Dislexia: evolução da espécie?

*Por Luiz Fernando Leal Padulla

Em uma reunião  pedagógica com o corpo docente e direção da escola, fizemos a leitura de um texto para discutirmos o assunto DISLEXIA (“Compreendendo a Dislexia”, da psicóloga Sabrina Mazo D’Affonseca).

Confesso que desconhecia muita coisa sobre a dislexia (e muita coisa há de ser estudada e descoberta).

Enquanto educador, percebo que é iminente a busca por técnicas de ensino/aprendizagem que supram a necessidade de alunos que apresentam alguma dificuldade em sala de aula, que a cada dia se tornam mais frequentes.

No entanto, o que me chamou mais a atenção foi o caráter genético da mesma, e não apenas relacionados a fatores ambientais. Geneticamente, estaria associada tanto a poligenia (mais de um gene associado) quanto a um determinado cromossomo – estudos falam do cromossomo 15 e também o 6, segundo Pennington (1997).

Citações de Nicco (2005) e Hallahan & Kauffman (2000) afirmam que esse funcionamento peculiar do cérebro para o processamento da linguagem, é hereditário e com incidência maior entre crianças do sexo masculino (em uma proporção 3:1). Ainda segundo os pesquisadores, cerca de 10% da população é acometida pela dislexia, podendo encontrar relatos de até 30%.

Mas a que se deve o aumento significativo desses problemas?

Acredito que dois pontos devem ser levados em consideração:

  1. Hoje é mais fácil a busca por diagnósticos precisos em relação a qualquer tipo de transtorno de aprendizagem;
  2. O ambiente e suas tecnologias corroboram para que eles também apareçam, sendo, portanto, selecionados POSITIVAMENTE para a sobrevivência da espécie (sim, a seleção natural de Darwin/Wallace – por sinal, Darwin era disléxico!).

Seria a dislexia um avanço da espécie? Parece loucura, não? Mas é plausível! O aspecto que levanto aqui é, no mínimo, intrigante e muitos podem não concordar. Mas apresento minha defesa.

Em primeiro lugar, todos sabemos que a escrita e a própria leitura estão cada vez mais ausentes no dia a dia das crianças – substituídas por youtubers, vídeo-aula, digitação em tablets e smartphones.

Segundo ponto: toda a capacidade de armazenamento de informações, analisando criticamente sob o aspecto cotidiano, não é mais necessária. Isso porque a qualquer momento de dúvida, basta acessarmos o OK GOOGLE e teremos as respostas em segundos.

Sendo assim, não seria mais vantajosa a seleção de indivíduos que consigam diminuir suas conexões cerebrais para direcioná-las para outros fins?

E nós, na tentativa de “enfiar na cabeça desses alunos” todas as informações, estaríamos jogando contra a evolução?

Paralelamente, enquanto finalizava esse post, meu aluno do 3º ano do Ensino Médio (Pedro) me enviou uma matéria falando exatamente sobre isso, querendo saber minha opinião: a Finlândia, o país com o melhor índice educacional do mundo, começa a revolucionar o ensino ao trocar o aprendizado da caligrafia pela digitação em computadores e tablets. Pois é. Já a partir do ano letivo de 2017, os alunos iniciantes do primário não serão mais obrigados a aprender caligrafia – no entanto, ainda aprenderão letra de forma. Estariam os finlandeses prevendo essa possível evolução?

Li em um artigo o seguinte parágrafo que talvez devêssemos repensar:

“Alguns pesquisadores acreditam que, quanto mais cedo é tratada a dislexia, maior a chance de corrigir as falhas nas conexões cerebrais da criança. Em outras palavras, a dislexia, se tratada nos primeiros anos de vida da criança, pode ser curada por completo. Nunca é tarde demais para ensinar disléxicos a ler e a processar informações com mais eficiência. Diferente da fala, a leitura precisa ser ensinada.”

Será? Não sou expert no assunto, mas levanto essa questão para questionamentos e troca de informações. O que acham? Estamos jogando contra o processo evolutivo? Nossa pedagogia e didática devem ser repensadas?

*Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências

 

Referência :

D’AFFONSECA, S. M. (2006). Compreendendo a Dislexia. Disponível em: http://www.profala.com/artdislexia13.htm

FRANÇA, B. 2016. Estamos às vésperas de uma revolução educacional? Disponível em: http://papodehomem.com.br/estamos-as-vesperas-de-uma-revolucao-educacional/

Hallahan, D. P. E Kauffman, J. M. Exceptional Learners: Introduction to Special Education Needham Heights, MA: Allyn e Bacon, 2000.

NICCO, M. N. 2005.  A nova definição da dislexia. Disponível em: www.dislexia.org.br

Pennington, B. F. Diagnóstico de distúrbios de aprendizagem. São Paulo: Pioneira, 1997.

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