Acredita em anjos da guarda?

*Por Luiz Fernando Leal Padulla

O relógio batia quase onze da noite de sexta-feira quando finalmente pude respirar e olhar aquela criaturinha dormindo calmamente entre os panos, ao lado da geladeira de minha casa. Uma lágrima correu em meu rosto. Inevitável. Afinal, não podia acreditar na história triste e que quase teve um final trágico, não fosse a providência de dois anjos.

Seu nome será Manuela (Manu), em homenagem ao bairro que foi resgatada. Uma simpática e serelepe filhote resgatada de dentro de uma caçamba de entulho, prestes a ser lançada no aterro da cidade.

Seria algo rotineiro que o motorista do caminhão faria, mas neste dia foi diferente. Por algum motivo maior (sabemos quem!}, desta vez, antes de simplesmente acionar o comando do caminhão para liberar os entulhos, esse primeiro anjo da guarda de Manu decidiu verificar a caçamba – algo que ele nunca faz. E lá estava Manu, assustada com tudo aquilo.

Levou-a para o escritório e entregou-a para seu segundo anjo da guarda: Carol, minha ex-aluna de um dos colégios que lecionei. Sua bondade e compaixão, sempre presentes em sala de aula para com as pessoas ao redor, mostraram quão grandioso é seu coração. Sem pensar duas vezes, acolheu a cãozinho e levou-a para casa, mesmo sabendo que lá não teria como ficar com ela – principalmente por ser inquilina de donos que não suportam animais.

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Manuela Maria Padulla, salva pelos anjos da guarda. (Foto: Luiz F. L. Padulla)

Seu compromisso com a vida e respeito aos animais falaram mais alto. Tratou de alimentá-la e hidrata-la – estava magra, com olhar triste e assustada. Mas em poucos dias, ganhava peso e se animava. Sentia que naquele humano, poderia confiar. Foi aí que Carol me mandou uma mensagem avisando do ocorrido e pedindo ajuda para achar um lar para ela.

Ao ver as fotos, o coração derreteu. Muita coisa me veio a pensamento. Os inúmeros cães que passam pelo mesmo tipo de abandono, o sofrimento, a dor e, claro, não poderia deixar de lembrar de minha filha Laika Maria, que ano passado nos deixou depois de lutar bravamente contra um tumor.

Enviei mensagem para vários amigos, na tentativa de conseguir alguém disposto a adotá-la. Ninguém respondia. Mostrei para minha esposa (que também é “cachorreira”) e senti que seu coração também amoleceu um pouco mais. Fui dormir. Mas o pensamento estava naquela cachorrinha e na urgência de resolver a situação.

No dia seguinte, logo cedo, antes mesmo de sair para trabalhar, mando mensagem perguntando sobre a cachorrinha. Somente no horário do almoço obtive a resposta. E até então, ninguém havia se prontificado a ficar com ela. Conversa vai, conversa vem. Eis que escrevo: “Carol, acho que vou ficar com ela!”. Escrevi com o coração e deixei, de certo modo, a razão de lado. Sei da responsabilidade de cuidar de mais uma vida – ainda mais filhote. Mas assim como já cuidava de meus outros filhos, tive comigo que deveria dizer sim para essa situação.

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Após mais uma manhã agitada, brincando, correndo, latindo, finalmente o sono bateu em Manu, que repousa como um anjinho. (Foto: Luiz F. L. Padulla)

E aqui estamos nós, com mais uma doce criaturinha. O que importa é que Manu foi salva por anjos, pessoas do bem. E são dessas pessoas que devemos falar e agradecer. Não quero pensar no que leva uma pessoa a cometer tamanha barbaridade para com um ser vivo – não compete a mim tal julgamento. Infelizmente não foi a única e não será a última vez que nos depararemos com situação tão triste e revoltante. Mas ainda tenho a esperança de uma evolução na mentalidade e respeito ao próximo por parte da humanidade. Enquanto houver esperança, devemos acreditar. Só assim teremos um mundo melhor e novamente em harmonia.

Aos anjos da guarda da Manu, meu sincero MUITO OBRIGADO!

*Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências

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5 comentários sobre “Acredita em anjos da guarda?

  1. Lágrimas esvorrem em minha face e uma prece entoou automaticamente “pelos terceiros” anjos de Manuella Maria. Luis Fernando e Patrícia Nara. Que deus possa retribuir com muitos momentos especiais ao lado desse serzinho indefeso e que recebeu um grande lar para viver. Lindo texto. Lindo gesto. Corações lindos. Abraços sinceros (que já dei com grande euforia na Paty)

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  2. Bom, nem preciso dizer que chorei e enquanto eu lia passou um filme em minha cabeça. Anjos…. Segundo o dicionário: “Anjo é uma criatura espiritual que habita no céu e tem a função de mensageiro entre Deus e os seres humanos.” Que me perdoe o lexicógrafo e muito conhecido Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, mas tenho que discordar de seus estudos e conclusões, baseada em fatos vividos por mim. Talvez os anjos decidiram descer a Terra e se materializarem em alguns humanos. E eu não podia me calar frente a Anjos da Guarda como vocês Luiz Fernando Leal Padulla e Patrícia Nara Mirandola Padulla, assim como as pessoas que ajudaram a Manu. Falo em nome do “Jorge” e até da linda “Manu”. Obrigada por amar, proteger e zelar por vidas que aos olhos do mundo são insignificantes, por seres vivos que não têm “voz”, nem ao menos são vistos como seres que tem sentimentos, frio, fome, medo… Quantas vidas que se pudessem gostariam de agradecer (Laika “in memorian”, Lia Maria, Branquelo, Suricato, Negão…)enfim, sua pergunta inicial foi, se acredito em Anjos da Guarda ? Sim, acredito e é baseada nessa minha crença e na minha convivência com esses Anjos sem asas é que começo a acreditar nessa evolução humana cujo respeito a toda forma de vida é de extrema importância…

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