Instinto materno

*Por Luiz Fernando Leal Padulla

Nunca duvidei do instinto materno. Um dia desses, ao passear com meus cachorros perto de uma creche que cria galinhas em seu jardim, nos deparamos com vários pintinhos que acompanhavam uma das galinhas. Era lindo de ver aquela mãe ciscando enquanto seus filhos, atentos, corriam para o rastro recém-aberto pelas patas da progenitora em busca de alimento. Ao mesmo tempo, era clara a ação evolutiva: aqueles mais espertos, corriam primeiro ao alimento e se sobressaiam. Darwin estava certo!

Alguns dos meus filhos caninos simplesmente os olhavam, sem se importar. Dois deles, no entanto, ficavam desesperados e pediam insistentemente para se aproximarem do alambrado que nos separava. Curiosamente, quando um deles (Branquelo), maior que as galinhas e galos, se aproximava, todos os galináceos ficavam estáticos e não emitiam qualquer ruído. Como se camuflassem no ambiente, ao mesmo tempo Branquelo ficava só observando fixamente, sem reação, a espera de qualquer movimentação para latir e investir contra o cercado. Só quando saíamos de perto é que voltavam à atividade normalmente. E já de longe, ao perceber, Branquelo latia, indignado, como se disse “você me enganaram! Vou voltar aí e você vão ver só!”.

Com Lia, uma pinscher, o comportamento foi diferente. Ao chegarmos perto do alambrado, onde a galinha estava com sua prole, ela começou a latir em direção à família. Imediatamente, ao invés de saírem de perto ou ficar parada, a galinha teve um atitude corajosa e valente: partiu em direção ao alambrado, cacarejando e abrindo suas asas, em clara ação de defesa de seus filhotes que por sua vez correram em direção oposta, fugindo do perigo.

Uma intimidação que pode funcionar, mas coloca em risco a própria sobrevivência do indivíduo. E isso é normal. Racionalmente, podemos muito bem dizer que jamais nos arriscaríamos, mas quando o que estão em jogo são nossos genes, a evolução fala mais alto. Isso mesmo! Por mais racionais que sejamos, sempre defenderemos nossos genes/filhos, afinal, é esse o objetivo biológico da vida: nascer, crescer, desenvolver, REPRODUZIR e morrer. Em teoria, só estamos nesse mundo para passar adiante nossa carga genética.

Assim, é louvável a atitude corajosa dessa galinha, mas como diz Dobzhansky, “nada na Biologia faz sentido a não ser sob a luz da evolução”. E viva a Biologia!

Em tempo: seria também esse comportamento mais uma prova da senciência animal? A definição de instinto seria a mais correta ou poderíamos supor algo maior – mais “humano”?

*Biólogo e Professor, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências

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