Reescrevendo os livros de Biologia!

*Por Luiz Fernando Leal Padulla

Em uma de minhas reflexões diárias, estava eu indo à caminho do mercado. Na rua que se apresentava à frente, árvores e construções. Árvores florescendo “erroneamente” durante o outono.

Eis que me surge um pensamento: os livros de Biologia deverão ser reescritos em breve.

Imagine que um aluno chegue e conteste em sua aula: “professor, se as árvores devem florescer para que tenham as flores fecundadas e possam dispersar suas sementes em época apropriada, como se explica a florada desta árvore que está aí na rua, em pleno início de outono?” E outro ainda pode completar: “como as flores serão fecundadas por agentes polinizadores se não é época adequada para a proliferação de abelhas e aves? E se acorrer a formação das sementes e frutos, o solo estará seco e o clima frio para que essas sementes germinem!”.

Alterações climáticas e a própria influência dos produtos químicos no ambiente urbano poderiam justificar tal comportamento anômalo, influenciando toda a fisiologia do vegetal? Creio que sim, afinal, é nítido que não existe mais a delimitação clara das estações do ano – para desespero dos professores de Geografia!

E não pense que estamos restringindo apenas à Botânica. A Zoologia também está mudando!

teiu

Tivemos recentemente a descoberta de um réptil de sangue quente. Isso mesmo! Estudos de biólogos brasileiros e canadense, publicado na revista Science Advances mostra que o teiú (Salvator merianae) é capaz de elevar sua temperatura durante o período de cópula.

Na matéria divulgada no site da FAPESP, os pesquisadores fizeram registros durante o período de dormência e pós-dormência (fase reprodutiva). Na fase inicial, com o metabolismo muito reduzido, mantiveram seus corpos à 17oC, enquanto que na fase reprodutiva, ainda na toca, os animais mantiveram sua temperatura corporal vários graus acima da temperatura da toca (até 10 graus centígrados acima da temperatura ambiente, produzidos internamente!).

E o que dizer quando nossos livros ainda trazem a frase de que “o único animal racional é o ser humano”? Como negar a inteligência de outros vertebrados (e por que não, de invertebrados!), a sensibilidade, a compaixão e tantas outras características até então tratadas como exclusividades humanas? Quem possui um cachorro ou gato em casa, ou até mesmo observa o comportamento de primatas, sabe bem do que estou falando.

Durante os anos que trabalhei como biólogo no Santuário dos Grandes Primatas de Sorocaba – filiado ao Projeto GAP -, observei vários comportamentos que não negam tais características também aos outros animais. Neste período, pude analisar várias situações, que usei para minha tese de doutorado, assim como em algumas publicações acadêmicas – algumas coloco os links ao final do post.

 

projeto gap

Calma! Não precisa se julgar errado em seus conhecimentos, caro colega! Isso é a Biologia em seu estado mais puro e dinâmico! E esse é o lado legal da ciência: ela não é estática, e tudo aquilo que aprendemos em nossa vida escolar e acadêmica, carece de revisões constantes – ainda mais em tempos de internet.

E lembre-se: quando seu professor de Biologia disser que os únicos animais homeotérmicos são as aves e os mamíferos, desconfie!

*Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências, Especialista em Bioecologia e Conservação

 

LINKS:

Pesquisa descobre que os lagartos teiús têm sangue quente. Disponível em: http://agencia.fapesp.br/pesquisa_descobre_que_os_lagartos_teius_tem_sangue_quente/22590/. (O artigo Seasonal reproductive endothermy in tegu lizards (DOI: 10.1126/sciadv.1500951), de Andrade e outros, publicado no Science Advances, pode ser lido em http://advances.sciencemag.org/content/2/1/e1500951.full )

 

A influência do recinto nas atividades físicas de chimpanzés (Pan troglodytes) em cativeiro. Disponível em: http://www.apespain.org/web/wp-content/uploads/2014/09/Boletin-2009-03.pdf

 

Atividade de pintura de um primata não-humano (Pan troglodytes) e sua comparação com primatas humanos. Disponível em: http://www2.pucpr.br/reol/index.php/BS?dd1=5939&dd99=pdf

 

Ocorrência natural de teoria da mente em um grupo familiar de chimpanzés vivendo em cativeiro. Disponível em: http://eduep.uepb.edu.br/rbct/sumarios/pdf/Artigo_BioTerra_V11_N1_2011_15.pdf

 

PROJETO GAP: www.projetogap.org.br

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