Empatia, ciúmes, respeito…e não falo dos humanos!

*Por Luiz Fernando Leal Padulla

Quem se encanta pelos animais, em algum momento já deve ter feito umas dessas perguntas: um cachorro pode sentir ciúmes? E empatia por outro cachorro? Teriam noção de sua força e tamanho?

Sou defensor da senciência animal (cujo argumento principal é de que todo ser vivo sente, sem necessariamente pensar/racionalizar), ao mesmo tempo que acredito na capacidade de pensamento e raciocínio deles. Aqui não vou argumentar falando dos chimpanzés, cuja proximidade genética de 99,4% do material genético torna a discussão praticamente desnecessária. Meus objetos de estudo agora serão os cães.

Há tempos observo meus filhos caninos. Muitos de seus comportamentos foram utilizados para meus relatórios do doutorado. Outras tantas observações ainda repousam em cadernos, aguardando o momento certo para serem utilizadas em um novo livro que pretendo escrever. Mas vamos lá.

filharada
Da esquerda para direita: Lia Maria (alto), Suricato Derly, Manuela Maria, Branquelo Magrelo, Negão Aparecido e eu. (Foto: Luiz F. L. Padulla)

As observações deste post forma feitas analisando as brincadeiras e comportamentos de Manoela, Branquelo, Negão e Suricato, todos resgatados das ruas e vivendo em nosso lar. Há também Lia, uma pinscher de 7 anos, que desde bebê viveu dentro de casa. Negão é o mais velho da turma, tendo por volta de 11 anos. Depois temos Suricato com cerca de 9 anos. Branquelo, com seus prováveis 4 anos, enquanto Manuela é a caçula, sendo resgatada recentemente de uma caçamba, tendo quase 4 meses (veja sua história neste post: https://biologosocialista.wordpress.com/2016/05/07/acredita-em-anjos-da-guarda/ )

Como a grande maioria dos filhotes, Manu é muito esperta, brincalhona e hiperativa. Não faz diferença com quem quer que seja. Estando disposto a brincar, ela topa! Quando está brincando com Negão, Branquelo só fica de olho.

Lia, muito antissocial, não aceita suas brincadeiras – costumo dizer que ela se acha humana demais para brincar com um canídeo!

O interessante destas brincadeiras está no zelo que Negão tem para com Manu, sua “filha adotiva”. Ele é muito maior e mais forte que ela, e por isso mesmo tem um cuidado redobrado ao correr e brincar de pega-pega.

Ambos invertem as posições também: ora ela quem pega, ora é ele. Quando é ele que corre atrás dela, faz que vai mordê-la, como faria com qualquer outro cachorro, mas com uma delicadeza admirável. Outro aspecto a ser destacado é que para interromper sua fuga, Negão dá pequenas patadas em sua perna traseira, de forma igualmente sutil, apenas para indicar que “a pegou”. Sinal claro de respeito e consciência de uma situação que poderia machucá-la.

(Vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=6q_elHmlBR8)

De longe, Branquelo só observa e tenta atraí-la para brincar. Mostra-se, claramente, enciumado. Não se contentando, resolve tentar entrar na brincadeira, mas querendo que ela ignore Negão e dê atenção apenas para ele. Como não surte efeito, Branquelo apela para um brinquedo para chamar sua atenção – uma bola de meia. Manoela é atraída e vai atrás dele. Branquelo fica erguendo a bola e virando de um lado para o outro, evitando que ela pegue. Depois de um tempo, começam a brincar de correr, em uma espécie de pega-pega. Branquelo sabe que está em vantagem, e sempre a espera chegar até bem próximo para iniciar nova corrida. Quando Manoela ameaça reverter a situação, Branquelo finta-a com paradas bruscas e meia-volta, tal como um drible de futebol (ou ainda, quando brincamos com bebês de corrida e fazemos de conta que eles estão conseguindo nos alcançar, apenas para agradá-los e motivá-los).

(Vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=lHxJNnDwnzY&feature=youtu.be)

Mais uma curiosidade neste entretenimento deles: a capacidade de antecipar situações. Branquelo corre na frente e passa por um buraco da lona que separa o colchão e o quintal. Manoela, como os demais, dá a volta pelo caminho “correto”. Porém, antes mesmo que ela chegue até o colchão, Branquelo já volta pelo mesmo caminho, fazendo-a de “bobinho”. A brincadeira segue repetidas vezes. Quando Manu opta por passar pelo buraco da lona, Branquelo já espera no canto para assim que ela pular, ele passe e escape de suas mordidas.

(Vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=ZgEteDYSd7U)

Suricato é outro que antecipa situações. Não se importa em brincar com eles. Ele adora brincar de bolinha. Sempre trás até nós para que joguemos longe para busca-la. No entanto, quando jogamos para que ela bata e volte em uma parede, Suricato corre até certo ponto e espera que ela quique e volte, economizando seus passos – e energia.

suricato e bolinha
Suricato e sua inseparável bolinha. (Foto: Luiz F. L. Padulla)

Tenho certeza de que o leitor que tiver em sua casa qualquer animal como companhia, deve ter alguma história para compartilhar. Animais domesticados podem até ser facilmente avaliados em suas ações sob determinadas situações. E tenho absoluta convicção que não seria diferente com os animais que (sobre)vivem em zoológicos e são escravizados em circos e rodeios.

Não vou nem entrar na questão da dor e na capacidade de sentimento – tenho certeza que é inegável para qualquer ser vivo dotado de um mínimo sistema nervoso. Pesquisadores confirmam que as estruturas cerebrais que produzem a consciência em humanos também existem nos animais. (Não à toa, pesquisas recentes já dizem que os próprios insetos são dotados de sentimentos. Baratas, inclusive, teriam personalidades distintas, o que justificaria sua grande capacidade adaptativa. Por sinal, Darwin já alertava sobre isso desde 1872!)

Sendo assim, deixo este singelo post com tais observações para pensarmos e refletirmos novamente sobre a real função dos zoológicos nos atuais moldes, assim como a bizarra prática dos rodeios: qual o nosso direito de aprisionar esses seres inteligentes, dotados de sentimentos? Até quando negaremos os fatos por pura maldade e benefício próprio? Abramos nossas mentes e libertemos nossa consciência.

O neurocientista Philip Low, ao defender a presença de consciência nos animais não-humanos, deixa o recado:

“Sabemos que todos os mamíferos, todos os pássaros e muitas outras criaturas, como o polvo, possuem as estruturas nervosas que produzem a consciência. Isso quer dizer que esses animais sofrem. É uma verdade inconveniente: sempre foi fácil afirmar que animais não têm consciência. Agora, temos um grupo de neurocientistas respeitados que estudam o fenômeno da consciência, o comportamento dos animais, a rede neural, a anatomia e a genética do cérebro. Não é mais possível dizer que não sabíamos (…). É impossível não se sensibilizar com essa nova percepção sobre os animais, em especial sobre sua experiência do sofrimento.”.

Não é porque a ciência não consegue provar “cientificamente” a existência dessas características, que nós devemos negá-las!

 

*Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências, Especialista em Bioecologia e Conservação

 

Links:

Cockroach have personalities, study finds: http://www.reuters.com/article/us-belgium-cockroach-personalities-track-idUSKBN0M614H20150310

Experiências sugerem que insetos têm sentimentos: http://www.sobiologia.com.br/conteudos/noticias/noticia65.php

“Não é mais possível dizer que não sabíamos”, diz Philip Low. Disponível em: http://veja.abril.com.br/noticia/ciencia/nao-e-mais-possivel-dizer-que-nao-sabiamos-diz-philip-low.

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