensando financeiramente os donos dos locais.

Ao mesmo tempo em que possibilitaria a melhoria de vida dessas famílias, permitiria também a inclusão social dessas pessoas, pois passariam a ter uma moradia fixa, seus pertences e vida digna como qualquer cidadão.

Não é nada de outro mundo, muito menos abusivo. Abusivo é tamanha diferença social entre as pessoas que vivem em um mesmo local. E não, não é “tirar dos ricos e distribuir para os pobres”. É questão de preocupação social, garantindo um estado mínimo para todos – assim, como alguns gostam de repetir em falsas retóricas, não é tornar todos miseráveis e igualmente pobres, mas garantir condições mínimas para todos.

É uma luta e necessidade nos centros urbanos, mas similar àquela que há anos os sem-terra vêm exigindo. Ou ainda, a mesma luta travada pelos indígenas cuja Constituição Federal lhes garante o direito à terra, mas nas vias de fato, se encontram sob o domínio de fazendeiros de latifundiários que, quando ameaçados, promovem o genocídio dessas famílias – entre 2003 e 2014, mais de 700 índios foram assassinados por fazendeiros.

E antes que julguemos como “oportunistas e vagabundos” que querem a terra para fazer dinheiro, é importante que separemos o joio do trigo. De fato, pode até ter um ou outro desonesto infiltrado nesses movimentos, mas a grandiosa maioria não é assim. O MST é extremamente organizado, pautado por suas regras coletivas e participativas. Não se deixe enganar por rótulos que tentam definir. Sugiro, antes de mais nada, conhecer e se informar melhor antes de julgar.

(Sugestão de leitura: Estigmatizados – https://biologosocialista.wordpress.com/2016/07/08/estigmatizados/)

Mais do que o direito a um pedaço de terra e a um teto para se morar de forma digna e salutar, o que está em jogo é justamente nossa HUMANIDADE. Afinal, de que adianta apenas olharmos (quando olhamos!), lamentarmos os erros e não fazermos nada? Adianta termos dó sem qualquer tipo de ação?

Quando poremos à prova nossa capacidade de empatia e solidariedade? Somente quando refugiados morrem afogados no Oriente ou quando pessoas são mortas em Orlando ou Paris, vítimas de terrorismo? E com isso, ignoraremos os fatos que acontecem dia a dia em nossa própria pátria?

É hora de nos unirmos em prol do bem comum. Deixar de lado o grande mal que aflige e corrói nossas vidas: o INDIVIDUALISMO.

É por isso que hoje, apoio e milito a favor do MST, MTST, índios e todos aqueles que ainda sofrem pelos laços do egoísmo humanos. E é justamente por acreditar no despertar da conscientização humana, que a luta segue forte. Vamos juntos lutar. Não por mim, nem por você, mas por todos nós!

Como dizia um certo revolucionário argentino de nome Ernesto, “se você é capaz de tremer de indignação a cada vez que se comete uma injustiça no mundo, então somos companheiros”.

*Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências

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3 comentários sobre “Pior que o frio, o coração gelado!

  1. Fantástico Luiz! Obrigado por nos brindar com lufadas de conhecimento, coerência, justiça e sensatez! E a frase final dignifica qualquer socialista! Viva Che!!

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  2. A grande pergunta que os militantes se fazem é essa: por que não desapropriar prédios ociosos? Escrevi um pouco sobre essa problematica no blog e pesquiso sobre isso pro mestrado. Parece óbvio o que deveria ser feito, mas não se faz. Os interesses dos proprietarios de terra e a discussão sobre propriedade privada segue sacrossanta e intocável.

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  3. Pois é Paula…é triste essa realidade onde o dinheiro canta mais alto que as vidas de pessoas (e até de animais não humanos!). Há muito receio desta discussão se tornar cada vez mais difundida e com isso, maior mobilização das pessoas…preferem criminalizar os movimentos e suas lideranças.

    Curtido por 1 pessoa

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