Papo de evolução: seríamos todos autistas?

*Por Luiz Fernando Leal Padulla

Certa vez, em uma de minhas anotações que costumo fazer em um caderno, relatei algo sobre o autismo, justamente por lecionar naquela época para dois alunos com Síndrome de Asperger – síndrome esta considerada por alguns como um autismo de alta funcionalidade. Na ocasião, lembro que cheguei a comentar com a orientadora pedagógica do colégio: “no fundo, acho que todos nós temos um Q de autismo”.

Tal hipótese surgiu por um pensamento simplista: em momentos de introspecção, fechamo-nos em nosso mundo – em um diálogo constante e até mesmo amargurante com nossos “demônios internos”, podendo durar mais ou menos tempo. Por que ficamos retraídos? Por chateação, tristeza, cansaço, estresse. Várias as causas de nossos dias de “nhaca”.

cerebro que se transforma

Recentemente, na leitura do livro “O cérebro que se transforma” (de autoria de Norman Doidge), deparei-me com um dado que chamou ainda mais minha atenção: o aumento significativo dos casos de autismo. Quando diagnosticado pela primeira vez, há mais de 40 anos, afetava uma em cada 5 mil pessoas. Agora, afeta 15 em cada 5 mil. Parte desse aumento pode ser consequência do aumento e facilidade dos diagnósticos. Mesmo assim, são valores gritantes que não se justificariam apenas pelos pressupostos.

Quais seriam as causas do autismo? Diversas. Desde o fator genético (ainda desconhecido em sua totalidade) até mesmo aos estímulos e fatores ambientais. O som, sendo um deles.

Durante o chamado “período crítico” de formação das conexões do córtex cerebral, há uma plasticidade que pode modificar todo o mapa cerebral. Ou seja, em situações normais, bebês conseguem captar diferentes tipos de som e reagir em áreas específicas do cérebro para cada tipo de som e suas frequências. A medida que os mapas vão se formando, as conexões neuronais se estabilizam, cada uma com sua função (comparativamente, vale a frase “quem aprendeu, aprendeu. Quem não aprendeu, vai ter mais dificuldades daqui para frente”).

Em termos práticos: crianças aprendem mais facilmente um novo idioma do que um adulto, justamente porque os “caminhos” neuronais ainda estão sendo formados, enquanto que nos adultos, já estaria formado e ocupado por outra função – a qual terá que ser dividida com essa nova habilidade.

Uma observação importante que faço aqui é quão barulhenta é nossa sociedade atual. Estaria, portanto, influenciando nossos bebês.

Acrescentaria aqui dois problemas sociais contemporâneos extremamente graves: a intolerância e o individualismo.

A falta de aceitabilidade de situações e opiniões divergentes, acaba gerando crianças que se tornam cidadãos incapazes de viver em sociedade. Em português claro, pessoas mimadas. E sim, os pais tem grande parcela de culpa nesse tipo de educação, afinal, estão criando uma geração de adultos deslocados e incapazes de lidar com frustração. Como consequência, muitos partem para brigas/discussões, podendo gerar um isolamento posterior. E ao se isolar, há falta de relações sociais – muitas vezes substituídas pelas redes sociais e sua frieza.

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Como resultado, indivíduos carentes, que negam relações interpessoais. Mas não paramos por aí. Voltemos ao livro e ao cérebro e suas conexões neuronais. Há uma interminável guerra de nervos acontecendo dentro do cérebro de cada um. Se pararmos de exercitar nossas habilidades mentais, não só nos esquecemos delas: o espaço do mapa cerebral para essas habilidades é entregue às habilidades que praticamos. Conseguiram compreender? Eis o princípio do USE ou PERCA.

(Uma pequena reflexão: não seria o que Lamarck dizia, ainda que parcialmente, ser a lei do USO e DESUSO?)

Evolutivamente, ao ativarmos esses genes “antissociais”, passaríamos adiante tais características e a cada nova geração, menor a capacidade de socialização? E ao mesmo tempo, favorecendo o surgimento de indivíduos que focam em áreas de seu interesse durante seu isolamento, desenvolvendo áreas cerebrais cada vez mais elaboradas para tal aprendizado? Não é essa a característica de um autista?

Estaríamos a caminho de uma nova seleção natural, contrariando nossa natureza? Seria a comprovação das evidências individualistas que temos em nossa sociedade? O egoísmo a e a falta de “humanidade” dos humanos seria fruto dessa manifestação?

O preço a ser pago seria apenas o isolamento social ou haveria uma reação em cadeia em nosso cérebro?

A provocação está feita.

*Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências

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