MMA: manifestando nossos instintos

*Por Luiz Fernando Leal Padulla

Logo que o modismo das lutas de MMA começou a tomar as rodas de conversa, sempre me posicionava contra por achar aquilo uma “violência desnecessária”. Ao contrário do boxe, a “nobre arte”, que exige habilidade e tática, sem que seja necessário o desmaio de seu oponente, ou sangue espirrando e escorrendo para todo lado.

joe-stevenson

No entanto, fiz um questionamento para mim mesmo: por que gostamos tanto desse tipo de esporte? O que nos leva a assistir e prestigiar (in loco ou pela televisão) duas pessoas racionais se digladiando de forma tão violenta?

Fui atrás de possíveis explicações.

O primeiro argumento que li: “faz parte da natureza humana guerrear”. Ok. Até aí concordo, pois carregamos nossa memória de DNA que nos faz agir de forma “irracional” em muitas situações (recomendo aqui a leitura do excelente livro “Então você pensa que é humano?”, de Felipe Fernández-Armesto, onde é abordado esse nosso lado bestial).

entao voce pensa que e humano

Paralelamente, esse tipo de esporte é uma permissiva para que manifestemos nossas “irracionalidades” em uma sociedade moralista, elegante e formal. Em resumo, uma autorização ao que nos é reprimido. Porém, há diferença entre ser agressivo (comportamento esperado, que os garantiu a sobrevivência até hoje) e violento (esta sim considerada uma agressividade patológica).

Em entrevista para um site, o neurocientista André Palmini, diz:

“A nossa disputa para ser o primeiro colocado em um concurso é socialmente aceita. Há agressões que também podem ser esperadas dentro de um molde social, como as partidas de futebol. Diante de tudo isso, o ato agressivo tem um componente de prazer, porque dá uma sensação de pertencimento. O UFC é agressivo, não violento, embora lide com a agressividade. É uma oportunidade para as pessoas extravasarem seu lado agressivo, mostrar empatia”.

Para a bióloga Ivana Cruz, ser agressivo foi necessário:

“Todas as espécies precisam comer e se proteger desde que existiram. Mas os estudos evolutivos mostram que o ser humano é o ser mais agressivo da Terra porque ele teve que fazer muito esforço social para sobreviver, passar por instabilidade ambiental, falta de comida, dificuldades meteorológicas. Com o tempo ele desenvolveu ainda mecanismos mais refinados de agressividade, como as agressões verbais e não verbais, que puderam ser socialmente aceitas ou não”.

O que preocupa, obviamente, é até que ponto sabemos distinguir tudo isso de nossa realidade. Principalmente quando o assunto são as crianças, uma vez que as pesquisas comprovam crianças que assistem a mais conteúdos violentos costumam ter um comportamento antissocial. Cabe aos responsáveis, portanto, a constante atenção para com seus filhos.

E como tudo na vida, vale lembrar: “tudo em excesso faz mal”.

 

*Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s