O som e o cérebro: um alerta

*Luiz Fernando Leal Padulla

Juro que tento entender o que se passa na cabeça daquela gente que passa com seus carros rebaixados (ainda que com asfaltos esburacados), com o espaço dos porta-malas ou caçambas lotados com amplificadores e caixas de som, com um único objetivo: fazer barulho. Ou alguém acha que isso impressiona alguma mulher? Como dizem, se impressionasse, “o tio da pamonha seria um felizardo!”.

Com diz a célebre frase, “seu direito acaba quando o meu começa”. E, sinceramente, não somos obrigados a conviver com esses barulhos.

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É irritante ter que conviver em meio à tamanha falta de respeito. Todos podem ouvir suas músicas – se bem que a maioria dessa gente, não sabe distinguir música de barulho! – mas respeitando o limite dos outros. Qual a graça de elevar tanto o som, que chega a disparar alarmes de carros estacionados? Ou, pior ainda, perturbar o sossego de pessoas em plena madrugada?

Não sou psicólogo, mas tento achar uma explicação freudiana ou coisa do tipo para essas pessoas. Cheguei até a pensar que a necessidade de mostrar uma potência sonora seria para compensar um diminuto tamanho de seus órgãos genitais. Está aí uma boa ideia para pesquisadores…

Uma geração perdida? Talvez. E a explicação pode ser dada por recente pesquisa, publicada na revista Brain Research, que afirma que o som alto afeta aprendizagem e a memória das pessoas. Isso porque ocorrem danos cerebrais que respondem justamente por essas características. Seria essa uma das explicações para o grande número de pessoas ignorantes em nossa sociedade que pede, por exemplo, a volta da ditadura militar e acham que a corrupção só é culpa de um partido? O dano é tamanho que faria com que as pessoas esqueçam dos casos de corrupção no Cartel do Metrô de São Paulo, desvio de dinheiro da merenda e a Lista de Furnas? O efeito seria ainda pior por aqueles que se (des)informam pela Globo e Veja, por exemplo?

intervenção militar

Assim, Karnal poderia ficar menos chateado quando afirma “quando vejo algum jovem pedindo a volta da ditadura, sinto que eu, como professor de historia, fracassei”, afinal, conhecimento e oportunidades estão sendo oferecidas, mas os jovens estão com as áreas cerebrais afetadas, impossibilitando a compreensão.

Paralelamente, os excessos de som alto, incluindo o uso de fones de ouvido, foram responsáveis, só em 2015, pela surdez em mais de 1 bilhão de jovens no mundo todo, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Além disso, igualmente grave e talvez pouca gente saiba, é que esses sons abusivos também altera o comportamento das pessoas ao redor, deixando-as mais impacientes, estressadas e agressivas, afeta o sistema cardiovascular e endócrino. Seria mera coincidência os altos índices de agressões e intolerância e nossa sociedade atual?

O estudo nos faz esse alerta. Mais do que conscientizar esses jovens, deve-se fazer com que as leis se cumpram. A perturbação pública, independentemente do horário que ocorra, é proibida. E mais: passível de punição por ser uma contravenção penal prevista no artigo 42 da Lei nº 3.688. Talvez essa seja uma grande dica para começarmos a mudar nossa sociedade que de uns tempos para cá, se tornou cada vez mais egoísta e ignorante.

Em tempo: acaba de ser publicado um documentário sobre a “Lista e Furnas”. Todo cidadão brasileiro (independente de suas preferências partidárias) deveria assistir. Link: http://www.diariodocentrodomundo.com.br/o-novo-documentario-do-dcm-sobre-a-lista-de-furnas/

*Biólogo e professor, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências

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