Analfabetismo político

*Por Luiz Fernando Leal Padulla

Como bem descreveu a deputada Marcivânia, nunca se viu tanta hipocrisia por metro quadrado. Pela família, pela igreja, pela ditadura, por Deus….por tudo, menos pela democracia e pela vergonha na cara. Ainda que preguem a luta contra a corrupção, é incoerente esse tipo de argumento sendo proferido por uma Câmara que possui em sua composição 95% de deputados acusados de corrupção. Ainda que desconsideremos que a votação deveria ser baseada apenas no relatório sobre o possível crime de responsabilidade. No entanto, ninguém ousou debater o assunto justamente por não haver nada que justificasse o pedido de impedimento.

As cenas foram as mais deploráveis possíveis. Da bizarra votação e discurso fascista do Bolsonaro pai e filho, que além de elogiar Eduardo Cunha, foi ultrajante e desrespeitosa para com as vítimas da ditadura. Mas não parou por aí. Ainda tivemos inúmeros deputados fazendo citações às suas famílias, parentes, aniversário de seus netos, “pela renovação carismática”, “pela BR 429”, “por todos os corretores de seguro”, entre tantos outros exemplos degradantes da imagem do parlamento brasileiro.

Essa é a imagem de nosso país. Uma imagem desgastada e motivo de chacota no exterior, onde a imprensa relata tal votação como um “carnaval” e a “insurreição de hipócritas”. Será que viríamos essas cenas em outros congressos? Acho bem improvável.

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Crédito: ocafezinho.com

Um verdadeiro circo, onde palhaços tiveram seus minutos de fama podendo fazer todo e qualquer tipo de consideração. Falas absurdas, patéticas. Fizeram de tudo, menos levar a sério o iminente risco à democracia.

Como dizem, “o melhor do Brasil é o brasileiro”, que tão logo começaram as barbaridades, lançaram memes pela internet. Seria cômico se não fosse realmente trágico. Ainda mais por saber que esses palhaços que lá desfilaram para as câmeras, foram eleitos pelo povo. Devemos nos perguntar: estamos sabendo realmente votar? Quantos não votaram em Tiririca, Sérgio Reis e Romário pela figura pública e não pelo conhecimento político?

Uma batalha foi perdida, mas a luta continua! Não é por um partido ou ideologia apenas. É pela democracia. E que essas falas e políticos, assim como os partidos que se alinharam ao processo golpista, em desrespeito às urnas e a própria Constituição sejam lembrados daqui em diante e fiquem marcados nos livros de História como os verdadeiros inimigos da nação. E esse é o ano, afinal, teremos eleições.

lista votos
Eis os partidos que votaram integralmente pelo golpe.

Obviamente que, enquanto brasileiro, não farei o mesmo discurso hipócrita e antinacionalista dos opositores e torcerei para que o melhor ocorra ao país. Não desejo o “quanto pior, melhor”. Mas tenho plena certeza de que, instituindo-se o golpe partidário-midiático-judiciário, muitos dos que hoje apoiam o golpe, achando que basta destituir Dilma para que o Brasil fique livre da corrupção e voltemos a crescer – independentemente da crise mundial, inclusive! – ainda irão sofrer com as possíveis medidas econômicas que prometem vir por aí. No entanto, será tarde e teremos o retrocesso como já afirmei no post anterior (https://biologosocialista.wordpress.com/2016/04/15/calhordas-em-acao-contra-uma-nacao/).

Programas sociais que retiraram o Brasil no mapa da fome serão gradativa e surdinamente podados, assim como o FIES, Pronatec, Minha Casa Minha Vida e tantos outros. Mesmo que tais programas sejam benéficos à população e tenha retorno econômico para o país, medidas que favoreçam apenas os mais abastados serão priorizadas, aumentando ainda mais a desigualdade social. As investigações contra corruptos serão encerradas e os mesmo, anistiados sob a fuça de uma justiça seletiva. Foi isso que ocorreu com o Paraguai em 2012 e está acontecendo agora em 2016, na Argentina, com o direitista Macri.

Não é isso que queremos. Não é isso que merecemos.

17042016 blog
Vale do Anhangabaú (SP). Foto: Luiz F. L. Padulla

Em tempo-1: o que nos motiva a continuar acreditando na esquerda e no futuro da nação, pude presenciar no Anhangabaú, em São Paulo. Haveria um show com Chico César, mas ao sermos perguntado se queríamos o show ou acompanhar a votação pelos telões, o coro foi “telão, telão!”. Demonstração de que a esquerda é culta e politizada!

Em tempo-2: ao proferir a frase, “Deus tenha misericórdia”, logo após seu voto, Eduardo Cunha se referia a quem? De sua alma corrompida pelo dinheiro ou do povo brasileiro que estaria prestes a mergulhar em novo golpe?

 

*Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências

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