Precisamos falar dos zoológicos!

*Luiz Fernando Leal Padulla

Relutei em escrever de imediato sobre a morte de mais um inocente. Relutei porque sabia que tomado pelas emoções, com a indignação tomando conta de meus sentimentos, poderia até falar demais.

Passou-se uma semana. Consegui ver o vídeo quase até o fim. Li muitos comentários e notícias sobre o fato, mas minha indignação continua a mesma. A conclusão que cheguei é a de que não há como diminuir e relevar esse sentimento. Principalmente quando se vê que muita coisa errada ainda é defendida nesse mundo.

A primeira pergunta que me fiz: como um zoológico não consegue evitar uma tragédia como essa? Não vou nem entrar no mérito de culpar os pais ou não da criança que caiu no fosso. Vou me atentar nesses centros de tortura!

Trabalhei por três anos e meio com chimpanzés que viviam em cativeiro (a grande maioria era resgatado de zoológicos e circos). Nesse período aprendi muito, principalmente a entender o comportamento desses primatas. Vivi situações em que exigia a interpretação dos fatos. Lembro-me até hoje da fuga que presenciei no Santuário. Na ocasião, os chimpanzés Carlos e Noel escalaram o muro do recinto através de um cobertor que foi colocado para secar de forma errada. De imediato o alerta de fuga foi dado para que todos os funcionários se trancassem em um local seguro. Eu, a veterinária e o gerente do Santuário fomos atrás dos dois. Era notável o medo deles em um ambiente diferente, mas contrapondo essa situação, também mostravam valentia e insatisfação com nossa tentativa de leva-los de volta. Restava obedecê-los. Após algumas horas observando-os e conversando com eles, eis que conseguimos manejá-los de volta. Carlos voltou de forma tranquila, apenas na base da conversa. Já Noel, por garantia, foi anestesiado, mas não deu trabalho, permanecendo sentado perto de um dos recintos até o anestésico fazer efeito.

Conto essa pequena situação para dizer que ao lidar com seres inteligentes que são esses animais, principalmente os grandes primatas, devemos compreendê-los e saber interpretar suas ações. Isso deveria ser obrigação em qualquer zoológico. E o de Cincinnati não fez isso.

Ao contrário da fama que o cinema trouxe com o famoso filme de King Kong, os gorilas estão entre os grandes primatas mais amistosos que existem – apesar de seu porte físico intimidador. Quem conhece o comportamento destes seres, claramente entenderia que a atitude do gorila Harambe foi de resgatar, zelar e proteger a criança. O cuidado com que ampara a criança e segura sua mão, mostram que sua intenção não era de ameaça-lo.

Binti Jua
Garoto é salvo pela gorila Binti Jua, no zoológico Brookfiel, em Chicago. Perceba que ela carrega em seu ventre, o próprio filhote, e mesmo assim socorre o humano.

Era muito provável que Harambe tivesse o mesma atitude que a gorila Binti Jua teve em 1996. Na ocasião, em um zoológico de Chicago, ela resgatou uma criança de três anos que caiu, bateu a cabeça e desmaiou em seu recinto. Binti Jua, carregando seu próprio filho, afastou os demais primatas e tomou o cuidado de leva-lo até a porta de entrada de seu recinto para que os tratadores o tirassem dali em segurança. Lembro-me como se fosse hoje dessa notícia nos jornais e noticiários de televisão (cheguei até a guardar recortes da matéria por achar aqui espetacular).

Mas Harambe não teve chance. Até tentou, mas foi morto de forma cruel e covarde por pessoas despreparadas desses locais que erguem a bandeira de proteção e preservação animal, mas mostram-se incapazes e despreparados.

Harambe (1)
Harambe corre em direção a criança que caiu no fosso para socorrê-la. Observe o cuidado que teve ao segurar a própria mão do garoto.

Surge novamente a pergunta: para que servem os zoológicos?

Em pleno século XXI, ainda nos vangloriamos por trancafiar animais em recintos para apreciá-los, mesmo com comportamentos nada naturais e estereotipias evidentes, mostrando claramente os efeitos dessas prisões na vida desses animais.

Importante também lembrar como surgiram os zoológicos. Tudo começa com a captura e aprisionamento de negros, índios e aborígenes que eram levados à força para que barões desfrutassem das “novidades selvagens”. Posteriormente, pessoas com deformidades e anomalias congênitas eram igualmente exploradas, até que decidiram intercambiar espécies exóticas que eram roubadas do habitat natural para alegrar interesses pessoais e, mais tarde (e até hoje), serem usadas como fonte de renda e lucro. Apesar de avançarmos séculos depois, mantemos tais hábitos arcaicos, primitivos e ultrapassados.

Por mais adequado que possam parecer, o fato é que os zoológicos NÃO RESPEITAM os seres que lá (sobre)vivem. São verdadeiros centros de tortura, despreparados, com condições deploráveis. Faça um breve exercício: imagine-se no lugar desses animais. Estaria contente ao passar sua vida inteira sendo assediado pelo público humano? Sendo uma ave, não podendo sequer alçar um voo de liberdade?

Muitos vivem em condições precárias, passam fome, sede e carecem de condições mínimas necessárias. Volto à lembrança para os chimpanzés com quem trabalhei. Os piores casos de recuperação eram justamente os que vinham dos zoológicos: transtornos psicológicos gravíssimos que exigiam medicação e trabalho constante de observação e tentativas de socialização. Os danos causados pelo assédio público, infelizmente, nunca mais sairão de suas mentes.

E para quem tente argumentar que são lugares para preservar a espécie, faço outra pergunta: conhece algum plano de reintrodução desses seres na natureza? Afinal, vemos tantas notícias de nascimento de animais nos zoológicos que, se realmente pretendem a preservação, deveriam ter algum projeto de soltura, não? Mas será que é isso que fazem? Ou o que querem é apenas arrecadar dinheiro à custa desta exploração? E assim, uma terceira pergunta: para que reproduzir em cativeiro se serão mantidos ali, aumentando o número de seres que jamais verão a natureza e poderão ser livres? Isso é preservar? Qual o sentido?

Outro fator importante e delicado deve ser lembrado e posto em discussão: o tráfico de animais. Estatisticamente, esse tipo de tráfico só é menos rentável que o de drogas e de armas. E sim, ele também ocorre dentre destas instituições. E não é pouco.

E o que nós faremos? Assistiremos novas mortes, ficaremos revoltados nas redes sociais e…esqueceremos? Quantos Harambes mais precisarão morrer desta forma para que tomemos alguma atitude mais séria?

De que adiantou a demonstração de empatia de Binti Jua se, duas décadas depois, ainda estamos ignorando os fatos e optando por manter esses seres sencientes trancafiados para nosso bel prazer e, se necessário, sacrificando-os por culpa nossa?

Até quando fecharemos os olhos para diversos outros animais que sucumbem nesses locais e nem ficamos sabendo porque não geraram tamanha comoção? Insistiremos nesses erros e seremos cúmplices desses abusos?

Eu não. E faço o mesmo convite a você. Talvez não possamos ser tão fortes contra essas instituições e seu poderio econômico, mas lembre-se que a existência dos zoológicos só é possível porque ainda há pessoas que frequentam esses locais. Façamos essa corrente de boicote aos zoológicos. Só assim poderemos ser mais fortes que eles e salvar a vida desses prisioneiros inocentes.

Ou aprendemos a reconhecer e aceitar que não somos os únicos seres dotados de inteligência e sentimentos, ou continuaremos a viver uma falsa sensação de revolta e total hipocrisia.

*Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências, Especialista em Bioecologia e Conservação

 

Link:

Vídeo da ação de empatia de Binti Jua (1996): https://youtu.be/qJmPI1ezanQ

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