Metamorfose no colégio

 

*Por Luiz Fernando Leal Padulla

6h16 da manhã de quarta-feira.

Tranco minha bicicleta e vou para a sala dos professores. Ao entrar, a surpresa: no chão, uma verde e quitinosa lagarta com suas maravilhosas cerdas urticantes em forma de pinheiro. Seriam mesmo urticantes ou um blefe? Mimetismo ou não, não pago para ver. Respeito-a.

Nossos olhares se cruzam. Fito-a enquanto pego meus diários de classe. Ela caminha com suas pernas ambulacrais. Seus passos são lentos.

O que fazer? Permanecendo ali, a chance de alguém mata-la é grande. Preciso salvá-la. Recorro a um pedaço de papel e peço para que nele se poste para poder tirá-la do cubículo.

Ela reluta por um instante e se enrola, mostrando seu armamento engenhosamente elaborado e selecionado para defendê-la. Peço que se acalme. “Não lhe farei mal algum!”.

Ela parece entender e se rende, escalando delicadamente o papel. Consigo ver seus pés se movendo. Como é lindo e poético o caminhar de suas pernas abdominais! Um vai e vem sincronizado, ritmado com as ondulações de seu corpo.

Direciono-me ao pátio, em busca de uma árvore para aloca-la, mas não antes de fotografá-la e registrar sua exuberante beleza.

Pronto. Agora vamos. Olho para uma enorme Sapucai cujo tronco reside uma linda orquídea. Do outro lado, ao que parece ser uma Sibipiruna, também poderia ser a opção. Opto pela Sapucaia, cujas reentrâncias de seu córtex podem facilitar sua escalada.

E lá se foi. Com os primeiros raios de sol a iluminar e esquentar sua hemolinfa, a lagarta sobe e segue seu rumo. O que lhe resta agora é esperar pela metamorfose.

(Nosso encontro foi rápido. Nem seu nome descobri. É da ordem Lepidoptera e vem da família Saturniidae. Desconfio genericamente que seja uma Automeris).

*Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências

Automeris sp blog 2
Automeris sp. escalando o tronco da Sapucaia. Foto: L.F.L. Padulla
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2 comentários sobre “Metamorfose no colégio

  1. Também não pago para ver! Porém posso afirmar que a taturana “cachorrinho” dói e queima demais. E nenhum remédio tira a dor. Mais ou menos 6 horas de dor intensa e mais umas 4 mediana. Fico pensando será que se um dia eu encontrar outra taturana “cachorrinho” vou conseguir fazer este belo gesto do professor? Parabéns Luíz!

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