O Brasil é uma Venezuela?

*Por Luiz Fernando Leal Padulla

Muito se ouve falar sobre Che Guevara, Fidel Castro, Hugo Chávez e tantos outros líderes/revolucionários. Mas o que de fato é verdade e o que não passa de preconceito e falta de informação – para não dizer, má informação proposital. Sempre tive curiosidade sobre a biografia de algumas pessoas. Sanava algumas delas com breves buscas pela internet, mas nunca por completo. Sem falar que muitas vezes, acabamos por encontrar informações falsas, deturpadas e exageradas. Sendo assim, passei a recorrer aos livros.

Durante as últimas férias, fui buscar maiores informações sobre Hugo Chávez e seu regime bolivariano – dos quais muito se critica e pouco se conhece. Eis que achei dois livros em um sebo virtual: “Comandante – a Venezuela de Hugo Chávez”, de Rory Carroll e “Hugo Chávez – da origem simples ao ideário da revolução permanente”, de Bart Jones.

 

O curioso, como já disse brevemente em outro artigo, fazendo referência ao primeiro livro, é o paralelo que podemos traçar com os acontecimentos que vivenciamos no Brasil desde a ascensão dos governos progressista de Lula e Dilma Rousseff. Com maior riqueza de detalhes, o segundo livro chega a apresentar analogias e semelhanças estarrecedoras. Trago, abaixo, algumas observações que fiz durante sua leitura.

Com o Brasil atual, talvez por certa fragilidade em sua base governista, Dilma vem sofrendo o mesmo tipo de pressão que Hugo Chávez sofreu. Partidos de oposição, principalmente o PSDB, com histórico entreguista via privatizações absurdas, pregam o “quanto pior melhor” para tentar assumir novamente o comando do país e dar sequência aos interesses estrangeiros. A tática é a mesma de sempre: plantar o caos, divulgar dados negativos e tentar colocar a população contra o governo.

Recentemente, agência Standard & Poor’s atuou novamente rebaixando a nota do Brasil. Detalhou, no entanto, que o principal problema para os possíveis investidores é a crise política. Pois bem. Não sou expert no assunto, mas fica claro o que há por trás desse novo rebaixamento: forçar o Brasil a liquidar suas reservas de petróleo do Pré-Sal – como vem defendendo de forma escondida, o senador tucano José Serra através de um projeto a ser votado. Tudo se torna ainda mais suspeito quando documentos vazados pelo site Wikileaks mostram a promessa de José Serra, então candidato à presidência em 2010, em garantir o acesso ao Pré-Sal aos executivos da Chevron, pois teria como objetivo a derrubada do sistema de partilha, permitindo às empresas a posse exclusiva dos lucros. Como não pode cumprir sua promessa, restou-lhe tentar entregar aos norte-americanos via PLS 131/2015. Atacando justamente aquela que é a espinha dorsal do desenvolvimento industrial brasileiro: a Petrobrás.

serra assange brasil247
Crédito: brasil247.com.br

E não, a Petrobrás não está quebrada como a grande imprensa golpista tenta plantar. Muito pelo contrário. As reservas brasileiras estão entre as maiores do mundo e sua exploração, continua a todo vapor. A crise instaurada pela Operação Lava-Jato afetou sim, mas não a ponto de liquidar esse patrimônio brasileiro. Os preços baixos, não são reflexos da crise política, mas de um mercado mundial, afetados pela diminuição do consumo (fala-se inclusive em nova e iminente crise capitalista mundial, semelhante ou até pior a de 2008) e manutenção dos índices de produção, o que acarretou muito produto disponível, reduzindo seu preço. Sem falar em crises entre países do Oriente, o que também afetou o valor de mercado. Mas tudo isso, com o tempo, será passageiro.

E aí você deve estar perguntando: o que o título deste post tem a ver com isso? Tudo!

Tais fatos aconteceram igualmente com a Venezuela. Desde a propaganda negativa do regime bolivariano de Hugo Chávez, até a proposital desvalorização do petróleo – base da economia deste país. Partidos de oposição, juntamente com a grande mídia golpista, fizeram de tudo para que a população desacreditasse no governo e ficasse contrária a suas políticas – ainda que isso fosse degradante para o próprio país. O petróleo era, e ainda é, a força motriz venezuelana.

Em um dos trechos do livro, lê-se “o ódio da elite em relação a Chávez alimentava-se de uma variedade de fatores, entre os quais frustração, paranoia, preconceito de classe e um temor de ser preterido no projeto chavista. Tudo isso se reforçava pelo ataque ininterrupto e cáustico das peças de propaganda anti-Chávez nas emissoras, responsáveis por realizar uma lavagem cerebral em parte da população e incentivar algo semelhante a uma histeria coletiva”. É ou não é o que vemos em nossa sociedade nos dias de hoje? Claramente identificamos as notícias de jornais da Globo, Estado de S. Paulo, revista Veja, Época e suas manipulações. Por sinal, a rede de televisão venezuelana, Venevisión, seria o que a Globo é hoje, veiculando reportagens tendenciosas e deturpadas apenas contra o governo e omitindo qualquer uma que viesse a comprometer seus próprios interesses, sempre ligados aos partidos de oposição – lembremos recentemente da omissão referente às delações contra Aécio Neves (e foram cinco delações!), corrupção nos governos tucanos em São Paulo com o cartel do metrô, desvios das verbas de merenda escolar, para citar as mais recentes.

 

Na votação do Referendo para saber se Chávez deveria continuar no poder ou não, foi um grande exemplo desta parcialidade. “As grandes redes de televisão, controladas pelos magnatas da mídia que faziam oposição a Chávez, passaram o dia mostrando as longas filas formadas pelas pessoas que esperavam para votar nos bairros anti-Chávez (…). Elas não se deram ao trabalho de ir aos barrios de baixa renda, onde as filas eram tão grandes e o sentimento de apoio a Chávez, arraigado. Os canais de televisão, que tiveram uma participação importante no golpe de 2002 e nas greves econômicas, criaram a falsa impressão de que as forças anti-Chávez conquistariam uma vitória arrasadora no referendo”. Apesar disso tudo, Chávez ganhou com 59% dos votos – ou, 5,6 milhões de votos.

Tal como hoje, a Venezuela também teve grupos que não aceitaram a decisão das urnas. Alguns deles, também patrocinados por fontes desconhecidas, como o tal Movimento Brasil Livre, que erguem uma bandeira para tentar ludibriar aos cidadãos, mas por trás, tem seus interesses políticos e oposicionistas. “Os adversários de Chávez ficaram furiosos [sobre o resultado Referendo] e acusaram o conselho de fraude e de aliar-se ao governo. Lançaram manifestações de rua com uma nova tática de “desobediência civil”, que batizaram de Operação Garimba. Instruíram seus simpatizantes a erguerem bloqueios de rua e a buscarem abrigo quando a polícia ou outras autoridades se aproximasse (…). Com isso, pretendiam criar uma situação caótica, impedindo pessoas de ir ao trabalho, as escolas, as lojas e os hospitais (…) acreditando que os distúrbios provocariam a intervenção das Forças Armadas e que Chávez cairia dentro de poucos dias”.

Ponte Laguno
Batalha de Puente Llaguno, na Venezuela: posteriormente comprovada a farsa e manipulação por parte da mídia contra o regime chavista.

A não aceitação dos votos, recursos para a revisão dos votos e até mesmo a tentativa de cassação da chapa Dilma/Temer via Tribunal Superior Eleitoral, nos remete a tais fatos venezuelanos. “A oposição, no entanto, não engoliria o resultado tão facilmente. Uma hora depois do pronunciamento de Carrasquero, os adversários de Chávez começaram a aparecer na TV paga para alegar que o processo fora fraudado. Eles baseavam suas acusações, em grande parte, na pesquisa de boca-de-urna realizada pelo instituto norte-americano Penn, Schoen & Berland Associates (…). Além de infringir a lei contra a divulgação do resultado de pesquisas enquanto ainda houvesse eleitores votando, havia um outro problema com a enquete: ela fora realizada não por observadores neutros treinados para realizar pesquisas, mas por voluntários do Sumate, grupo anti-Chávez que liderara a campanha pelo referendo e que recebia dinheiro do National Endowent for Democracy (NED)” [criado para suplementar as atividades da CIA – Agência Central de Inteligência dos EUA – e que recebera 1 milhão de dólares por ano para serem repassados aos partidos de oposição à Chávez].

 

(Apenas para lembrar, golpes militares contra governos eleitos democraticamente, foram patrocinados e orientados sob a supervisão da CIA, foram deferidos na Guatemala em 1954, Brasil em 1964 e Chile, em 1973).

Revisões e auditorias foram feitas, legitimando mais uma vez a vitória de Chávez. A ânsia pelo poder era tanta que o comportamento da oposição chegou a ser considerada uma “neurose coletiva“ e “histeria”. “As pessoas eram bombardeadas 24 horas por dia, pelas emissoras de televisão, com peças de propaganda anti-Chávez, uma propagando ríspida, achincalhante e muitas vezes mentirosa (…). Instalou-se um bloqueio mental (…) Isso é quase uma patologia, concluiu a socióloga Margarita López Maya, da Universidade Central da Venezuela”.

E a propaganda no exterior, plantando o caos para, de repente, afugentar investidores tal como fazem conosco, foi marcante na Venezuela de Chávez. Não eram raros os editoriais de jornais como “The Washington Post” e “The New York Times”, achincalhando o governo chavista. E mais do que afrontá-lo, mentiam.

Todo o oba-oba e factoides contra a Petrobrás, são semelhantes a “greve do petróleo” que a Venezuela sofreu em 2003. Na época, a paralisação dos navios, patrocinada pela oposição, foi extremamente danosa para a economia do país. “A economia quase entrara em colapso, encolhendo 27% nos primeiros meses de 2003. No total, o movimento custou ao setor petrolífero 13,3 bilhões de dólares”.

Similar ao programa “Mais Médicos”, com a participação de médicos cubanos, foi igualmente colocado em prática na Venezuela. E como não poderia deixar de ser, também foi criticado apesar de sua eficácia, principalmente para a camada da população mais carente. “As missões de Chávez, de fato, não se limitavam a doações realizadas pelo governo. Elas serviam para estimular, mobilizar e organizar as comunidades como nenhum outro governo conseguira fazer no passado. (…) A onda contagiante de esperança que se espalhava pelos barrios não vinha apenas dos serviços de melhorias oferecidos pelo governo, mas da participação de seus moradores como cidadãos, oportunidade primeira em suas vidas”. Eis o segredo do sucesso e o motivo de tamanho carisma entre Chávez, Lula e Dilma. E também, o motivo de ódio por parte da elite.

A simplicidade, e origem humilde, sem o uso de máscaras, tornaram esses líderes alvo de uma elite racista e preconceituosa. A espontaneidade em tratar o povo e até mesmo a maneira de se expressar, viraram motivos de chacota e desrespeito – como se isso fosse algo determinante para um governante. Podem tentar derrubar tais governos, mas suas conquistas já estão eternizadas na vida das pessoas. Seria tão digno e merecedor de reconhecimento se toda e qualquer oposição, ao invés de tentar a qualquer custa assumir o comando, tivesse propostas reais para os cidadãos e assim o fizessem. À medida que as verdadeiras informações chegam até nós, entende-se porque a oposição segue perdendo as disputas nas urnas. Enquanto não olharem para a sociedade como um todo, não voltarão ao poder de forma legítima e democrática. O povo não é mais bobo, sabe reconhecer quem realmente faz e não apenas promete.

Durante dois mandatos, ou 8 anos, o PSDB esteve no poder e o Brasil pouco avançou. A desigualdade social só aumentou, as taxas de desemprego eram estratosféricas e a inflação ficava constantemente nos dois dígitos. Durante os governos de FHC os únicos beneficiados com suas privatizações e entrega de empresas estatais foram os estrangeiros. Paralelamente, abasteceu vários meios de comunicação para que mantivessem sua falsa fama de “bom político” para com a sociedade, escondendo o caso extraconjugal e suas implicações políticas para sua reeleição– entende-se hoje, todo o protecionismo existente por parte da Rede Globo de Comunicação em relação aos tucanos, como forma de “agradecimento” pelos benefícios concedidos pelo BNDES durante gestão de FHC. Hoje, com as denúncias da jornalistas e sua ex-amante, Mirian Dutra, vindo à tona, nota-se que essa imagem imaculada deste senhor, não passa de uma farsa, revelando-se um golpista, entreguista, que sempre agiu de maneira sórdida, fria e calculista.

Vende-se o Brasil

Em resposta ao título deste post: não, o Brasil não é uma Venezuela. Temos sim um potencial enorme em nossas reservas de petróleo, mas não é nossa única fonte de riqueza. Somo o país do turismo e dos agronegócios também. Somos uma nação rica em vários sentidos. Por mais que crises passageiras nos afetem, superaremos as mesmas, porém, sem retrocesso em nossas conquistas, sem segregar novamente seu povo, tal como Hugo Chávez, seguindo o sonho de Simón Bolívar para a América Latina, sempre desejou: a igualdade para todos.

Mas para que o caminho seja menos penoso, é necessário que os opositores aceitem a derrota, mas não queiram derrotar o Brasil. Ao invés de perderem tempo (e dinheiro, diga-se de passagem) confabulando diretório “pró-impeachment”, deveriam ter vergonha na cara e lutarem pelo país, afinal, se julgam-se realmente preocupados com o Brasil, por que não ajudam? Será mesmo que se importam com o país, ou querem apenas tomar o poder para novamente pensar em interesses próprios?

*Biólogo e professor, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências

 

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