Zoológicos: a extinção das espécies!

*Por Luiz Fernando Leal  Padulla

No mesmo mês que o gorila foi morto por funcionários de um zoológico, que não souberam interpretar o comportamento de ajuda do primata, outra notícia abalou a população de um modo geral: a morte de um garoto de 2 anos por um crocodilo que vivia em um lago da Disney.

O hábitat, no caso, foi invadido pelas construções do mundo de Mickey Mouse. Na tentativa de impedir maiores danos à população dos répteis, mantiveram alguns desses lagos a fim de manter os animais. Uma combinação, diga-se de passagem, um tanto quanto incompatível com o local de entretenimento infantil – ainda mais sem qualquer tipo de proteção para os frequentadores e aos crocodilos.

E esses assuntos tomaram conta de uma de minhas aulas com alunos do 3º ano do ensino médio. Ao explicar-lhes as situações, muitas de suas dúvidas foram sanadas e entenderam o que se passa nesses locais, em especial nos zoológicos.outra-universidade-cancela-atracoes-com-zoo-na-inglaterra-prisões-zoológico-brasil-szb-especismoDias depois, um de meus alunos, Lucas, ainda estava intrigado com tudo aquilo que foi discutido em sala de aula e pediu mais algumas orientações. Seus questionamentos eram principalmente sobre a função dos zoológicos, afinal, havia lido algumas notícias sobre a importância na questão de manutenção das espécies em cativeiro.

Neste mesmo período, recebi um email da jornalista Cynara Menezes, também questionando alguns pontos sobre essas instituições, sendo a principal delas, o fato de ter ouvido que em “50 anos todas as espécies dos zoológicos estariam extintas por falta de variabilidade”.

Em resposta a essas duas perguntas, optei por escrever este breve post, de maneira complementar ao anterior (“Precisamos falar dos zoológicos!” – https://biologosocialista.wordpress.com/2016/06/04/precisamos-falar-dos-zoologicos/)

De acordo com a International Union for the Conservation of Nature and Natural Resources (IUCN), o principal objetivo da conservação da biodiversidade é a de se manter a variabilidade genética das populações, garantindo a viabilidade dessas populações. No entanto, o que vemos nos zoológicos, em sua quase totalidade, é o oposto disso.

Afinal, erguem a bandeira de preservação, mas não prezam por programas de reintrodução na natureza. Paralelamente, o lobby e toda a propaganda positiva que fazem sobre esses centros de tortura é imensa, a ponto de confundir e manipular a conscientização das pessoas, que são induzidas a acreditar na benfeitoria destes locais.

A perda da variabilidade genética, que seria similar ao que chamamos de “efeito gargalo” em evolução, ocorre principalmente pelos cruzamentos entre seres aparentados entre si, sendo um fator prejudicial para a manutenção das espécies – seria como primos tivessem filhos entre si.

zoologico

Em um breve levantamento que fiz, consultando os dados da própria IUCN, encontrei que dos projetos existentes de reintrodução de vertebrados na natureza, correspondem a apenas 4% das espécies.

Um argumento igualmente batido dessas instituições é a de que o ambiente está degradado e  não se tem local adequado para a reintrodução. Pois bem. O que estamos esperando então para investir na preservação ambiental para a reintrodução das espécies? Alegar isso e não fazer nada é o mesmo que saber como uma doença é causada e ficar esperando uma pessoa ficar doente para administrar-lhe um remédio, sendo que é possível evita-la.

Como finaliza o artigo de Zacariotti et al. (2013), “para que se obtenha sucesso em um programa de conservação, as estratégias empregadas devem focar em longo prazo a preservação da espécie dentro de seu hábitat e utilizar o cativeiro ou a biotecnologia da reprodução apenas como ferramentas auxiliares para conservação”.

É muito claro que de nada adianta a manutenção em cativeiro se nada for feito para sua reintrodução. Um programa eficiente – e verdadeiro – de conservação e restauração da fauna silvestre deve ocorrer concomitantemente com a conservação e restauração do habitat natural.

Enquanto mantivermos esses seres inocentes trancafiados em recintos inadequados, reproduzindo-os e usando seus filhotes como moedas de troca, sem que programas e projetos de reintrodução sejam efetivamente colocados em práticas, seguiremos tendo essas instituições como meros centros de lazer e exposição ao público – e em alguns casos, envolvidas no tráfico de animais e rentabilidade clandestina –, sem que se honre o ideal da verdadeira preocupação e conservação ambiental.

Em tempo: seguindo o exemplo da Costa Rica, que determinou o fechamento de todos os zoológicos, o zoológico de Buenos Aires, fundando em 1875, também anunciou que encerrará suas atividades exploratórias. O local destinará mais de 1,5 mil animais a santuários, e será transformado em um eco parque. Aguardaremos.

*Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências, Especialista em Bioecologia e Conservação

 

Links:

Rogério Loesch Zacariotti, R. L.; Bondan, E.; Durrant, B. 2013. A importância da conservação ex-situ para a preservação de espécies ameaçadas de extinção e/ou endêmicas. Herpetologia Brasileira – Volume 2 – Número 2.

‘Captivity is degrading’: Why a major city is shutting down its zoo. https://www.washingtonpost.com/news/morning-mix/wp/2016/06/25/captivity-is-degrading-why-a-major-city-is-shutting-down-its-zoo/

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4 comentários sobre “Zoológicos: a extinção das espécies!

  1. Vc tocou em outro ponto importante: a variabilidade genética. A maioria das pessoas acha que se ainda houverem espécimes vivos a situação pode ser revertida, mas em muitos casos a extinção e apenas questão de tempo. Imagino que uma espécie em risco de extinção já esteja muito mais enfraquecida no aspecto genético do que podemos imaginar. Pode não ser nesse século, mas talvez no próximo

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