Estigmatizados

 

* Por Luiz Fernando Leal Padulla

Li recentemente o livro “Brava Gente”, de Bernardo Mançano Fernandes e João Pedro Stédile, que aborda a história do movimento dos trabalhadores sem terra (MST).

Curiosamente, na semana em que terminei o livro, ainda estavam afloradas as discussões e revoltas perante o estupro coletivo da garota de 16 ano no Rio de Janeiro. Coincidentemente, na mesma semana o portal G1 (da Globo) noticiou que havia ocorrido um estupro em um dos assentamentos do MST em Minas Gerais. A notícia correu pela manhã, abastecendo as redes sociais e servindo como “munição” para os ultraconservadores criminalizarem o MST. Isso, se a culpa fosse realmente dos assentados.

Apenas no final da noite (19h09), em breve nota, o portal emite uma correção: “O G1 errou ao informar em reportagem publicada no sábado (4) que uma mulher foi estuprada em uma ocupação do MST em Teófilo Otoni. Na verdade, a Polícia Militar informou que o crime ocorreu em um terreno invadido e não soube informar que grupo invadiu o local”.

G1 MST

Seria realmente um erro? Tenho minhas dúvidas! Principalmente depois que li o livro de Stédile.

Em um dos capítulos, aborda-se justamente a relação que os governos Collor e FHC tiveram com os movimentos sociais. Em um dos momentos mais críticos, tentou-se justamente criminalizá-los, manipulando a opinião pública para abominá-los.

E era essa, até então, a visão que muitos tinham – eu mesmo, enquanto adolescente, só ouvia barbaridades relacionadas ao MST. Só tive minha visão modificada quando na faculdade, onde professores expuseram claramente os fatos, sem a distorção e parcialidade da mídia convencional.

Percorrendo um passado um pouco mais remoto, vemos um “Q” da ditadura de 64, quando a luta pela reforma agrária era condenável, assim como a disputa pelo petróleo (esse paralelo pode ser visto de forma clara no documentário “O Brasil de Darcy Ribeiro”, no episódio “Os idos de março”. Veja aqui: https://www.youtube.com/watch?v=FT0dXKhYJnw).

Hoje, infelizmente, não é diferente. O golpe que se instala no Brasil, não requer armas, apenas canetadas e a manipulação midiática.

Um rapaz, dia desses, de maneira educada me chamou para um bate-papo pelo Facebook. “Professor, tudo bem? Você não me conhece, nem eu o senhor, mas gostaria de conversar pacificamente sobre política, pode ser?” De início suspeitei, mas ao responder que “conversar de forma pacífica, respeitosa eu sempre topo”, demos início a uma conversa agradável. Entre suas considerações, perguntou-me o que eu achava do atual cenário político.

Humildemente, respondi que o que mais se aborda é a questão política, claramente polarizada – e radicalizada. Como já falei outras vezes, a briga interna é justamente pelo fato dos governos do PT não barrarem nenhuma investigação (ingenuidade ou não, elas avançaram, fato este reconhecido pelas próprias autoridades do Ministério Público e Polícia Federal), o que obviamente causou revolta nos corruptos – em sua grande maioria, alocados em partidos de oposição, como o PSDB, DEM, SD e até mesmo aqueles que se diziam aliados ao governo (PMDB, PP). Vale lembrar aqui que a corrupção que se escancarou hoje, reconhecidamente não é “fruto do PT”. O próprio escândalo da Petrobrás inicia-se no governo militar e ganha maior atividade durante os governos tucanos de Fernando Henrique Cardoso – que, manipulando o MP e a própria PF, impedia as investigações e “engavetava” possíveis CPIs.

No entanto, o que pouco se fala é a questão geopolítica: o cobiçado Pré-sal, as reservas de nióbio (mais de 95% das reservas estão no Brasil) e o banco e fortalecimento do BRICS, ameaça iminente ao FMI. Fatores estes talvez mais importantes do que a rusga interna, pois envolve os interesses externos – leia-se EUA. Isso tudo, enfraquece a dispersão do capitalismo desenfreado e o lucro cada vez maior de uma minoria. Consequentemente, o desejo de se atrapalhar e até barrar o avanço dessas ideologias, é imenso.

Não à toa, manipulam as informações, criminalizam movimentos sociais. Eis aí a similaridade dos golpes de 1964 e 2016.

Nasci no final da ditadura e, mesmo não vivendo-a intensamente, ouvi relatos de quem viveu e tive educação escolar que retratou o fatídico momento. E até hoje procuro mais informações. As ações imperialistas sobre o Brasil, foram as marcas neste período. A “necessidade” de intervenção militar se dava para conter os avanços da esquerda no Brasil – que, como sempre, é tratada como algo ruim para a população – visando, portanto, a manutenção dos interesses conservadores da direita.

O estopim para o golpe de 64 foi quando Jango e Brizola havia decidido por reformas de base, reforma agrária, um novo plebiscito para aprovar uma nova constituição e a nacionalização das refinarias estrangeiras de petróleo – algo um tanto quanto contemporâneo, não? O que fizeram os militares, com apoio da igreja católica – hoje, sendo parte dela igualmente conservadora, junto aos evangélicos – para evitar tudo isso? Aliaram-se aos políticos da UDN e ao governo norte-americano, assim como mobilizando o povo (“inocentes úteis”) através da “Marcha da família com Deus pela Liberdade”, com a intenção de dar legitimidade ao golpe militar. Percebem nova equidade com partidos conservadores, bancada evangélica – ainda que hipócrita – e Bolsonaros?

O mecanismo de indução ao apoio ao golpe é o mesmo. A criminalização dos movimentos sociais é mais um retrato desta propaganda falaciosa dos conservadores que atendem a interesses de uma elite usurpadora dos direitos humanos e gananciosa.

Vejamos o espaço que é dado nos jornais e telejornais das inúmeras mortes em conflitos de terra. Muitas delas sequer são noticiadas. E quando são, não tem o mesmo destaque que mortes em boates e de assassinatos em algum bairro de classe alta. Isso sem levar em consideração que na maioria das vezes, tratam os assentados como bandidos.

vila soma google
Imagem aérea da ocupação Vila Soma. (Crédito: Google Earth)

Mesmo com tantos empecilhos, a luta dessa gente é exemplar. Na região que moro, temos a ocupação Vila Soma, em Sumaré, que há 4 anos resiste e luta pelo direito à moradia. Após anos de espera, sem qualquer atitude por parte dos governos, decidiram ocupar um terreno de uma empresa falida que abandonou a área.

Estão em uma área de 1 milhão de metros quadrados, com mais de 2700 famílias organizadas em 38 ruas. Em cada uma destas ruas, há um líder que, em conjunto aos demais, organizam todo o local e fazem funcionar toda engrenagem. Recentemente uma horta comunitária está sendo implantada para atender e servir seus moradores. E tudo isso de forma voluntária. Aos sábados, os moradores organizam uma feira, que visa auxiliar. Como bem definiram “A repressão das forças do Estado só fez com que nos organizássemos internamente. Com a ausência de serviços públicos na ocupação criamos ambientes populares, gerando cultura, lazer e educação”.

mst venezuela
Alimentos produzidos por cooperativas do MST e que estão sendo exportados para a Venezuela. (Crédito: Fernando Morais – Facebook)

As benfeitorias que acontecem nessas ocupações e até mesmo nos assentamentos, não são notícias. Fernando Morais trouxe a valiosa informação, através de sua página no Facebook, de que alimentos produzidos por cooperativas do MST estavam sendo exportados à Venezuela, como medida de auxílio ao desabastecimento deste país – desabastecimento este, por sinal, similar ao que ocorria com Cuba frente ao embargo dos EUA e seus aliados, na intenção clara de causar o caos e manipulara a população contra os regimes socialistas. Há muita coisa por trás dessas atitudes desumanas. A tentativa de jogar a opinião pública contra determinado governo é uma delas. Não digo que não existam problemas econômicos na Venezuela, mas os  interesses externos são os promotores deste caos, sem se importarem com o povo.

E com o apoio da grande mídia, e até mesmo de um judiciário corrompido, difamam seus líderes e movimentos populares, chamando-os de “tiranos”, “ditadores”, “assassinos”, “comunistas”, etc. Foi assim que tentaram denegrir as imagens de Fidel Castro, Che Guevara, Hugo Chávez, Fernando Lugo, Evo Morales, Lula, Dilma, Nicolás Maduro e tantos outros representantes do povo, eleitos democraticamente mas que, ameaçado os interesses ianques, foram (e são) sabotados na tentativa de enfraquecer os avanços da igualdade social.

Como bem definiu o advogado Marcelo Lavenère, “criminalizam-se os movimentos populares pela ligação do Judiciário com as elites econômicas”.

Sendo assim, não acredite naquilo que é mostrado  e como é abordado em jornais como Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo, ou noticiários da Globo, e até mesmo revistas (?) como Veja, IstoÉ. Há interesses escusos por trás desta manipulação midiática. Os inimigos que tentam emplacar, geralmente são nossos maiores heróis.

*Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências

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