A Biologia é cruel?

*Por Luiz Fernando Leal Padulla

Estava eu, no início de uma noite fazendo exercícios na sala de casa, olhando para minha barriga e lamentando os quilos a mais. Eis que, no intervalo de algumas flexões e levantamento de pesos, zapeando canais, parei no Discovery Channel. O título do documentário chamou minha atenção: “Meu corpo, meu desafio”.

Evolução-Obesidade

Imaginava encontrar histórias de obesos mórbidos e coisas do tipo. Mas não. O tapa na cara foi mais forte. Duas histórias que apareceram e fizeram meus quilos extras se tornarem tão insignificantes quanto à massa de um elétron.

Uma mulher que sofria de neurofibromatose e simplesmente não tinha mais rosto, devido à proliferação de tumores cranianos. Não conseguia mais enxergar e sua fala fora comprometida.

A outra, ainda mais comovente, tratava de Amethyst, uma garotinha filipina de três anos, que nasceu sem mão e pés, e com a mandíbula praticamente selada em sua maxila – a chamada síndrome hipogênese oromandibular. Sua rotina era praticamente a mesma que a nossa e não se via reclamações. Sua alimentação, privada de alimentos sólidos, se dava por sonda nasofaríngea. Amethyst não podia sequer saborear um sorvete. E mesmo sem pés e mãos, era uma menininha serelepe. Tudo para ela era motivo de alegria, mesmo com suas limitações. Um exemplo de superação e real valor à vida.

Vendo esses exemplos, só pude me envergonhar por meus pensamentos e lamentações tão superficiais. É a tal história do copo meio cheio ou meio vazio. Estamos mais acostumados a olhar os aspectos negativos, a lastimar o que não temos… e deixamos de lado a valorização daquilo que possuímos. Nossa gratidão tem ficado de lado.

Ao mesmo instante que era chocado/tocado por essas lições de vida, não pude deixar de pensar e analisar tudo isso à luz da Biologia.

Nascer, crescer, desenvolver, reproduzir e morrer. São essas as cinco etapas biológicas da vida. Parece cruel? Talvez seja. À luz da evolução, ainda mais: apenas os seres mais aptos têm condição de sobreviver. Assim, outras Amethysts, por exemplo, não deveriam sobreviver.

A pergunta que faço: negaríamos ajuda? Em sã consciência, jamais. No entanto, biologicamente, se esses indivíduos estão doentes, restariam duas opções: ou seus corpos reagiriam e se mostrariam capacitados geneticamente a sobreviver, ou seriam eliminados.

E o que fazemos, por exemplo, para tratar os doentes? Administramos-lhes medicamentos e cirurgias. Em resumo, jogamos contra a evolução das espécies justamente por impedirmos a atuação da seleção natural.

Usando o próprio exemplo da obesidade: causadora de doenças como diabetes, hipertensão e problemas cardíacos em pessoas que não teriam em sua genética condições para evitar tais acontecimentos, portanto, não seriam aptas a sobreviver. Mas a medicina surge com seus medicamentos para reduzir os níveis de glicemia, reguladores de pressão arterial e até mesmo cirurgias, “enganando” a evolução e permitindo a sobrevivência. Uma sobrevivência individual de algumas gerações pontuais, mas que compromete a sobrevivência dessa mesma espécie ao longo de tantos outros anos.

Poderíamos dizer que, uma vez mais, estamos sendo egoístas? Com certeza. Mas o próprio egoísmo é fruto também dessa tal evolução. Em algum momento, desenvolvemos nossa moralidade que nos permitiu justamente justificar nossa influência negativa na perpetuação de nossa espécie.

Cruel ou não, a Biologia é encantadora. Seja em sua análise pura e crua, ou até mesmo por suas dualidades e exceções.

Em tempo: as gordurinhas que tanto nos incomoda, são nossas conquistas evolutivas. Sim, orgulhe-se dela! Graças a essas reservas de energia é que pudemos sobreviver a grandes períodos de jejum, escassez de alimentos e proteção contra o frio. “Mas e daí?”, deve estar perguntando. “Se hoje eu tiver frio, visto uma blusa; se tiver fome, abro minha geladeira”. De fato, hoje nossos adipócitos são dispensáveis, mas como todo processo evolutivo, essa é uma adequação que poderá acontecer dentro de algumas gerações. Isso, claro, se a medicina não atrapalhar!

*Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências

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