Selfies nos tornam humanos?

*Por Luiz Fernando Leal Padulla

Sempre fomos educados (e ainda somos) a admitir a espécie humana como o top da evolução. E mais do que isso, os únicos seres vivos racionais – capazes, por exemplo, de amar, sentir dor e compaixão para com os demais seres. Com o avanço da ciência e pela constante pressão dos defensores dos animais, é iminente o reconhecimento de algumas dessas características – até então exclusivas dos humanos – em outros animais não humanos. Ainda que parte acadêmica relute em aceitar, principalmente porque acarretaria em mudanças bruscas nesse ambiente, como o fim das experimentações animais.

Não vou nem falar do aspecto exploratório da produção em massa de animais – sob condições abusivas e absurdas – para o abate e consumo de carne, por exemplo – que além das mortes, ocasionam danos ambientais gigantescos com a derrubada e eliminação de florestas e sua biodiversidade para o cultivo de pastos, contribuindo significativamente para o aumento dos gases da camada do “efeito estufa”, responsável pela temperatura global.

O motivo de escrever tudo isso foram duas reportagens que vi essa semana. Uma delas correu o mundo: o filhote de golfinho que teria morrido, desidratado, pela irresponsabilidade de pessoas que preferiram tirar “selfies” com ele ao invés de devolvê-lo ao mar. Na outra reportagem, nem tanto divulgada, tratava-se de um cachorro vira-lata, em Santos (SP), que simplesmente foi amarrado por três indivíduos (me recuso a chama-los de gente!) em um coqueiro e esfaqueado no pescoço. Por sorte (sinceramente, trocaria a palavra por “ação divina”), uma casal e uma adolescente viram a ação a tempo, chamaram a polícia e socorreram o pobre animal.

De acordo com a advogada que acudiu o cão, um dos agressores foi cercado pela população até a chegada da Guarda Municipal. Até aí, atitude que esperaríamos, dada nossa capacidade de compaixão. O bizarro – além da violência gratuita, claro! – é que, segundo o casal, muitas pessoas preferiram agredir o indivíduo à ajudar ao animal. “Teve gente que queria colocar o cachorro machucado ao lado do sujeito agredido para fazer uma foto e postar no Facebook”.

A pergunta que faço: qual a necessidade de tantas fotos? Qual o valor de uma “selfie”? Por que, hoje, prefere-se olhar o mundo ao redor através de uma tela de smartphone? Estamos perdendo o bom senso de nossa humanidade? Quantos não estão preocupados mais com a gravação de brigas, acidentes e tantos outros acontecimentos, que “esquecem” de ajudar/cooperar?

Há, inclusive, pessoas que não respeitam nem mesmo o momento de luto de uma família e fazem as tais “selfies” em velórios! É o cúmulo do absurdo, da ignorância, do egoísmo e de tudo que pode ser usado para definir essa falta de bom senso!

2d10dca0-27d3-11e4-a1f4-d9d5d9e0a5ab_globo
Mulher tira “selfie” durante o velório do político Eduardo Campos.

Há muita coisa para ser dita sobre o que realmente nos humaniza e o valor que devemos dar aos demais seres vivos. Mas por enquanto, vou parar por aqui para que tenhamos essa reflexão. Sinceramente, todas as caracterizações de ser “ser humano” cabem perfeitamente para vários seres.

(Em tempo: vale lembrar que hoje já existem sim alternativas para testes em animais. Ainda que tenham um custo maior, os resultados são mais eficientes e seguros. Assim como alimentos mais saudáveis ao invés da carne.)

 

*Biólogo e professor, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s